Noite quente e de casa cheia em Samora Correia inserida nas tradicionais festas de Nossa Senhora de Oliveira e Nossa Senhora de Guadalupe. Era uma noite de rasgado interesse. A empresa levou um imponente e bonito curro de toiros de Canas Vigouroux (que eram, na verdade, novilhos, marcados com o ano zero na espádua). Trazia a ganadaria “forte cartel” nesta praça e quem foi no passado à corrida dos Canas, não podia mesmo faltar!
Luís Rouxinol quis apor adorno e liquidez à primeira função da noite. O encastado exemplar não estava para tais contas. Sem se impor nas reuniões, deixava margem para brilhar na brega e no remate dos ferros. Saindo por vezes em arreões, trouxe dificuldades e transmitiu à bancada. O toiro foi a menos (mercê quiçá do “muito pano” que lhe foram passado) e a lide a mais no adorno. Na segunda parte Rouxinol teve mais dificuldade em acertar passo com o oponente sério que veio sempre a mais com a lide e proporcionou interessantíssimos momentos. Saiu a passo e a medir e os dois compridos resultaram fora da cruz. Nos curtos resultou bem o primeiro e último, acometendo de frente e bem rematado, prosseguindo-se em diversos percalços que lhe impôs a casta do Canas. Toiro sério que embora metendo cara abaixo nos capotes com suavidade e igual nobreza nas reuniões, investia para colher e a perseguir a montada enraçado! Os curtos resultaram assim por vezes passados, outros aliviados numa lide esforçada mas sem grande lustro.
O primeiro jabonero da noite cabia a Sónia Matias. Estes jaboneros, que são promessa de emoções fortes, têm o condão de fazer reagir a bancada à saída enraçada e imponente talqualmente imporão respeito a quem os tenha por diante. Não se intimidou a cavaleira nem com a imponência nem com o muito sentido que o oponente revelou, adiantando-se quase sempre nos terrenos. Andou solvente, segura e tranquila, cumpriu a função com ortodoxia e lidou o toiro sem se eximir de pisar terrenos! Frente ao toiro mais complicado da segunda parte, voltou a apresentar grande ofício. Fechando-se em tábuas, saía em arreões quando a cavaleira (e não a quadrilha) lhe entrava na jurisdição para o tirar, e, recarregava emotivo no remate dos ferros e na brega. Com muito sítio e muito sentido de lide, executou ferros de nota alta em desenhado quarteio e aproveitou a transmissão do toiro para chegar às bancadas.
Filipe Gonçalves recebeu com bonita brega o seu primeiro oponente, que levou aos médios. Deixou um excelente segundo comprido e andou a entender-se nos primeiros curtos em que o toiro começou por ficar no engano e não aceder à sorte carregada ao piton contrário. Depressa se entendeu e aproveitou a codícia e a emoção que este belíssimo quinto proporcionou (toiro que ademais voltou para o campo para quiçá vir a padrear na peculiar ganadaria) com ladeares emotivos e emotivas reuniões nos primeiros curtos, o cavaleiro teve uma passagem meritória por Samora. A fechar a noite teve por diante o pior do lote. Manso, o exemplar cedo reservou em tábuas, esperava e tapava-se nos ferros a que reagiu por vezes a doer-se. Andou o ginete com muito empenho para lhe dar a volta e concretizou bons ferros e uma lide assertiva em que soube pôr o que o toiro não tinha.
As pegas a cargos dos Amadores do Ribatejo e Chamusca estavam rodeadas de expectativa. Os dois grupos estiveram, porém, à altura do desafio e verdade se diga, também, que os toiros não complicaram demasia.
Abriu praça o cabo dos Amadores do Ribatejo. João Machacaz viu o toiro arrancar-se de largo e esteve tecnicamente perfeito a mandar e receber à barbela com determinação. Ficou inanimado na cara do toiro e foi tirado pelos ajudas mas consumou uma boa pega ao primeiro intento. Também à primeira consumou Mário Gonçalves em boa técnica, aguentou a viagem alta mas sem derrotes que levou o grupo até tábuas. Sérgio Carmo recebeu bem mas não conseguiu fechar-se devidamente com a viagem muito por baixo. À segunda foi um pegão. Com o grupo ainda a tapar-se atrás do da cara que corrigiu terrenos para crescer e encher a cara ao toiro que saiu de tábuas solto mas “ para comer”, consumando emotiva pega.
Pela formação da Chamusca foram caras Emanuel Enjai que concretizou à terceira tentativa com enorme primeira ajuda. Igor Rabita em boa pega, aguentou a viagem com o toiro a fugir ao grupo nas tábuas. Por fim, fechou praça Diogo Cruz encontrou dificuldade na viagem com pata do exemplar e consumou à quarta tentativa.
Sara Teles
