Vasco Pinto
Julho 2013
Alcochete
A nossa Festa não é Festa sem a portentosa presença dos moços de Forcado. A delícia que é vê-los perfilados nas cortesias entregues à fé, alinhados na trincheira como quem ensaia para de seguida ser perfilarem oito de frente àquele que tanto adoram e tanto temem. São valentes, corajosos, respeitadores e têm uma alma onde cabe tudo, o medo, a amizade, a força, a fé, a estima, a consideração e a disciplina. Foi tudo isto que encontrámos na conversa que tivemos com Vasco Pinto, o cabo do Grupo de Forcados Amadores de Alcochete.
Como é que foi chegar a Forcado de um grupo tão carismático e cuja existência supera em dez anos a sua idade?
Eu diria que seria anormal se eu não fosse Forcado. Tendo em conta que todos os meus tios do lado paterno foram Forcados, o meu pai foi Forcado e foi também fundador deste grupo, julgo que seria anormal se um dia eu não viesse a ser Forcado. Comecei muito novo, tinha a penas sete anos de idade quando peguei a minha primeira vaca na herdade das Esquilas, do Paulo Caetano, curiosamente o primeiro toiro que peguei era também um toiro do Paulo Caetano.
A vontade de andar nisto, este “bichinho” começou a crescer desde que eu nasci. Aos quatro, cinco anos fardava-me de Forcado e participava nas cortesias com o grupo, enquanto o meu pai ainda era Forcado, eu era a mascote. Durante toda a minha vida acompanhei o grupo, estava nas corridas, ia aos jantares, aos treinos sempre pela mão do meu pai ou do meu tio Francisco.
Resumindo um pouco aquilo que para mim representa ser Forcado, posso dizer que ser Forcado é viver não sei viver de outra forma, fui educado neste meio e sempre senti o Grupo de Forcados Amadores como a minha família.
Apesar de ter, naturalmente, uma actividade profissional que é o meu suporte, arrisco-me a dizer que sou Forcado a tempo inteiro.
Desde a primeira fardação em 1998 até receber o comando em 2007, correram 9 anos. Como é que vê esta etapa, e na sua opinião o que foi valorizado para que chegasse a cabo do grupo?
Foram nove anos em que eu tive o prazer de aprender muitas coisas com o meu cabo, João Pedro Bolota. A humanidade, a forma como se relaciona com as pessoas e como se relacionava connosco, fez dele um excelente cabo e permitiu-me aprender muito com ele e recolher muitas coisas boas que actualmente posso colocar em prática.
Fugiria um pouco à verdade se não dissesse que durante esses anos senti que estava a ser preparado para um dia mais tarde vir a ser cabo. Houve esse cuidado, diria até que foi um acontecimento natural no meu percurso de Forcado dada a minha entrega e a forma como eu vivo o Grupo de Forcados Amadores de Alcochete. A paixão que sempre fui empregando a cada dia dentro do grupo, permitiu-me sempre trazer amigos que em nada se relacionavam com ele, consegui reunir algum consenso à minha volta, e tudo isso acabou por ser um conjunto de factores que culminou com a minha nomeação unânime para cabo do grupo.
Sente que pelo facto de ser filho de Forcado, e que Forcado António José Pinto, tem uma missão a cumprir?
Tenho sim. É uma grande responsabilidade, mas também é um grande prazer e um grande orgulho. No início quando comecei a pegar, sentia muito esse peso e essa responsabilidade, sabia que não podia errar da mesma forma que outros porque tinha um nome a defender. Hoje sinto-me numa posição confortável, penso que consegui fazer com que o meu pai sinta orgulho pelo meu percurso e sinto que tenho vindo a honrar o nome dele e de todos os meus outros familiares da melhor forma possível.
Alcochete é uma terra de muita afición, aqui o Vasco na rua sente-se em casa. Sente muito essa afectividade, ou por vezes também se faz notar alguma “condenação”?
Não, sempre tive a felicidade de receber o carinho e o afecto das pessoas. Talvez também como resultado da minha personalidade, da minha maneira de estar e de me fazer respeitar, fui recebendo esse carinho e esse respeito das pessoas de Alcochete.
Quando as coisas correm menos bem, e já tive alguns exemplos disso, sempre recebi da população de Alcochete um carinho, um alento e uma força para dar a volta às situações menos boas.
De quantos elementos é composto actualmente o grupo, e quais são os critérios de que tem entrada neste clã, ou quem deve sair?
Neste momento somos 35 elementos, com mais alguns elementos que pertencem ao grupo dos juvenis e que vão já fazendo a sua integração no grupo sénior.
