A Herdade da Pina nas Alcáçovas é o regozijo do efectivo, dessa, que é a reputada ganadaria Passanha. Aqui, pede-se à natureza e à genética que se movam no sentido de presentearem a Festa com exemplares dignos de fixação no oponente, prontidão na investida, recorrido e nobreza. Segundo Diogo Passanha, estes são os contornos essenciais que procura encontrar quando o Toiro da divisa azul e vermelha sai à praça.
A ganadaria Passanha está no topo das mais conceituadas ganadarias portuguesas, como foi chegar até aqui?
Essa é uma história que remonta há quarenta, cinquenta anos quando o meu avô comprou esta ganadaria em Espanha e só com muito carinho, muita dedicação e sensibilidade se consegue manter uma ganadaria nos tempos actuais e fazê-la chegar onde ela está hoje.
Que tipo de obstáculos se encontram para conseguir manter uma ganadaria em Portugal?
Neste momento, o principal obstáculo é o preço. O preço de tudo, desde a mão-de-obra, os combustíveis, as rações, está tudo caríssimo. Tudo está acima das possibilidades, passando por todo o processo de logística, até aos valores de comercialização dos animais, que estão substancialmente abaixo do desejável. Temos de saber conjugar os factores, se não fosse o caso de ser uma ganadaria de topo não sei como se conseguiria manter.
Qual a sua posição relativamente à entrada de Toiros espanhóis em Portugal?
Há cerca de três anos começaram a surgir Toiros espanhóis por cá, eu nunca me opus, ainda assim assisti a colegas meus que de alguma forma se opunham e mostravam o seu desacordo. Temos que ter em conta, que houve anos em que nós portugueses exportávamos para Espanha seiscentos e setecentos Toiros por ano.
Eu não sou contra, se se colocar a possibilidade de entrarem Toiros espanhóis nos nossos espectáculos, eles que venham, mas venham com categoria. Nós quando mandávamos Toiros para Espanha mandávamos o melhor, portanto o inverso deveria ser igual pelo bem do caché e do espectáculo. No entanto, não foi isso que aconteceu, mandaram para nós aquilo que não queriam e acabaram por se prejudicar a si próprios. É caso para dizer que, o Toiro põe tudo no sítio!
O encaste Urquijo (Murube) está assumido como dominante, ou se tivesse oportunidade faria alterações ao processo de cruzamento?
Esta ganadaria, quando o meu avô a comprou foi adquirido um terço da ganadaria de Carlos Urquijo, murube puro e permanece inalterada desde então. É o único encaste que eu gosto, também é o único que eu conheço bem, por isso não me posso pronunciar relativamente a outros. Este encaste está bastante enraizado, os espanhóis da Union já aqui fizeram estudos de sangue e garantem que de todas as ganadarias é a mais pura do encaste murube.
É o último dos Moicanos do encaste murube!
A mim encanta-me isto, conheço cada vez melhor a ganadaria e dá-me um prazer louco trabalhar com ela.
Respondendo à questão, nunca faria qualquer alteração, porque se cruzasse deixava de ser o que é. O meu objectivo máximo é precisamente manter o encaste.
Na Herdade da Pina, quais são os factores dominantes que determinam a eleição das novilhas?
Quando fazemos as tentas somos muito exigentes. As novilhas têm que ir ao cavalo, como se fosse uma corrida integral espanhola, têm que marrar no cavalo o número de vezes que nós consideramos o ideal para vir a ser uma boa mãe, têm que ter fundo na muleta para aguentar uma faena. Têm que ser bravas e aguentar-se na muleta, se não se conjugarem estes dois factores e outros que nós exigimos, não passam! Têm que ter uma média de 18!
Concorda, quando a crítica refere que em Portugal tentamos para a muleta, quando deveríamos tentar para o toureio a cavalo?
Não, não concordo. Cada pessoa terá a sua opinião, o que facilmente se torna numa utopia.
O que é bravo, é bravo, tem é que ser seleccionado a sério, a ir ao cavalo, a ir ao castigo e o que é bravo numa coisa é bravo noutra.
O que se testa é a bravura, e não apenas o desempenho. Repare, o meu Toiro é procurado pelas figuras para tourear a cavalo e eu tento a pé. A bravura e a homogeneidade são os factores que procuro, eu não quero um Toiro que seja apenas o mais bravo, quero o que menos falhe.
Passanha é um Toiro com natureza de perseguir o cavalo, ou de investir à muleta?
É bravo, e é o que se procura. Actualmente, este Toiro não está completamente vocacionado para o toureio a pé, pela simples razão de que as figuras não os querem por serem grandes demais. É um Toiro com muito volume, que vai a uma praça de primeira com 560kg ou 570kg, tem um peito largo, é grande e as figuras não o querem.
Vejo corridas em Sevilha, em Madrid e percebo que não é este o tipo de Toiro que eles procuram neste momento, este Toiro assusta e é bravo.
