Escolher ser toureiro é uma missão elevada e um sacerdócio, que se abraça – à partida – para uma vida inteira. A cerimónia de alternativa está para o toureiro como a ordenação está para o diácono: é o dia em que se “definitivamente” se escolhe uma vida de entrega a uma causa em detrimento da “liberdade”. Antigamente era mais assim do que hoje em dia, dizem. Agora que há mais facilidades, abandonar a viagem passa a ser tão fácil como embarcar nela.
Mateus Prieto escolheu tomar a alternativa a 10 de Junho de 2013 em Santarém. Volvidos cinco anos desde a estreia em Alcochete, reforçou a promessa de fé na sua arte. Parece-nos que é um caso de entrega verdadeira e pareceu ainda mais pelo que lhe vimos neste dia da sua alternativa; só os invernos dirão mas o nosso voto, é mesmo o de que a viagem seja longa e de sucesso.
Pois em Santarém, foi-lhe cedido pelo seu padrinho Joaquim Bastinhas o primeiro toiro do bom curro enviado por Manuel Veiga. Mateus Prieto deixou na cruz o primeiro comprido que apontou com mão certeira. Tirou o toiro do refúgio das tábuas e foi sem capotes que o colocou nos médios para o segundo bem executado e bem rematado ferro. Escutou música ao primeiro curto e mostrou toreria e sítio; brioso na brega, nas reuniões e nos remates das sortes, estudando logo os terrenos para o ferro seguinte. Entendeu o toiro: tirando-o das tábuas este acudia pronto, de largo para as sortes e foi assim mesmo que fez. Como o génio do toiro veio crescendo, encontrou mais dificuldades ao final, nos adornos de violino e palmo. Foi uma promessa!
O toiro que tocou a Joaquim Bastinhas foi dos que menos sobressaiu. Distraído e alheado, nunca esteve com o cavaleiro nem metido na lide. Deixou-se sem mas foi como se nunca se tivesse chegado a aperceber do que esperavam dele. No capote nunca baixou a cara mas nas reuniões dos ferros não incomodava. Muito sério e muito bem nos compridos; nos curtos Bastinhas optou por oferecer ao público o seu conectivo espectáculo. Terminou passando pelo corredor, com um par muitíssimo aplaudido pelo conclave.
Rouxinol esperou o terceiro da tarde em frente aos curros. O toiro saiu a passo e a mirar os tendidos, tornando ainda mais exigente uma sorte que de si já é difícil. O primeiro comprido foi por isso, um ferro de nota. Para os curtos, o toiro foi sempre voluntarioso e foi de menos a mais mas frenava no momento da reunião e o resultado foi uma lide bem conseguida mas sem transmitir, terminando com um par que agradou também à bancada escalabitana.
O quarto da ordem coube a Sónia Matias. Dos seis, foi o pior toiro mas nem por isso teve a pior lide. A cavaleira não está para deixar passar nenhuma oportunidade de mostrar o grande momento que atravessa e não hesitou em pisar os terrenos, castigando-o em tábuas donde saía em arreões para o levar também aos médios onde era mais suave. Muito público se levantou ao último ferro e a cavaleira, mostrou de facto, um grande ofício!
Saía em quinto, e, como “no hay quinto malo” Filipe Gonçalves tinha já as estrelas em seu favor. Fora a superstição, o melhor toiro do curro teve uma lide à altura. Sem perder tempo cravou os compridos com nota elevada e desenhou os curtos com adornados cites e vistosos remates com um intermédio de uma linha recta a entrar na cara do toiro e sair pelo piton contrário. Frente ao nobilíssimo oponente foi de muito acerto um último ferro em sorte de caras. Terminou oferecendo aos campinos trajados a rigor que embelezavam uma fila das bancadas, um bem executado par. Venceu justamente e sem margem para dúvidas o lugar em disputa para a corrida de dia 14.
O último da noite saiu em enraçado mas em lugar de vir crescendo com a lide como os anteriores, depressa veio de mais a menos. Muito ofício e veia foram necessários para conseguir a lide de nota que lhe deu Duarte Pinto. Belíssimos compridos de poder a poder (embora o segundo ficado descaído), precederam uma paciente série de curtos em que o muito reservado exemplar teve sempre prioridade. A generosidade da montada e o coração do cavaleiro para dar sempre esta vantagem ao toiro que saía em arreões das tábuas, foram a linha condutora de uma lide que o cavaleiro fez parecer muito mais fácil do que na realidade foi.
Para as pegas estavam designados duas formações ribatejanas. Santarém e Alcochete tiveram uma boa tarde com a divisa de Manuel Veiga, já que não sendo duros os toiros emprestaram muita transmissão às pegas.
Pelos Amadores de Santarém abriu função Diogo Sepúlveda à primeira tentativa. Luís Sepúlveda à segunda e António Grave de Jesus à primeira.
Dos Amadores de Alcochete foram caras Nuno Santana, Tomás Pedro do Vale e Rúben Duarte selando as três pegas ao primeiro intento
Sara Teles