Os critérios, os predicados essenciais para se pertencer a este grupo é acima de tudo a humanidade, a forma com que se encara o ser Forcado. Eu defendo que, tão importante ou mais importante do que saber estar dentro de uma praça de toiros é saber estar cá fora, respeitar a imagem do Forcado e fazer-se respeitar. Para mim enquanto cabo não faz sentido ter dentro do meu grupo um elemento que tem um valor extraordinário dentro da praça, mas que depois não o saiba transportar cá para fora. Portanto, os critérios passam muito por aí, pela humanidade e depois pelo valor que vai demonstrar, sabendo que, uma pessoa com mau carácter dificilmente se conseguirá alterar, por outro lado uma pessoa que se inicia como Forcado e que pode ter pouco jeito, trabalhado poderá ser sempre útil ao grupo.
Neste momento eu sou o elemento mais antigo do grupo e o mais jovem será o Manuel Teixeira Duarte que está connosco há um ano aproximadamente.
Como são habitualmente organizados os treinos (quem agenda, onde, como obtêm as reses, etc.)?
Recorremos muito a ganaderos amigos, que nos emprestam as reses para treinar em suas casas. De quando em vez, temos um elemento no grupo que tem um tentadero óptimo e então aí solicitamos emprestadas algumas reses e treinamos em Samora Correia em casa do João Gonçalves.
Iniciamos normalmente em Janeiro, treinamos até Março e sempre que possível treinamos todos os fins-de-semana sempre ao Sábado.
Em média realizamos por temporada cerca de 9 a 10 treinos, o que na minha opinião pode influenciar um boa temporada nos grupos, para estarem rodados e chegarem ao início da temporada com a moral em cima e confiantes naquilo que estão a fazer.
Vasco, no seu entender pegar um toiro é ou não tourear?
Sem dúvida, um Forcado é um toureiro, é um artista. Os Forcados entre eles independentemente da galhardia e da raça que possam empregar em cada pega que excutam também se distinguem pela estética e pela arte que empregam na execução de uma pega.
Quantas corridas podem contar com a participação do GFA de Alcochete anualmente?
Em média entre 23 a 25 corridas por temporada, mas já houve anos em que realizámos 32, 27, 28 por aí. Agora também derivado à conjuntura económica que atravessamos a qual acaba por influenciar a tauromaquia, os grupos tendem a fazer menos corridas. Penso que os grupos que realizarem 20 corridas este ano já será uma boa meta.
Aos olhos do público menos entendido, pegar um toiro é quase medir forças com o animal. Sabemos que não corresponde à verdade. Como se pode explicar em breves palavras a técnica que está por trás de uma pega?
O toiro tem a força e o ímpeto, o homem tem a arte e a inteligência, para que dois seres se unam na concretização de uma pega. Por outras palavras diria que a pega resulta da capacidade que homem tem de ludibriar a força do animal. Se fosse força com força, nada resultaria, tem que existir a simbiose entre a força do animal e a inteligência e a técnica do homem.
Como qualifica as ganadarias portuguesas enquanto Forcado? Quais as que lhe merecem um melhor nota?
As ganadarias em Portugal estão como a Festa, a passar por algumas dificuldades. Acrescido a isso, no meu entender, o grande erro é que se tenha nos últimos anos tentado apurar tanto a bravura dos toiros, que se vai perdendo um pouco a casta, o ímpeto e a mobilidade, factores que traziam à Festa uma maior emotividade, e a procura de um toiro que seja mais cómodo aos toureiros tem vindo a tirar essa emoção à Festa.
Tudo passa também pelo erro de se apurarem as reses a toureio apeado, quando em Portugal não há toureio a pé.
Quanto às ganadarias que mais me agradam, gosto de toiros que se arrancam de largo, que venham com ímpeto, não gosto tanto daqueles toiros que vêm a trote. Pelas minhas palavras conseguem-se identificar várias ganadarias que passam pelas nossas praças.
Depois de saltar à praça, brindar e formar dá inicio um dos momentos mais prodigiosos da figura do Forcado; o cite, o temple… o momento em que é procurado o primeiro contacto. A frequente ausência de silêncio é vista na classe dos Forcados como uma falta de respeito?
Sim, em primeiro lugar é uma falta de respeito, mas também passa muito pelo desconhecimento.
É um momento arrepiante estar dentro de uma praça de toiros e ouvir o eco da nossa voz, isso é. É das melhores sensações que um Forcado pode ter.
