Manuel Dias Gomes
Outubro 2013
Lisboa
Cada vez mais próximo de concretizar a alternativa de matador de toiros, o nosso Manuel tem procurado o triunfo de forma consolidada e cada vez mais reconhecida. Aos 23 anos, Manuel Dias Gomes é um novilheiro de quem os portugueses se orgulham, pela sua entrega, pela forma consolidada com vem evoluindo no mundo do toureio apeado e pela descrição com que vem consquistando terrenos em Espanha.
É nossa convicção que muitos lenços brancos animarão o seu percurso neste universo taurino.
O Manuel tem vindo a desenhar um bonito percurso desde a sua entrada no universo do toureio apeado. De aficionado a novilheiro, com apenas 23 anos como vem percorrendo este caminho?
Bem, tudo começa porque tenho uma família relacionada com o mundo tauromáquico. Inicialmente comecei por ser um aficionado e por querer conhecer o mundo taurino, depois foi a vontade de aprender. Tudo está dentro de nós, a pouco e pouco fui conhecendo mais e tornando-me cada vez mais aficionado, e assim começou o “bichinho” que me fez chegar a novilheiro com a perspectiva de integrar a profissão de matador de toiros.
Sendo que, em Portugal não se praticam nem a sorte de varas, nem a sorte de matar, debutou mais à séria em Málaga com picadores a 14 de Agosto de 2009. Como recorda este dia?
Foi um dia importante. Graças a uma novilhada que tinha toureado no ano anterior em que fui triunfador cortando duas orelhas a um novilho, permitiu-me que no ano seguinte debutasse com picadores. O facto de ter conseguido aquele triunfo foi realmente muito importante, pois se não tivesse acontecido talvez não houvesse lugar ao passo seguinte.
Para mim foi uma alegria enorme poder debutar com picador numa praça de primeira categoria em Espanha, numa novilhada com qualidade e garantia e com um cartel igualmente bom. Talvez não tivesse conseguido o triunfo que eu mais desejava, mas foi muito importante e posso mesmo dizer que se abriu uma porta que me permitiu continuar.
Campo Pequeno e Las Ventas, duas catedrais que causam sensações diferentes. Como é actuar nestas praças?
São praças de grande responsabilidade, sobretudo porque o Campo Pequeno é a praça da minha terra, é praça de maior destaque em Portugal onde todos os olhos estão postos na nossa actuação. Aqui o nosso triunfo e entrega têm que ser absolutos, o que depois tem as suas recompensas. Do outro lado e quase no mesmo patamar, em Madrid, está a catedral do toureio onde se ganha tudo e também onde se pode perder tudo. Embora já tenha debutado em Madrid há dois anos, este ano tive uma tarde rotunda, uma tarde em que as coisas correram “quase de feição”, foi algo único que eu jamais esquecerei.
Entre certames, galardões e outras condecorações, tem alcançado vários triunfos. Há algum que o tenha marcado especialmente?
Sim, um que me marca muito foi o galardão que recebi no Campo Pequeno em 2007, quando estava a iniciar-me. Recordo-me que nessa época foi dado um grande apoio aos jovens novilheiros a partir de um concurso em busca de novos toureiros. Foi muito bonito, posso dizer que foi dos melhores momentos que vivi enquanto novilheiro e de facto esse primeiro prémio que recebi marcou bastante a minha carreira.
Tenho entretanto recebido outros prémios, e mesmo não sendo material, outro grande prémio que recebi foi a ovação este ano em Madrid, marcou-me mesmo muito, muito.
Como considera que é classificado o seu estilo de toureio? Encaixa-se nalguma corrente?
Eu tento que o meu toureio seja profundo, com estética, com arte, mas como é óbvio tudo depende do toiro.
Mais agora, enquanto novilheiro não se pode ter essa fixação de se enquadrar, tem é que se sair a triunfar e a cortar orelhas e depois de chegar a matador de toiros, isso sim, já com outra maturidade tentar alcançar os nossos ideais.
Obviamente que tenho as minhas referências, o que também me ajuda a evoluir enquanto toureiro, naturalmente há determinados estilos a que nos encontramos mais associados. Tenho toureiros que são um exemplo para mim nos quais me revejo e de quem tento aproximar-me, mas agora como novilheiro o importante é triunfar todos os dias.
Quem têm vindo a ser os principais mentores no que diz respeito ao crescimento da sua carreira?
Desde que comecei, Graças a Deus tenho tido muitos amigos ganaderos e toureiros que me apoiam, mas de facto há pessoas que me são mais próximas, o meu pai, o Maurício do Vale e o José Luís Gonçalves são as três pessoas que sempre acreditaram em mim desde que comecei. Até hoje e não menosprezando todo as pessoas que me apoiam de alguma forma, estes são os três pilares que tenho neste momento, que sempre acreditaram e sempre me apoiaram com uma grande força. Tenho sempre amigos à minha volta, mas em momentos de grande decisão é necessária a presença de pessoas com experiência, com visão que têm a capacidade de olhar as coisas de outra forma e me fazem por vezes ir ao encontro das suas ideias.
