Foi ante uma sala bem composta que a temporada de 2018 do Campo Pequeno se iniciou. A ansiedade do público sentia-se na entrada, os touros anunciados, com muito trapio, eram o principal tema. Os António Silva que saíram em praça eram enormes, poderiam ter trazido muita emoção, é uma verdade contudo, foram reservados na investida e pouco serviram para as lides. Não é o ideal para os artistas… Mas a grande verdade é que a noite pode não ter sido perfeita, mas o ambiente não foi estragado por nada. Os cavaleiros elevaram-se para agradar ao público, as pegas foram emocionantes e o público esteve satisfeito.
Rui Fernandes abriu praça ante um imponente touro de 650 quilos, cuja investida era errática e depressa se desinteressou e cansou do cavalo, o ginete viu-se em dificuldades e acabou por nem ter volta.
A pega pertenceu a Francisco Graciosa, do grupo de Santarém, que conseguiu fechar-se com o portento à terceira tentativa, com forte papel do primeira ajuda, pois o impacto da cara do touro era violentíssimo.
João Moura Júnior teve neste segundo touro da nocturna lisboeta o melhor da noite. Era um touro colaborante, mais ágil e mais atento, permitiu ao cavaleiro da dinastia de Monforte uma brega de verdade, com ligações entre sortes e boa cravagem.
À cara desde hastado de 550 quilos, foi o cabo de Montemor, António Vacas de Carvalho, que se fechou ao primeiro intento.
João Ribeiro Telles Júnior teve outro dos touros na casa dos 600, neste caso concreto 624 quilos. Novamente um oponente com fraca investida, com alguns arremessos desagradáveis, a que faltou convicção na sua bravura. O cavaleiro coruchense adornou bem a sua lide e aproveitou o mais que pode do seu touro, mas teve de se manter sempre em curto e obrigando a investida que deveria surgir mais natural.
Do grupo de Santarém foi à cara Lourenço Ribeiro, que se fechou na cara do touro à primeira tentativa.
No seu segundo touro, Rui Fernandes também não teve grande sorte, mas teve muita toreria. Deu a volta a todas as complicações que o touro, muito mais colaborante do que o primeiro, adornou muito bem a sua lide, com a alegria habitual do seu toureio, levantou os tendidos e sentiu-se a emoção do cavaleiro que este ano comemora 20 anos de alternativa.
A pega foi entregue a Francisco Borges, pelo grupo alentejano, mas não correu da melhor forma e saíu da praça na maca, tendo a pega sido consumada à primeira por João da Câmara.
A Moura coube-lhe o maior touro desta corrida, com 685 quilos, a quem o toureiro sacou uma boa lide, apostando também no adorno e remates fechados com piruetas. Voltou a cravar ferros de palmo neste hastado, com muito brio.
Pelos forcados ribatejanos, saíu à arena António Taurino, pegando à primeira tentativa, mas lesionando-se um dos seus ajudas, que caíu mal após o impacto com o touro.
Telles júnior fechou praça com um touro de 588 quilos, em que se destacou o esmero na cravagem e os cites de largo, contudo alongou um pouco demais a lide, ao escolher cravar mais um ferro onde o touro se sentia nos seus terrenos, perto dos curros. Resolve a situação com um violino.
Francisco Bissaya Barreto, pela jaqueta vermelha de Montemor, consumou a última pega à primeira tentativa.
O Campo Pequeno agilizou a corrida, numa atitude sempre temida no mundo conservador que é o dos toiros, mas penso que a receptividade do público até foi muito boa. Talvez o não haver intervalo tenha sido o único aspecto controverso.
Nos dias de hoje, é vital que as corridas de touros comecem a corresponder mais aos padrões de ritmo e dinâmica do dia-a-dia. Um conserto de música pop ou rock não tem pausas, tem momentos em que há outro grupo a tocar ou um intercalar de dança ou acústico… e isto é um mero exemplo. As pessoas cada vez menos têm paciência para estarem onde quer que seja. A adaptação a este estilo de vida é algo que o mundo da Festa Brava precisa, reconheço isto apesar de eu mesma ser uma céptica quanto a esse mesmo estilo de vida. Ou seja, eu não me importo com umas longas cortesias, nem com um espectáculo prolongado. Mas sou eu. Não é a maioria, e as corridas têm de ser feitas de modo a conquistar as maiorias, para que haja futuro.
Deste modo, as cortesias foram feitas à espanhola, muito mais rápidas com a volta emparelhada dos cavaleiros. O intervalo foi cortado e a hora de início passou das 22 horas para as 21:45, o que tem imenso impacto em quem quer vir à corrida e conseguir apanhar os últimos trens de Metro, pois consegue-se, assim, terminar antes da uma da manhã.
Sílvia Del Quema