Relativamente à perseguição do cavalo, o Toiro murube sempre foi o encaste conhecido não apenas por ser bravo, mas por ser o mais nobre. Segue o cavalo a galope e com a cara em baixo, não trota, nem vai com a cara por cima. Estas são características que a maioria dos críticos não sabe ver. Tenho tentado alertar para que entendam e reparem neste comportamento, mas nem sempre a crítica analisa da melhor forma, já perdi concursos de ganadarias em que o meu Toiro andou a galope dez minutos, em detrimento de outros que andaram de cabeça no ar e a trote aguentando o dobro. Há que valorizar e saber diferenciar um Toiro que corre devagar e de cabeça levantada, de outro que galopa empregado.
Quais são as razões que o levam a trazer de volta ao campo um Toiro que analisou em Praça?
Trago muitos, faço muitas experiência é um facto. Eu e o meu pai temos errado pouco, quando elegemos um Toiro para vir para trás. Posso explicar alguns pontos; primeiro, quando o Toiro chega à praça temos que olhar para ele e ver um Toiro sério, tem que ser bonito, bem armado, forte. O Toiro tem que ir bem à praça! Depois, tem que ser bravo, solto, os meus Toiros costumam muito sair soltos, não querem saber de nada, mas assim que levam o ferro a história muda completamente. É o que eu chamo, um Toiro que vem de menos a mais. É o que nós procuramos nas nossas vacas e nos Toiros, é que venham de menos a mais. Sai à praça solto, salta a trincheira… perfeito, mas no momento do primeiro ferro, aí está ele! Vem a casta toda ao de cima!
Vir a mais é também, quando chega à prova do forcado. A arrancar-se direitinho para o forcado depois de uma lide, é bonito de se ver, bem citado vem a vinte ou trinta metros a arrancar-se com força e de rabo no ar….essa é a prova dos nove. Não se pode querer mais!
A partir daqui, quando ele volta a casa….é segredo nosso!
A proximidade com a camada, permite-lhe conhecer o/os melhores exemplares? De que forma?
Identifico-os por tipo, depois conheço perfeitamente os pais e as mães de todos eles, assim como, os irmãos.
Selecciono um curro de seis Toiros e tenho a certeza que quatro ou cinco não falham, tem-se visto os Toiros que tenho mandado para Lisboa, naturalmente escolho pelo melhor, é a nossa primeira praça e não me tem falhado um Toiro em Lisboa.
É preciso conhecer a ganadaria, conhecer bem, temos de estar todos os dias no campo, ver o Toiro, observar o seu comportamento é muito importante, quanto mais nobre é no campo melhor. Eu defendo que o Toiro no campo deve ser “cordeiro”, para se mexer, para se apartar. Aquele que quer marrar no campo, é no meu entender uma ilusão, o Toiro tem que marrar é em praça e não no campo! Gosto do Toiro que no campo é humilde, que é nobre.
Recorda algum exemplar de destaque, que queira partilhar connosco?
Eu levo esta ganadaria há dez anos, o meu pai ajuda-me nas tentas, de resto procuro fazer um acompanhamento próximo e diário da ganadaria. Estou todos os dias no campo e conto com o conhecimento do meu pai na gestão desta ganadaria.
De todo este trabalho, recordo felizmente muitos exemplares, mas entre sete ou oito de maior destaque houve um que foi muito, muito, muito bom talvez por ser dos primeiros. Foi um Toiro que ganhou um concurso de ganadarias em 2004, toureado pelo Salgueiro, este foi de facto um Toiro impressionante. Relembro que foi dos tais que saiu solto, mas assim que levou um ferro o caso mudou de figura. Foi dos Toiros mais bonitos que saiu desta casa, esse Toiro morreu-me há pouco tempo, mas felizmente deixou-me uma boa descendência, ainda o ano passado lidei um filho dele que morfologicamente não era parecido, mas em termos de bravura não sei se não terá sido superior. Agora, o pai deste foi de facto o Toiro sonhado, morfologia, comportamento, estava tudo lá!
Imagine que sai à Praça o melhor exemplar da camada, quem o lidaria?
O toureio está muito evoluído, há muita gente a tourear bem. Enche-me de alegria perceber que as figuras querem tourear os Toiros Passanha, cada um à sua maneira.
De qualquer forma, idealizo uma corrida minha picada em Espanha, toureada por bons toureiros e tenho a certeza que não falhava.
Olhando para a história da ganadaria, quais foram os prémios mais relevantes do seu percurso?
No que respeita à última década, todos os anos tenho ganho três ou quatro prémios, atribuídos por sites, tertúlias ou revistas, uns de melhor ganadaria do ano, outros de algum Toiro que mais se tenha destacado, etc. Concursos de ganadarias, já não ganho há dois ou três anos, mas habitualmente evito participar em concursos, à excepção de Évora e Alcochete. Um concurso pode-me estragar um curro, e eu gosto de ter orientações muito homogéneas, até porque no meu entender não tenho nada a provar. O meu desejo é ver um curro meu com qualidade, seis Toiros bonitos, iguais e a investir, com os quais as pessoas se divirtam. Já ganhei vários prémios de bravura, mas não é isso que mais me apraz.
