Estava tudo pronto para fazer cair Carmo e Trindade com o encerramento da feira da Moita.
Para a história trágica deste ano, nada melhor que um final dramático, se possível com lágrimas à mistura e tudo.
Não era caso para menos: a primeira foi contada na crítica como um desastre artístico e de bilheteira (um atalho aqui para dizer que por absoluta impossibilidade não assisti à corrida, e que me resigno a confiar na sensibilidade dos meus pares da informação); a segunda foi anulada devido aos fenómenos extremos que surpreenderam a meteorologia deste final de Verão; a terceira manteve-nos na expectativa até aos últimos momentos, porque o dia seguia lindo e morno até que a chuva “tropical” ensopou a arena… Um drama, a que se aliou um grande buliço “crítica vs empresa”, com palavras categóricas de parte a parte. Tudo isto só podia ser culminado com um final infeliz. Mas não. Um “(im)previsível” final feliz estragou todas as pretensões de levar a feira da Moita deste ano a um cenário hollywoodesco!
Êxito de bilheteira (oxalá tenha tapado o prejuízo) com as bancadas a ¾ e ainda mais importante um êxito ganadero e artístico, para esta emblemática corrida do fogareiro.
Os toiros eram Benitez Cubero. Uma ganadaria com 75 anos de história, de encaste singular e uma das mais emblemáticas da cabana brava. Atravessa uns tempos difíceis – um tanto como se passa com todas as ganadarias que não perfilham Parladé, tão estimado agora pelo nosso país vizinho. Daí que em Espanha se lidem nos dias de hoje, quase exclusivamente nas corridas a cavalo.
Os artistas foram sete. À falta dos outros nomes competitivos que acabámos por não poder ver, tivemos, pelo menos, variedade, nesta última corrida.
Dos sete, foi de Filipe Gonçalves o ponto alto da noite. Tocou-lhe o bravo de um curro encastado e colaborante, que levou ganadero a dar a volta com o cavaleiro algarvio. O quinto da ordem saiu enraçado e o cavaleiro levou-o para os médios embebido nas sedas da montada. Nos compridos, deixou o toiro vir de largo de poder a poder, recebendo-o com ferros sonantes (embora um deles descaído). Nos curtos continuou a aproveitar o salero deste toiro nas reuniões debaixo do braço, mão de alto a baixo ao momento do estribo, particularmente no segundo e terceiro ferros. A música foi tardia – ao terceiro curto, porque aos olhos do director, certamente saltou mais à vista as falhas de perfeccionismo do que as sonantes sortes em que o cavaleiro se arrimou. Seja como for, foi esta a lide que o público aplaudiu com entusiasmo. E no fim, o público exigiu mais – veio o cavalo das palmas e selou-se uma boa lide com dois ferros de violino.
Toda a corrida foi pontuada de nota alta.
Tinha começado Joaquim Bastinhas com uma das mais interessantes actuações que lhe vi esta temporada. O seu oponente, começou andarilho. Depois temperou e andou a empregar-se com ganas de colher, sem escolher terrenos e voluntarioso. Foi uma lide muito ligada, com bons apontamentos, bonitos quarteios e bons ferros. Terminou como era necessário: com o par a duas mãos (já com o toiro fechado em tábuas) desmontando-se da montada à porta de quadrilhas.
Luís Rouxinol esteve igualmente bem frente ao bom oponente que lhe tocou. Pena foi que o público lhe tenha estado sempre um pouco de em contra. O segundo da noite saiu claudicando um pouco. O primeiro comprido não se fez esperar e depois já não podia mandar-se recolher. Certo é que o toiro cresceu com a lide e aguentou-a de princípio ao fim sempre com ganas de investir, embora também raspasse e deixasse ver-se alguma mansidão! A brega levando o toiro ao estribo, as reuniões vibrantes, algumas com os pitons do toiro a roçar quase o cotovelo do ginete, foram o melhor da lide.
O terceiro foi sempre um pouco distraído mas Sónia Matias entendeu-o na perfeição. Uma lide redonda, frente a um toiro mais morno que andava, humilhava mas também se revolvia quando nas reuniões e a receber os ferros. Muito acerto de mão com todos os ferros em su sítio e o público consigo, foram mais uma entre um largo período que a cavaleira prova o notável momento que a sua carreira atravessa.
Gilberto Filipe tem um fado peculiar. Quando se escrever a sua biografia há-de notar-se que a sorte lhe faz tocar quase sempre o toiro mais pesado que haja para lidar. Esta noite foi uma dessas. Lidava o mais pesado – com 630kg, de um curro pesado (tudo acima da meia tonelada). O sério oponente tinha bom tranco, muito poder e adiantava-se. O que se viu foi uma lide muito inspirada, com uma brega de excelente nota, a ladear, mudando de mão e ferros de poder a poder! Boa lide, que terminou com um palmo e um violino.
Depois de Filipe Gonçalves, que lidou o tal bravo quinto da ordem, foi a vez de Manuel Lupi. O seu toiro foi o de menor qualidade. Mais reservado e menos vontade de investir, foi o que mais cedo se apagou. A lide foi sóbria, marcada pela correcção e pela cuidada preparação das sortes. Fez tudo para que resultasse mas a lide acabou por ser irregular.
Por fim Mara Pimenta que fechou a noite frente a um colaborante Passanha. O público “no bolso” e uma enorme vontade de triunfo foram os ingredientes certos para uma lide de nota muito positiva, a mexer bem o toiro nos terrenos, ferros em su sítio e uma grande fluidez e alegria.
Para as pegas estavam anunciados os Amadores de Santarém e Amadores de Alcochete (este ano a feira da Moita fica também marcada pela ausência dos dois grupos da casa).
Pelos Amadores de Santarém foi primeiro João Torres Vaz Freire a bater as palmas ao toiro. Quando começou a recuar o forcado desequilibrou-se e foi uma vontade imensa que o fez recompor-se e a conseguir reunir com eficácia para consumar à primeira. David Inácio não teve direito a lenço para a volta. O forcado da formação escalabitana via o toiro frenar nas reunião e a bater verticalmente para o tirar. À terceira, com o grupo mais cerrado, consumou com o toiro a bater muito. Ruben Giovety foi autor de uma pega enorme aguentando uma mangada forte do bravo quinto da ordem. Por fim António Gois esteve enorme frente ao Passanha. À primeira o opoente tirou-lhe a cara e desviou caminho e acabou por perder-lhe a cara e incrivelmente recuperá-la. O cabo mandou repetir e só à terceira consumou boa pega.
Pelos Amadores de Alcochete foi primeiro Nuno Santana, que teve por diante pega difícil com o toiro a vir a chouto e de cara alta. A reunião foi dura e difícil e o forcado teve que se impor na córnea. Ajuda dura de João Rei! Tomás Vale fechou-se com decisão e aguentou quando o toiro meteu os pitons na arena. O grupo foi eficaz a amparar e fechar a viagem sempre por baixo. Pedro Belmonte recuou uma enormidade e reuniu com suavidade numa excelente pega.
Nesta corrida foi homenageado Manuel Jacinto, bandarilheiro profissional que cumpriu o quadragésimo aniversário da sua alternativa, tomada exactamente na Daniel Nascimento.
Manuel Gama assumiu a direcção da corrida.
Sara Teles