Sente que triunfar fora, é mostrar Portugal?
Sim, sem dúvida. O português triunfar fora é muito bom, sempre tivemos referências, sempre tivemos grandes toureiros ao longo destes anos e um triunfo do português incomoda muita gente.
Acredite que sinto isso lá fora, custa a muita gente aceitar que um português quer romper e triunfar, mas o toureio é universal.
Quando há triunfos importantes, sinto que é um passo que marcámos, que é a nossa identidade e nunca a devemos esconder. De facto, Portugal tem grandes valores, aliás sempre teve, e porque não concorrer ao lado dos melhores?!
Existem ganadarias mais aliciantes ao seu estilo de toureio? Quais?
Não, creio que não existem. Há sempre o factor selecção que embora se diversifique de ganadero para ganadero, é comum a todos. O que procuramos é que o toiro invista e que proporcione o triunfo. Nesta fase o que queremos é ganadarias que nos permitam triunfar, é claro que conhecemos algumas que oferecem menos possibilidades de nos levar ao triunfo, mas não é intencional a procura desta ou daquela ganadaria.
De todos os exemplares que lidou, há algum que recorde especialmente? Em que ocasião?
Sim, há vários exemplares que marcaram algumas faenas. O mais recente que me recordo foi o ano passado em Vila Franca de Xira, o segundo toiro que toureei, um Murteira Grave com muita qualidade e trapio, julgo que até posso dizer que foi o mais importante que toureei até hoje, porque de facto deu-me o privilégio de me poder afirmar, de demonstrar que sou capaz e foi um toiro que moralmente me deu, muito, muito mesmo. Essa lide, esse toiro, essa feira foi de facto uma conjuntura fantástica.
Quando se sofrem os primeiros embates, repensamos as nossas escolhas. Quando sofreu as primeiras colhidas, pensou em abandonar a muleta?
Graças a Deus cornadas nunca tive. Umas voltaretas, uma fractura da mão, mas tudo isso é próprio desta vida de tanto risco, é normal que aconteça mais que uma vez até. Tentamos não pensar nisso, é claro que reconhecemos que a probabilidade de acontecer é superior a 90%, mas ainda assim, penso que não são as colhidas que nos fazem duvidar ou questionar se nos devíamos ter dedicado a isto ou não. É claro que algumas dificuldades que vamos sentido quando uma corrida não corre pelo melhor podem criar dúvidas, mas a afición e a vontade de triunfar são de tal forma que nos fazem superar tudo isso. Há que continuar a treinar para um dia ter a recompensa.
O que diria aos jovens que estão hoje a iniciar este caminho? Como pode esta classe de “esperanças do toureio” ultrapassar as adversidades que irá encontrar?
Bom, o que digo é que não vêm aí momentos muito fáceis. Graças a Deus, temos em Portugal julgo eu três escolas de toureio, Vila Franca, Moita e Campo Pequeno, e o principal conselho que dou aos jovens que querem ser alguém neste mundo, é que sejam sobretudo muito aficionados. Se forem aficionados, com vontade, com querer e com ganas, embora o seu sonho não seja uma coisa fácil porque tem muitas adversidades, há que aproveitar a oportunidade e pensar que um dia hão-de lá chegar.
Um toureiro é um homem de fé, e emoções. Recorda-se de algum momento que o tenha emocionado particularmente?
Eu tenho muita fé, acredito muito em Deus. Um momento que particularmente me tocou, talvez tenha sido mais uma vez Madrid, o debutar em Madrid, o pisar pela primeira vez essa praça, o ver-me anunciado na maior praça do mundo onde eu passava desde criança e dizia: “Um dia eu quero tourear aqui!”. Chegar ao dia, viver todas aquelas emoções, ver abrir a porta e pensar que aquele era o meu momento; “Chegou a minha altura.” A primeira vez consegui manter-me relativamente calmo, mas à medida que vamos toureando ali passamos cada vez pior.
Habitualmente conhecemos os profissionais de toureio como supersticiosos, ou crentes. Cumpre algum ritual antes de iniciar uma lide?
Não tenho superstições, nem quero ter. Tento não acreditar porque penso que a dada altura estamos completamente condicionados às superstições, ou é a montera que ficou em cima da cama, ou é porque devo pisar com a sapatilha direita, etc. Bom, acaba por ser uma confusão de rituais, que na minha opinião devem inclusivamente ser alheios porque não serão determinantes para um triunfo. Portanto, tento desligar-me de tudo isso e sair à praça com a maior das calmas. Prefiro sentir as coisas de outra maneira, interiormente sem que esses gestos me “prendam” psicologicamente. No entanto, respeito porque cada pessoa é uma pessoa e pensa de forma diferente.
Que cuidados especiais teve quando escolheu o seu traje de luces azul e ouro, em Madrid na famosa sastreria de toreros, Fermín?
