O Coliseu de Redondo estava cheio (faltaram preencher umas quatro ou cinco cadeiras). Depois de uma semana quase completa de festas – que é, aliás, uma das mais bonitas do nosso património cultural, – as “Ruas Floridas” do concelho alentejano, transbordaram nas bancadas! E, foi, deveras, uma noite intensa!
Não terá sido, contudo, uma “grande noite de toureio”. Foi, ao invés e sem dúvida, uma grande noite de toiros! O bem apresentado e homogéneo curro da divisa Vale Sorraia, foi o protagonista da noite e o diapasão por que todos afinaram.
No rescaldo, a melhor metáfora para recriar a noite do Coliseu redondense é a de uma grande onda que nos apanha desprevenidos quando desfrutamos do mar a escassos metros da praia, com a água pelos joelhos… Por mais que saibamos nadar, quanto mais nos esforçamos para sair da água mais perdemos o norte. No Redondo assim foi.
Joaquim Bastinhas abriu praça e depressa se viu entender que o primeiro oponente não cederia a facilitismos. Chegou à arena com pata e com ganas de investir e o bravo recolheu aos curros quase com o mesmo andamento com que saiu ao ruedo! O mérito maior da lide foi mesmo o de ter conseguido manter-se sereno, não transparecer as dificuldades e executar a ferragem sem se comprometer. Assim que o cavaleiro se perfilava de frente, logo o toiro se arrancava – emprestou emoção e comandou o ritmo da lide. Terminou com um par de bandarilhas arriscado e em terrenos de compromisso que lhe valeram um aplauso reconhecedor. Na segunda parte, não lhe correram as coisas tanto de feição. O exemplar, foi de todos os que mais cedo rachou e exibiu maiores querenças. “Revoltón” no capote, acometia às sortes em imprevísveis e maldosos arreões para colher. Cumpriu a ferragem sem enlevos, mas já tinha logrado exibir suficientes predicados para se sagrar vencedor do troféu da melhor lide em disputa!
Por sua vez Marcos Bastinhas viveu uma noite de muitos percalços. O primeiro que lhe tocou em sorteio, era sério e com sentido. Teve uma saída enraçada mas não acompanhou o andamento do primeiro exemplar da noite. Depois de um primeiro comprido de excelente nota, recebeu no segundo um duro toque à garupa, que acabaria por ser o primeiro de vários percalços. Embora o toiro saísse intempestivo dos terrenos das tábuas, também cedia facilmente ao engano, faltando na reunião ao piton contrário, e, se o cavaleiro arriscava mais nos terrenos, via o toiro colher a montada. Ao quinto ferro, de reunião seca e pouco ortodoxa o director mandou soar a música – que sem razão de ser, soou durante um único ferro. Como quem afirma que não cede perante as adversidades, Marcos Bastinhas foi esperar o segundo do seu lote à porta gaiola. Apesar da excelente nota da brega de recepção que levou o exemplar aos médios e de igual boa nota para a ferragem comprida, o ginete voltou a ter dificuldade em contornar as asperezas do oponente. Ao segundo curto, o toiro adiantou-lhe caminho, colheu-o ao estribo e pareceu ver-se o ginete perder a força anímica! Ao terceiro ferro, aliviado e a cilhas, o director atribuiu música, que voltou assim a soar durante o último ferro, correctamente executado.
A João Maria Branco calhou um toiro reservado mas com bom tranco, que acudia a espaços aos cites do cavaleiro. Apesar de ter estado em plano lidador e muito entregue, demorou demasiado entre cada ferro, mercê das dificuldades que o toiro lhe impôs. Esforçado, acabou por não romper, deixando um último ferro de sesgo, de nota alta e impacto no público. O toiro que fechou a corrida, apresentou contas ainda mais difíceis. No entanto, o mais espantoso da lide de João Branco acabou por ser a direcção de corrida. Veja-se que, ao segundo curto a montada ficou sem saída e permitiu-se sonoro toque. Ao terceiro, em técnica bastante imperfeita, soou a música! Insondáveis critérios…. Uma possibilidade é de que a música soasse para levantar a moral, ou seja, quiçá concedida a música se sentissem na obrigação de se corrigir. Seria? A lide de João Maria Branco terminou com dois ferros de qualidade, o primeiro curto e o último em sorte de caras e bonito quarteio, frente a um exemplar complicado a que não conseguiu dar a volta.
Também nas pegas os Vale Sorraia apresentaram dificuldades.
Pelos Amadores de Évora foi primeiro solista Ricardo Casasnovas. O toiro arrancava a galope e humilhava muito na reunião para imprimir forte derrote para cima, depois empurrava forcado e grupo até tábuas onde batia para os despejar. Consumou-se ao quarto intento, com destacado mérito para o da cara que aguentou duríssimos derrotes. Dinis Caeiro foi protagonista do momento mais terrível da noite, quando com um violento derrote saiu por cima do toiro e caiu de cabeça, ficando inanimado. Foi dobrado por José Miguel Martins que saiu também lesionado. Saiu para a segunda dobra Ricardo Sousa que consumou ao quarto intento. Por fim João Madeira foi tecnicamente perfeito na recepção dura do exemplar e o grupo correspondeu coeso e pronto consumando ao primeiro intento, a pega justamente vencedora do troféu em disputa.
Rui Grilo mandou na investida a galope do oponente, que entrou rijo e a romper até tábuas. Determinado, fechou com boa nota na reunião e aguentou a viagem sem derrotes até tábuas, onde o grupo fechou com muitos elementos. João Luís Rebocho que esta noite entregou ao cabo a jaqueta, viu o toiro ensarilhar ligeiramente na reunião entrar com pata e duro, para bater e despejar. Apesar de ter aguentado vários derrotes laterais, faltou ajuda para concretizar. À segunda tentativa o toiro meteu a cara no chão e o forcado teve enorme vontade para lá ficar, aguentou viagem e suportou os derrotes com grande mérito e muitos ajudas. Fábio Caeiro consumou à primeira e à barbela uma boa pega, selando uma boa prestação do grupo na sua terra.
O júri que atribuiu os prémios a Joaquim Bastinhas e aos Amadores do Redondo era composto pelo Exmo. Sr. Simão Comenda, Joaquim Figueira e António Santos.
A corrida foi dirigida pelo senhor João Cantinho
Sara Teles
