O concurso de ganadarias de Évora coincidia ontem com a final do campeonato de futebol. Quatro dos oito jogos foram transmitidos pela televisão e 96.642 espectadores foram ao estádio mas os fiéis da tradicional corrida eborense nem por isso faltaram a esta 54ª edição e a praça encheu cerca de três quartos.
Não faltou o público mas faltaram outras condições. Quanto a mim, faltou imponência (sem a confundir com quilos) e faltou chama e emoção, nos toiros, nas lides e nas pegas.
Repare-se que os vencedores dos troféus de apresentação e bravura foram anunciados sem qualquer contestação do público – facto muito raro neste concurso. É verdade que o júri composto pela Tertúlia Tauromáquica Eborense foi assertivo. Mas também é verdade que não houve contestação porque não houve matéria-prima que nos pusesse a pensar.
No que se refere à bravura, não havia margem para dúvidas e venceu com toda a justiça toiro de Veiga Teixeira. Quanto à apresentação a atribuição do troféu já era mais discutível porque foi muito homogénea e nenhum dos toiros sobressaiu. Venceu o Passanha mas qualquer dos outros podia ter ganho sem agitar os ânimos. Na verdade, acabou por ser um espectáculo muito morno e falto de pormenor artístico.
O jabonero de Palha vinha num tipo muito distinto dos demais. No entanto, ficámos por conhecer-lhe a bravura, já que vinha diminuído dos curros e foi substituído. Trocou, assim a ordem e António Telles acabou por abrir praça com o Murteira Grave de 610kg que lhe teria cabido em segundo. Foi um toiro difícil, que custava a colocar em sorte, seguia o cavalo a trote, que só parava nos curros e que não humilhava. Mas o cavaleiro também não esteve bem. Um tanto aceleradas e com o toiro de cara levantada, as reuniões resultaram rudes. Na segunda metade já foi o maestro que lidou o sobrero de São Torcato que não entrava no concurso. O colaborante exemplar, deu bom jogo e lugar a uma lide em sentido ascendente com reuniões ao estribo, de alto abaixo e intensas. Sobrou à vista o primeiro curto de um conjunto harmónico.
A Luís Rouxinol coube o muito destacado toiro Veiga Teixeira (580kg) que saiu dos curros a galope e a perseguir a montada com codícia. Os bons modos do toiro acompanharam a lide e deram lugar a uma actuação limpa mas a que faltou o sal que o exemplar pedia. O Passanha acusou 555kg na balança e era de facto, bonito e bem rematado de carnes. A bravura, porém, não acompanhou a apresentação. Saiu dos curros desinteressado da montada e manteve-se reservado, a exigir que lhe pisassem os terrenos para acometer. Deu, porém, bom pano ao cavaleiro, que lhe esteve superior.
O listão de Rio Frio com 545kg, saiu com pata para a arena mas não se interessou pela montada de João Salgueiro. Apesar de o toiro se mostrar colaborante e com vontade de acometer, não lhe chegava a vontade para ir até ao fim e faltava nas reuniões e no remate das sortes. Ainda assim, depois de um sonante comprido à tira, o ginete logrou uma lide coerente com bons ferros. O São Torcato (505kg) que encerrava a corrida não teve a qualidade do sobrero extra-concurso. Reagiu ao primeiro ferro a doer-se e mostrou-se sempre reservado. Apesar de pouco transmitir nas reuniões, a interpretação de Salgueiro acabou por dar lugar a bons ferros.
Os Amadores de Évora e Montemor estiveram à altura do compromisso e, aliás, não tiveram uma tarde difícil.
Pelos Amadores de Évora abriu praça João Pedro Oliveira. Coerente com o que tinha feito na lide, o Murteira Grave não humilhou e o da cara empranchou, saindo da córnea. À segunda tentativa o forcado subiu no terreno e realizou a pega com boa ajuda do grupo. José Miguel Martins mandou o Veiga Teixeira arrancar de longe e entrar franco, recuou com suavidade e fechou-se com decisão à córnea num bonita pega. Ricardo Sousa viu o toiro sair pronto e armar o derrote levando a cara abaixo. Reunindo à córnea, aguentou o derrote para cima e consumou uma vistosa pega bem ajudada pelo grupo.
Pelos Amadores de Montemor-o-Novo, foi primeiro Francisco Borges. Com as ajudas muito consentidas e o toiro de largo, consumou uma boa pega à córnea ao primeiro intento. João Caldeira estava a chegar aos tércios quando o São Torcato arrancou a galope. Vendo que o toiro tinha com ele, não quis desfazer a pega e arriscou consumá-la em tábuas. O toiro entrou com pata mas suave a o grupo conseguiu fechar coeso e sem dificuldade. Manuel Ramalho ficou de lado na córnea e foi tirado pelo primeiro ajuda ao primeiro intento. À segunda, o Passanha repetiu o estranho na reunião e apesar de fechado à córnea, o forcado ficou de lado. Composto pelo grupo, consumou à segunda numa pega difícil.
Sara Teles