Marca-me muito um episódio que se passou comigo, com apenas 16 anos na Ilha Terceira pelas Sanjoaninas, com uma praça repleta, estar a citar o toiro e estar a ouvir a minha voz. Com a tenra idade de 16 anos a pegar o meu segundo toiro, nem pode imaginar as sensações que me provocou esse momento. Apesar de ter partido o perónio.
É de facto um momento sublime, e talvez aí se encontre a justificação para o facto de todos os Forcados sentirem a praça de Alcochete de forma diferente.
Tem ideia de quantas pegas consumou até hoje? Qual a que lhe ficou na memória?
Já fiz 144 pegas. Aprendi uma coisa engraçada com um grande Forcado deste grupo, o Sidónio Rosa, que apontou sempre todos os toiros que pegou e eu ganhei esse vício com ele, tenho tudo apontado os toiros, as ganadarias e as praças.
A quantidade de pegas não faz de nós maiores Forcados, houve Forcados que realizaram 50, 60 pegas e hoje são considerados grandes Forcados, o caso do João Cortes que é para muitos considerados dos melhores Forcados de todos os tempos e salvo erro deverá ter 60 ou 70 toiros pegados.
O ano em que peguei menos foi o ano passado, peguei 3 toiros e o ano em que peguei mais foi em 2000 que peguei 15. Fiz menos pegas em 2012 porque estava magoado e porque entendi que estava na altura de promover alguma rotatividade dentro do grupo.
A pega que me ficou na memória, ocorreu em 2010 com um toiro Campos Peña que pesava 720kg, aqui em Alcochete num concurso de ganadarias. Deu-me o privilégio de dar duas voltas de agradecimento à arena, na minha terra.
Vasco, você que tantas vezes se ofereceu à cara de um toiro, diga-nos; O que pensa um homem quando viaja na investida de um toiro bravo?
Depende da situação, se está a escorregar, se está a cair….começa a pensar que tem que ir lá outra vez.
Nem sempre sentimos o mesmo ou nem sempre pensamos o mesmo, depende muito das situações, porque se tiver com uma perna de fora, ou se estiver agarrado ao toiro e sentir que o corpo está lá em cima mas quando abre os velhos vê o chão, tem-se um pensamento completamente diferente de quando nos sentimos bem moldados no toiro, confortáveis e bem agarrados. Mas normalmente aquilo que penso é que o toiro não me vai conseguir tirar dali, não me vai desfeitear e tento fazer tudo o que está ao meu alcance para dar a pega como consumada. Penso sempre que tenho que me agarrar da melhor forma, ou moldar-me melhor para que a pega se concretize.
Sem dúvida que é reconhecida a valentia, a coragem e a entrega dos moços de Forcado, no entanto o medo é um factor natural que também emprega muito valor a esta actividade. O que é que pode causar mais medo?
A falta de confiança, saber que fisicamente não se está bem, e a saturação. Saturação no sentido em que a pessoa chegou a um limite e não se consegue ver mais o toiro à frente. A falta de confiança pode surgir na sequência de acontecimentos recentes, se ultimamente as coisas estão a correr mal, pode apoderar-se da pessoa alguma falta de confiança em si e nas suas capacidades. O facto de não se estar bem fisicamente, impede o psicológico de estar bem. A saturação, como dizemos na gíria taurina, é sinal que as pilhas acabaram, tudo tem um princípio, meio e fim e a falta de coragem para enfrentar um toiro acaba por chegar a todos os Forcados. Eu tenho um exemplo em casa que me mostra todos os dias o contrário, que é o meu pai, que está sempre connosco, que em todas as corridas de aniversário faz o gostinho de pegar, que sempre que pode nos nossos treinos faz o gostinho de pegar uma vaca, sempre que há festas de aniversário dos meus irmão brinca com as vacas como se de um jovem se tratasse, parece que o medo nunca se apoderou dele. Mas eu diria que grande parte dos Forcados, têm o dia em que chegam a um ponto de saturação até porque as capacidades físicas começam a apresentar algumas debilidades e aí entra o medo, o que é natural.
Uma boa parte dos acidentes, ocorrem derivados das banderilhas. Dado não existir uma obrigatoriedade definida há quem opte pelas de segurança, outros não. Quer comentar?
Infelizmente o Grupo de Forcados Amadores de Alcochete foi bastante marcado pelas banderilhas. O caso do João Pedro Bolota que perdeu uma vista no Montijo derivado a uma bandarilha, o José Miguel Vinagre em França, também o João Salvação cabo do Barrete Verde sofreu um acidente derivado a uma bandarilha.
