Muito interessante foi a corrida de terça-feira, a última da Feira de Outubro de Vila Franca de Xira.
Primeiro o público. Estava meia casa – mas com tantos assobios, aplausos e vozes, pareceu mesmo estar casa cheia.
Depois as despedidas, três no total!
A despedida da empresa Tauroleve foi a que passou mais discreta. Em bom rigor, foi a última corrida de toiros e a última grande feira realizada sob a égide desta empresa que anunciou recentemente a cessação de funções na Palha Blanco.
Foi um feliz relacionamento este da Tauroleve com a «Sevilla portuguesa».
Especialmente nos últimos anos, em que o tecido empresarial taurino tem caído em desconsideração e desconfiança dos aficionados, a Tauroleve distinguiu-se e colocou-se como excepção! Não só aproveitaram sobremaneira o prestígio da Palha Blanco como o enlevaram, sempre sob uma incólume imagem de grande seriedade, sempre em privilégio pela figura do toiro e exigentes critérios de qualidade na escolha dos cartéis.
Outra despedida, foi a de Ernesto Manuel, bandarilheiro às ordens de António R. Telles, que simbolicamente lhe cortou a coleta no final da segunda lide. Despediu-se das arenas o bandarilheiro com 31 anos de alternativa, a quem se prestará homenagem no festival de dia 19, na mesmíssima praça de Vila Franca de Xira.
A última despedida foi a de «Petróleo». Estreou-se a pegar toiros nos Amadores de Vila Franca de Xira em 1993 e ao longo de 21 anos «serviu» esta jaqueta, tendo-se tornado uma das peças fundamentais nas ajudas do grupo. Esta noite, João Pedro Bento pegou de caras e despediu-se com a bancada de pé em verdadeiro reconhecimento!
E, posto isto, quanto à corrida…
As opiniões foram múltiplas e divididas. Mas se em tantas corridas o público sai opinando com um encolher de ombros, então quando tantas opiniões distintas são ditas em tão viva voz, é sinal que valeu a pena! É verdade: foi uma corrida de muito interesse. E digo isto, ao mesmo tempo que afirmo que o resultado artístico ficou aquém das expectativas.
Quanto aos toiros, apontados a encabeçar o cartaz: duas prestigiadíssimas ganadarias ibéricas de Victorino Martin e Pinto Barreiros.
Os de Victorino lidados na primeira parte, tiveram nota negativa em apresentação. Três toiros sem trapio, díspares entre si e que de forma alguma satisfizeram os sentidos apurados deste público de Vila Franca, que se habituou à excelência. Em comportamento, não lhes aponto tantos defeitos. Eram toiros complicados, sérios e com muito sentido o primeiro e segundo, e, um pouco mais cómodo o terceiro. Foram vaiados. Mas a apresentação não é tudo!
António R. Telles lidou o primeiro de Victorino Martin. Um toiro com muita pata e muito sentido, que se adiantava no galope ao lado da montada comprometendo e dando sempre a impressão de perigo. Saltavam imediatamente os subalternos para cortar o toiro e o público reagia em assobios. Foi uma consternação. O cavaleiro fez por ajustar terrenos e deixou a ferragem. Sobre o toiro recaíram todas as culpas e foi intensamente vaiado na recolha. Ainda assim, também não houve volta para o cavaleiro.
Na segunda parte abriu praça um belíssimo toiro de Pinto Barreiros. Luminosa capa castanha e bonita e ampla cara, distribuído de carnes – uma estampa a contrastar com os primeiros. À saída alegre, seguiram-se investidas de bravo, de qualquer praça, voluntarioso e saindo para onde quer que estivesse a montada. António Ribeiro Telles tem nesta praça um importantíssimo cartel e parece que todos os seus gestos se reflectiam em ovações. Esteve bem o ginete da Torrinha mas a verdade é que não igualou as qualidades do oponente. O toiro, esse sim, foi aplaudido de pé, exigiu-se a volta do toiro com os cabrestos e o lenço para a volta do ganadero. Foi um bravo de bandeira.
Vitor Ribeiro esteve francamente melhor frente ao de Victorino que lidou na primeira parte. Este exemplar tinha as mesmas características do primeiro: adiantava-se tanto a perseguir a montada como nas investidas para as reuniões. Como tinha menos poder e como teve uma lide mais conseguida, notou-se menos o que tinha de mal. Ora, Vitor Ribeiro lidou com acerto, mexeu bem o toiro e concretizou vários ferros de boa nota.
Na segunda metade, frente a um de Pinto Barreiros de muita qualidade, esteve menos assertivo. Alguns afirmam que terá sido este o toiro da corrida mas não creio. O toiro teve pormenores extraordinários – um dos que ficou na retina foi a forma como se empregou rematando no estribo (que gosto seria vê-lo nas varas!); e, era também voluntarioso, sem escolher terrenos tanto como se empregava nas investidas sérias para todas as sortes. Só que, ao invés do primeiro, não saía tão pronto tendo a montada por diante. Vitor Ribeiro não conseguiu encontrar-lhe as distâncias e ficou aquém do oponente mas este não excedeu as qualidades do primeiro.
Por fim, Duarte Pinto foi o que mais evidenciou. No primeiro, de Victorino Martin, encontrou o oponente mais colaborante dos que a divisa apresentou esta noite. Levou a efeito uma lide bonita, ligada, com bonitas sortes e todos os ferros en su sítio. Destacaram-se os últimos ferros de impecável desenho mas o feio tipo do oponente impediu que a bancada se mostrasse agradada.
Na segunda parte, o toiro de Pinto Barreiros acusou defeitos de locomoção e foi substituído pelo sobrero de São Torcato. Perante a boa matéria-primeira que lhe deu bom jogo, Duarte Pinto fechou a noite com uma lide cheia de verdade! E procurando sempre a «verdade» como chave do triunfo, metido na lide e inspirado, o cavaleiro selou a noite com excelentes ferros entre um ou outro percalço que impediram o sonoro triunfo que muito merecia.
As pegas estiveram inteiramente a cargo dos Amadores de Vila Franca de Xira.
Bruno Casquinha consumou à terceira tentativa, ante um toiro que ensarilhava e derrotava por alto.
Pedro Castelo encheu a cara ao toiro e acoplou-se em reunião perfeita para consumar à primeira tentativa.
António Faria, também à primeira, consumou uma vistosa pega, com viagem por cima e o toiro a levar o grupo até tábuas.
Petróleo (João Pedro Bento) consumou à segunda tentativa, numa pega que levantou as bancadas ante a eminente despedida desta importante «peça» da formação vila-franquense!
O cabo Ricardo Castelo reservou para si o que se mostrou mais complicado da noite e esteve tecnicamente perfeito, consumando à primeira tentativa.
Rui Godinho, à primeira, fechou a interessante noite da feira de Outubro de Vila Franca de Xira.
Sara Teles
