Não foram precisas segundas nem terceiras voltas ao ruedo… Filipe Gonçalves “já tinha saído em ombros” quando completou a série de curtos no primeiro do seu lote. Foi um triunfo de monta para o ginete algarvio, que leva nesta temporada um conjunto de actuações a não esquecer – esta da Nazaré foi caso! Os toiros de Fernandes de Castro saíram difíceis mas a dar jogo. Um curro bastante interessante e bem apresentado que manteve a chama acesa ao longo da noite.
A Joaquim Bastinhas tocou abrir a noite com um encastado, que se defendia, mas que se manteve pelos médios. Reservado, o oponente saía para colher quando pisados os terrenos e rematava as sortes com raça. Traçou uma lide de menos a mais, que foi acompanhada pelos acordes da Associação Filarmónica da Nazaré ao terceiro dos cinco curtos desenhados de caras e acometendo. Na segunda parte teve mais toiro e esteve mais toureiro. Com outra transmissão, o Fernandes de Castro “ia buscar o ferro lá acima” e bem andou o cavaleiro a entrar-lhe nos terrenos numa lide correcta, fluída e sem artifícios. Terminou com o seu famoso par, passando por dentro, tanto ao agrado do público.
Por seu turno, Sónia Matias viu o segundo da noite sair enraçado e com sentido à montada para colher. Comprometeu a cavaleira contra as trincheiras mas nem por isso se viu prejudicada a garra. Embora nesta primeira lide tenham oscilado bons ferros com outros menos bons, andou assertiva na escolha dos terrenos e entendeu bem o toiro – que “apontou, mas não disparou” – e acabou por vir muito cedo a menos. Na segunda parte, o bonito Fernandes de Castro foi o inverso do primeiro e foi crescendo na lide. Correctos todos os ferros, foram mais sonantes o terceiro e quarto, em que arriscou aguentando em tábuas para dar vantagem, abrir quarteio e receber ao estribo. Pena foi que não tivesse conseguido executar o violino com que quis terminar a passagem, perdendo muito do efeito que a série de curtos vinha levando.
O momento da noite aconteceu com o terceiro da ordem. Um bravo, com “muitos pés” e investidas alegres, que não deixou ninguém dormir. Filipe Gonçalves esteve soberbo frente à emotiva matéria e logrou uma lide redonda que se foi reflectindo a bom som nas bancadas. Valente a aguentar as investidas prontas e voluntariosas, executou as sortes com emoção e verdade e compôs o lio com a brega a duas pistas a galope e vistosas mudanças de mão, levando os pitons pelo estribo, piruetas, e… o público “no bolso”. Ao quinto ferro e já depois o primeiro aviso, o público levantou-se em harmonia a pedir o “mais um”; e aqui sentiu o autêntico sabor da saída em ombros. Terminou com um palmo que explodiu na bancada em aplauso. Na segunda parte pouco precisava fazer para colher as atenções do público. O toiro não teve o mesmo salero do primeiro mas o ginete sacou-lhe o que havia para sacar. Deu cova e adornou na brega e optou por acometer em sortes frontais. Duas lides redondas e noite de forte êxito na Nazaré!
As pegas estavam a cargo dos Amadores de Alcochete e Caldas da Rainha.
Pelos Alcochetanos foi Diogo Timóteo o primeiro solista. Vendo o toiro ensarilhar tirando-lhe a cara no primeiro intento, consumou pega rija à segunda com entrada dura, derrotes por alto e viagem a fugir ao grupo que correspondeu eficaz. Joaquim Quintela encheu de simplicidade uma pega igualmente rija, em que o toiro empurrou com pata até tábuas embora sem derrotar. Por fim, consumou Nuno Santana ao segundo intento. Na primeira tentativa talvez tenha faltado voz para mandar e não obteve reunião. À segunda corrigiu e apôs técnica perfeita e braços para aguentar a viagem, com excelente ajuda.
Pelos Amadores das Caldas da Rainha, Hugo Soares não foi eficaz na reunião e ficou “pendurado” na córnea ao primeiro intento. Voltou a não conseguir fechar-se com eficácia ao segundo e terceiro intento, levando a efeito a pega à quarta tentativa com ajuda carregada. António Cunha esteve bem a encher a cara ao toiro quando saiu intempestivo e com pata; aguentou o derrote para cima mas saiu despejado quando o toiro lhe tirou brusco a cara, numa valorosa tentativa. À segunda o oponente entrou a meia altura e não conseguiu fechar-se eficazmente. À terceira consumou dura pega com o toiro a bater para despejar. Francisco Mascarenhas só consumou à terceira tentativa mas a garra do forcado e “os braços” para aguentar os fortíssimos derrotes em cada uma delas fizeram desta a pega da noite, que, certamente, ficará a contar para as mais impressivas da temporada.
Boa noite de toiros, com cerca de três quartos das bancadas preenchidas.
Sara Teles

