Não. Não era amigo chegado, intimo, do Zé Maria.
Neste Mundo da Festa dos Toiros, há uma palavra em comum: Respeito.
Respeito por quem se mete por diante do Toiro, com alma, raça, galhardia, coragem, amor e paixão. E eu, como aficcionado, respeitei o Zé Maria e, simultâneamente, aplaudi-o nas diversas vezes que o vi, estoicamente, pegar Toiros.
Devido à minha idade, embora não seja assim tão velho como isso, tenho maior relação de Amizade para com o seu Pai, o João Cortes.
Eu também sou pai e tenho um filho, aficcionado, que, também ele, escolheu uma jaqueta de ramagens para envergar e andar neste sublime, quão perigoso, Mundo da Festa dos Toiros.
Cada vez que ele sai de casa, sinto em mim um certo nó na garganta e só descanso, verdadeiramente, quando ele regressa. É o perigo da estrada, é o perigo das vacas em treinos, é o perigo dos toiros em treinos e corridas, é o perigo de uma dose, por vezes mais excessiva de copos, é o medo da noite, cada vez mais mal frequentada.
É a livre escolha dele e não quero, nem devo, cortar-lhe “as asas” por tão apaixonante arte. São palavras de pai e de aficcionado que também foi um jovem com sonhos por concretizar. Não tenho o direito de o acordar do sonho.
Conhecendo o João, como conheço, sei garantidamente da vaidade e do orgulho pelo Filho Zé Maria capitanear um dos Grupos de maior tradição em Portugal.
Sei da vaidade e do orgulho do João pelo filho Zé Maria ser reconhecido como um dos melhores forcados de cara desta nova geração.
A incógnita, a adrenalina, o auto-controlo emocional, o conhecimento, a técnica adjacente, o estar bem fisicamente, são factores determinantes para o sucesso de qualquer pega no singular. Acreditar no factor amizade, no suporte humano atrás de si, são factores preponderantes no plural.
A sociedade é, e está, bem diferente daquela do tempo do João Cortes. Esta sociedade, actualmente, é bem diferente daquela, mais recente, do tempo do Paulo Vacas de Carvalho. Esta sociedade, a de agora, do tempo do Zé Maria, é uma sociedade perigosa, demasiadamente perigosa. As razões não são para aqui chamadas pois todos nós sabemos a que isso se deve.
O Zé Maria teve a desdita de ter sido vitima desta mesma sociedade, a actual, a perigosa, a demasiadamente perigosa.
Há cerca de trinta e cinco, quarenta anos, recordo-me bem, não havia estes perigos na nossa sociedade. Andávamos com muito à vontade, de noite, pela rua, rodeados de amigos com o único intuito de nos divertirmos. Se bebiamos “uns copos”? Claro que sim. Se nos alegravamos? Óbvio. Desacatos? Brigas? Confusões? Muito raramente e quando havia, eram esporádicos e breves.
Há quem diga que o Mundo evoluiu. Confesso, não estou de acordo. Aliás, basta ver as noticias diárias que, gratuitamente, nos entram em casa. Basta ler as noticias nos diversos jornais que temos ao dispor. Há uma certa decadência na nossa sociedade, cada vez mais perigosa, demasiadamente perigosa. Acrescento: Mata-se por “dá cá aquela palha”.
Vamos reconhecer que, áquela hora e naquele lugar, o Zé Maria era apenas “mais um” dos muitos que por ali estavam. Á paisana, normalmente vestido, à civil. Quem o não conhecesse, não iria dizer que era, ou deixava de ser forcado. Não estava fardado. Não tinha jaqueta, não tinha cinta, não tinha calções. Estava com os seus amigos que, tal como ele, (suponho) não estavam fardados. Era um grupo, sim, mas de amigos que, só por acaso, são elementos de um Grupo de Forcados.
Mas há um outro grupo em cena. Um grupo de arruaceiros, conotados com a violência gratuita, provocadores, vilões e perigosos. Demasiadamente perigosos.
De tal ordem que, para essa “gente”, matar é… como beber água.
Pior. No caso concreto, excesso de alcool, permite-se assassinar (!) um jovem, de 29 anos, que, por acaso era elemento e cabo de um Grupo de Forcados.
Por acaso foi o Zé Maria (não esquecendo o Francisco Borges, também ele agredido barbaramente por um objecto cortante) a vitima, que veio a ser mortal.
E se em vez de elementos do Grupo de Forcados Amadores de Montemor, ali estivessem elementos de um outro grupo de forcados, dos muitos que existem no nosso país?
Um qualquer outro Grupo em que enfileirasse um filho, sobrinho ou neto de um eventual leitor deste meu post.
Vamos supor que era o Grupo onde milita o meu filho mais novo. Vamos supor que era ele, inocentemente, a vitima mortal.
Sou, considero-me Amigo do João Cortes. Tal como ele sou Pai. Por sinal de um jovem, mais jovem que o Zé Maria, cuja aficcion o levou a envergar uma jaqueta de ramagens.
Não quero, não posso, não consigo colocar-me, como pai, no lugar do João e da sua esposa, a quem, barbaramente, lhe roubaram, lhe assassinaram o Filho Zé Maria.
Tento partilhar com eles essa dor.
Foi ao Zé Maria que lhe roubaram, precoce e vilmente, a vida. A sua maior riqueza.
Foi ao ser humano Zé Maria, que, por acaso, é forcado e cabo do Grupo de Montemor. Foi ao Zé Maria a quem o aplaudimos por realizar grandes, fantásticas pegas de caras aos toiros. Foi ao Zé Maria, o filho, o irmão, o marido, o amigo, o forcado, o cabo.
É esta a minha revolta. É esta a minha enorme tristeza. A perda de uma vida humana. O assassinio de um jovem que tinha sonhos por concretizar. O roubo de uma vida a um Jovem, que não é, mas poderia ser meu, ou vosso filho.
Aconteceu ao Zé Maria, mas poderia, ou poderá ser (quem sabe?) a um nosso ente querido.
Meu caro Amigo João Cortes, estou solidário contigo ecom a tua restante Familia.
Caros elementos, Familia, do Grupo de Forcados Amadores de Montemor, estou solidário convosco.
Partilho com todos vós a vossa profunda dor.
Ao Zé Maria resta-me agradecer os momentos de emoção que me fez viver esperando que a sua alma descanse na merecida Paz.
Nesta sociedade podre e demasiadamente perigosa, desejo e espero que se faça justiça.
Raul Caldeira
2013/06/28
