O título deste texto tem, obviamente, dois sentidos.
São “Apontamentos” de Arruda dos Vinhos porque a história é curta. Foram “Desapontamentos” porque a corrida, de facto, decepcionou.
Foi a primeira de duas corridas das tradicionais festas em honra de Nossa Senhora da Salvação em que se inaugurou o oratório da praça de toiros! O público preencheu cerca de ¾ de casa e estava animado no início – quando terminou lia-se nos rostos aquele ar de “venho da festa…”
Os toiros de ferro Ortigão Costa, excelentemente apresentados, capa variada, bastos, muita cara e trapio, entre os quatro e cinco anos cumpridos, faltaram muito em transmissão. Quase todos se quedaram na arena mais pesada dos médios e quase todos exigiram que lhes “entrassem terrenos dentro” (coisa que, por sinal, também pouco aconteceu). A dirigir a corrida, Ricardo Pereira teve, por isso, poucas ocasiões para exibir o lenço branco e fazer soar a música.
Sónia Matias estreou a arena frente a um bonito e basto exemplar, que não investia com clareza no capote mas que se impunha nas reuniões. Embora pronto, não rematava os ferros e não cedia à brega. A cavaleira resolveu a equação e levou a lide em sentido ascendente embora o toiro tenha sempre vindo a menos. Na segunda parte, fechou a sua noite com uma actuação redonda. Tanto como os demais, o toiro não emprestou emoção mas os quarteios e reuniões bem executadas dos curtos tiraram a noite da monotonia em que havia caído.
Com matéria-prima semelhante, Ana Batista teve dificuldade em ligar as sortes e conseguir um efeito de conjunto. O primeiro do seu lote, mais pequeno que os demais, embora acudisse às chamadas da cavaleira, manteve-se reservado e sem chama. Foram melhores, o terceiro e quarto ferros com que fechou lide em que não escutou música nem deu volta. Na segunda parte lidou um bonito “colorao, bociblanco, ojo de perdiz” que não deu grande jogo à cavaleira. Com a mão pouco certeira, os ferros acabaram por ficar dispersos e o director voltou não conceder música à lide, devidamente abreviada.
A Marcelo Mendes coube em sorteio um manso, que se mostraria o pior do curro. Apesar da saída sem graça e sem interesse à montada, empregou-se com pata para os dois compridos, que resultaram de bom efeito. Mas ali esgotou! Reagiu ao primeiro curto a doer-se e quedou-se na arena pesada dos médios defendendo-se parado dos ferros e das abordagens do ginete. Dois curtos depois, já com o toiro em tábuas deu por terminada a lide (sem música e sem volta). Para fechar a noite, o “furacão” andou nesses seus modos mais entusiastas. O enraçado Ortigão que lhe tocou em último foi de todos o que teve mais sal. Apesar do parco ofício com que começou a lide, demorando para deixar a primeira ferragem, certo é que foi crescendo e aproveitando a matéria-prima para chegar à bancada. No entanto, ao quinto ferro, exigiu o público que desse por terminada a lide.
Com tão escasso teor artístico no toureio a cavalo, valeu o capítulo das pegas para compor a noite. Com o terreno pesado e toiros que “quase não andaram” os dois grupos não tinham noite fácil.
Pelos Amadores de Santarém foi Lourenço Ribeiro o primeiro a bater as palmas ao toiro. Consumou boa pega ao primeiro intento. O toiro entrou a ensarilhar e meter um piton por diante, bons reflexos e serenidade do forcado para se fechar à córnea e aguentar a viagem a meia altura. João Torres foi protagonista de uma pega eficaz, tecnicamente perfeita ao primeiro intento. António Taurino viu o toiro entrar “com tudo”, meter a cara a meia altura e bater, acabando por tirar o forcado. À segunda consumou pega rija, com as segundas a blindar com coesão.
De Vila Franca de Xira abriu a noite Pedro Loureiro não obteve reunião ao primeiro intento. À segunda, mandou na investida e teve braços para aguentar, quando o toiro parou para lhe tirar a cara. David Canário não aguentou à primeira os derrotes laterais e para cima, a despejar. À segunda o toiro entrou com pata e apesar da entrada dura e viagem algo pendurada na córnea teve mérito pela determinação em “lá ficar” e aguentar a viagem difícil por baixo. António Faria consumou à primeira sem dificuldade.
Sara Teles