Penso que, dado que o novo regulamento taurino ainda não foi aprovado em sede própria, julgo que deveria existir um consenso em que pelo menos nos ferros compridos fossem utilizados ferros de segurança, não têm tanto perigo os ferros curtos, têm mais os ferros compridos que deixam um pequeno taco e provocam essas lesões. Julgo que está na hora de todos os intervenientes na Festa se colocarem de acordo, para que se possa defender a integridade física dos Forcados, que são uma parte importantíssima da nossa Festa e têm que ser respeitados.
Existem naturalmente seguros, todos os grupos associados têm um seguro. Diz o regulamento taurino que as empresas devem fazer um seguro ao espectáculo e incluir os intervenientes desse espectáculo no dito seguro, mas na verdade habitualmente os grupos já têm o seu próprio seguro.
Cada vez é mais difícil fazer um seguro aos grupos de Forcados, por ser considerada uma actividade risco.
O nosso grupo sempre teve o hábito de ao longo do ano organizar várias actividades, como noites de fado, festas de campo, garraiadas, por forma a angariar fundos para um fundo de assistência, este fundo permite que em caso de baixa o grupo complete o ordenado do Forcado lesado.
Quais podem ser as maiores adversidades para um cabo de Forcados?
Sentir que ogGrupo não é unido, que há divisão, que há grupos dentro do próprio grupo, isto já seria um motivo para o cabo levar as mão à cabeça. Sentir que o grupo não é unido, que não se respeitam uns aos outros, isso naturalmente teria consequências dentro da praça.
Extra grupo, uma grande adversidade é a deslealdade, muitas vezes utilizada por outros grupos para marcar presença num cartel. Embora, seja algo que me ultrapassa e não valorize demasiado, porque tenho a minha maneira de estar nos toiros, fui ensinado a pensar, e a fazer-me respeitar, manter as minhas regras das quais não me desvio e aquilo que mais me preocupa enquanto cabo deste grupo é manter o grupo coeso, amigo do seu amigo, que se saibam respeitar entre si e que se saibam fazer respeitar fora da praça. É sem dúvida um factor ao qual dou muita importância é à forma como nos comportamos fora da praça. Nós representamos a terra, representamos um grupo, este grupo tem muita história, tem muitas décadas de existência, passaram por aqui muitas pessoas que nós temos que saber respeitar.
A vontade de ser Forcado, pode nascer com a pessoa, pode vir de tradições familiares, ou até ser espontânea. Temos assegurada a próxima geração dos GFA de Alcochete?
Seguramente, temos bastante sangue novo e com muita qualidade. Alguns deles já se começam a afirmar no panorama da forcadagem de forma séria. Maioritariamente são filhos de antigos Forcados, irmãos de Forcados, acontece muito aqui em Alcochete e neste grupo principalmente. Mas há muitos jovens que vão aparecendo de outras localidades, como Samora, Benavente e Salvaterra.
O futuro está assegurado.
A camaradagem, a amizade e a entreajuda são características notáveis normalmente associadas aos grupos de Forcados, nos de Alcochete também é assim, dentro e fora de praça?
Dentro e fora de praça. Somos unidos e tratamo-nos como irmãos, não há qualquer tipo de diferenciação, nem regalias ou vantagens dos mais novos face aos mais velhos ou vice-versa.
Há sim uma hierarquia que tem de ser respeitada, em que os valores são passados dos mais velhos para os mais novos, mas em termos de direitos e deveres são iguais para todos.
No discurso do último jantar tive oportunidade de lhes dizer que tive um grande orgulho em me ter fardado com o João Pedro Bolota, com o Sidónio Rosa, com Estevão Oleiro, e outros grandes Forcados do Grupo de Forcados Amadores de Alcochete. Tenho o grande prazer de ser filho de quem sou, mas também tenho o prazer enorme de ser cabo deste grupo e de ter sob a minha alçada um grupo de jovens humildes, honestos e bastante amigos uns dos outros, é aquilo que neste momento me enche de orgulho e me deixa descansado relativamente ao futuro deste grupo.
Habitualmente conhecemos as figuras da tauromaquia como supersticiosas, ou crentes. O que faz antes de iniciar uma pega?
Eu tenho as minhas rezas, tento manter sempre o ritual, as mesmas quantidades de rezas nos seus tempos certos das lides ou da corrida. A mala, faço a mala sempre pela mesma ordem, ainda hoje só a minha mãe é que trata da minha farda não deixo que mais ninguém toque na minha farda, antes de ir para a corrida passo em casa da minha mãe para a ir buscar.
Mais superstições… olhe, quando pego em Alcochete almoço sempre em casa da minha avó. São hábitos.
Quem é Vasco André Marques Pinto?
É um alcochetano de gema, humilde de poucas palavras mas de sentimentos fortes.
Ana Paula Delgadinho