Na conjuntura sócio-económica que atravessamos quais a principais adversidades que se sentem ao nível do mercado ganadero?
As principais adversidades…haveria tanto a dizer. Começando pelos anti-taurinos, que são pessoas que não conhecem o que é um ganadero, não conhecem o nosso dia-a-dia, não sabem o que fazemos, e criticam, manifestam-se, falam sem saber.
Quem vive do mundo taurino, tem que lutar, tem que conhecer e entender porque esta é uma actividade que não é muito rentável, tem muitas adversidades e todos os dias temos que lutar contra elas. Há ordenados para pagar, incluindo o nosso, tem que haver uma gestão ponderada e carinho, muito carinho para que tudo isto resulte. A acrescer à presença dos “contras”, vêm os nossos governantes com medidas de contingência, onde se enquadram os aumentos de impostos, quer dizer, são um conjunto de factores que em nada favorecem o mercado ganadero.
Não querendo alargar-me muito em relação a este tema, tenho que reconhecer que dentro da própria festa não há interajuda, quando na verdade deveríamos apoiar-nos uns aos outros. Devíamos estar mais juntos, mais organizados para combater as contrariedades.
Quantos curros Passanha que serão lidados em 2013?
Vamos apontar para nove ou dez curros de quatro anos. No entanto, e por segurança não me comprometo com mais do que oito curros, porque tenho de contar com as brigas e os ferimentos que provocam sempre algumas baixas. Todos os anos tenho uns que brigam, matam-se e são Toiros perdidos. Mas isto é uma coisa que acontece em todas as casas.
Quais as principais praças a que estão destinados?
Neste momento a praças a que estão destinados são, Lisboa, Évora, França entre outras. Vamos vendo no decorrer da temporada.
Sendo esta uma ganadaria de origem espanhola, sente a responsabilidade de dar continuidade a esta passagem de testemunho?
A ganadaria neste momento não é minha, é do meu pai, eu sou um funcionário da casa. Vou fazer um esforço para que se mantenha na minha geração e na seguinte, embora pretenda que os meus filhos estudem e se quiserem levar a ganadaria o façam em paralelo com as suas vidas. Não gostaria que assumissem a ganadaria como actividade única.
Revele-nos algo que gostaria muito ver concretizado esta temporada.
Queria muito ver as praças cheias. Independentemente da ganadaria que compõe o cartel, o meu desejo é ver as praças cheias, pelo bem de todos, quero que todos triunfem.
Esses miúdos novos que aparecem a tourear a cavalo, gostava que se enchessem de ganas, e que se entregassem com verdade para triunfarem. Se não houver interesse e emoção, o público não tem atractivos para ir à praça, e desiste.
O Diogo, é bem relacionado no mundo dos Toiros, conhece várias opiniões e algumas bem experientes. Como julga que é classificado o seu Toiro?
Há várias opiniões! Agora, inventaram essa moda, que se resume a uma nova palavra que não consta de nenhum dicionário taurino, o Toiro “nhoc nhoc”, o meu Toiro não é “nhoc nhoc”, o meu Toiro empurra a sério. É um Toiro que pode ser mais fácil porque galopa, é mais nobre, mas não perdoa, quando tem que dar a porrada dá a sério.
Cada um intitula como queira! Na verdade, e o que mais me envaidece é que todos os querem.
São conhecidas as visitas da forcadagem à sua ganadaria, para treinos e convívios. Qual a razão que leva os rapazes da jaqueta lá a casa?
Eu quando posso ajudo. Os rapazes têm de treinar, e quando eles me pedem tento ajudar, mas nem sempre consigo. Por vezes deixo-os treinar com umas vacas mais velhas, desde que estejam fortes, ou com as novilhas que reprovam na tenta.
É como digo, quando me pedem e eu tenho possibilidade, treinam lá em casa, e não distingo pessoas ou grupos, acedo aos que me pedem. Tenho uma boa relação com os rapazes, tenho amigos em todos os grupos.
Os forcados são um elemento muito importante na festa, temos que lhes dar mais valor do que as pessoas possam pensar.
Quem é Diogo Passanha?
Sou um rapaz na casa dos quarenta anos, vivo da festa, sou casado e tenho três filhos.
Sou louco pela festa, é a minha grande paixão, sacrifico-me a mim e à minha família, passo verões inteiros que não os acompanho, porque estou habitualmente dedicado à festa.
Faço-o com muito carinho e dedicação, espero um dia vir a ser reconhecido por tudo o que venho fazendo pela festa.
Ana Paula Delgadinho