Pois bem, foi por influência de um toureiro de quem gosto muito, e em quem me tento rever. Obviamente todos temos o sonho de poder ter vários trajes de luces. Dado que tive a sorte e a oportunidade de fazer um fato tão bonito como este, tentei procurar uma cor juvenil, alegre que transmitisse essa juventude. Acredite que só ter o privilégio de fazer um traje de luces é desde logo uma sensação muito especial, então produzido pela sastreria Fermín onde vão tantas figuras do toureio, é uma sensação única.
Na actualidade nacional, organize uma corrida de toiros e diga-nos quem compõem o cartel (toureiros, ganadaria e praça)?
Ora, vamos considerar uma corrida mista em Portugal. Compunham o cartel dois cavaleiros, e um matador de toiros ou em alternativa dois novilheiros. Penso que seria o cartel ideal para Portugal, sobretudo para o toureio a pé porque precisamos de ver tourear a pé cada vez mais nas nossas praças.
Se se tratasse de uma corrida em Espanha, o cartel seria composto por grandes figuras do toureio como Juli, Manzanares, Morante, haveria tantos…
A proibição da sorte de matar em Portugal, é um factor que retira atracção ao espectáculo, e faz com que o toureio a pé não desenvolva a nível nacional. Concorda?
Eu não sou matador de toiros, nem matador de novilhos em Portugal dado que a sorte suprema não existe e esta sorte faz muita falta em Portugal. Faz falta no sentido de valorar mais os triunfos que há nas nossas praças, porque de facto as orelhas é que ditam os triunfos, as portas grandes surgem com o corte de duas, três orelhas, ou um rabo. Faz de facto muita falta, até para que se possa avaliar e para que possamos competir com outros toureiros que vêm às nossas praças. É igualmente importante para que o toureio em Portugal tenha maior impacto e seja visto lá fora de outra maneira, os intercâmbios com Espanha por exemplo seriam muito diferentes, toureiros espanhóis viriam a Portugal mais vezes tal como os nossos iriam a Espanha, como acontece com o México que tem imensos toureiros a actuar em Espanha porque as sortes são as mesmas.
Com a realidade que temos o que falta é os empresários acreditarem mais no toureio a pé e darem mais oportunidades. A corrida mista penso que seja a melhor solução, uma corrida com cavaleiros, forcados e matadores de toiros. Nós sentimos que o público gosta de toureio a pé, temos visto em corridas mistas que o público se entusiasma tanto ou mais com o toureio a pé do que com o toureio a cavalo, portanto não posso crer quando dizem que o toureio a pé não leva gente às praças e que as pessoas ficam indiferentes. Não é verdade, há emoções que na praça só surgem com o toureio a pé. É uma pena que não se criem mais oportunidades de ver tourear a pé.
Numa família onde se respira tauromaquia, como é vivida a sua carreira?
Tenho uma família única. Uma família que me apoia de uma forma muito diferente, porque tenho a sorte de ter um pai que foi forcado e que é uma pessoa muito entendida em toiros, tenho dois irmãos forcados que são aficionados e gostam de toureio a pé, tenho um avô que foi o primeiro novilheiro português, um avô ganadero, enfim todo este conjunto é propício a que me dêem cada vez mais força e cada vez mais entusiasmo para eu poder continuar a lutar pelo meu sonho.
Acompanham quase sempre, são muito críticos o que é de louvar porque só assim é que evoluímos e não nos enganamos a nós próprios. Sabe que por vezes a família tenta tapar algumas coisas, mas eu tenho a sorte da minha ser muito aficionada e saber dizer o que está bem e o que está mal, nas alturas devidas.
Embora ainda com alguns espectáculos em agenda, considera que esta temporada foram dados passos significativos para consolidar a sua trajectória?
Sim, o maior passo foi o meu lançamento em Espanha. Já tinha toureado em Espanha algumas novilhadas desde que debutei com picadores, mas este ano tive oportunidade de pisar praças muito importantes em Espanha e França.
Portanto, houve momentos muito marcantes. Felizmente comecei da melhor maneira, cortei duas orelha e o rabo a um toiro de Cebada Gago, que é uma ganadaria com muito prestígio e que me abriu muitas portas durante a temporada. Depois em França numa tarde importante com um toiro de Miura, tive uma faena que jamais esquecerei e a oportunidade de tourear um Miura foi mítico. Mas sobretudo o que veio consolidar a temporada foi actuação em Madrid no dia 15 de Setembro, esta actuação veio mostrar que os aficionados têm razões para acreditar em Manuel Dias Gomes. Sair de Madrid com uma ovação profunda, sabendo que não deixei nada para trás nessa tarde, e após verificar a unanimidade da crítica em relação à minha actuação foi muito bom, foi o consagrar de uma temporada e preparar o ambiente para a alternativa que virá no próximo ano se Deus quiser.
Quando falamos em Tauromaquia, qual é a primeira palavra que lhe surge?
Toiro. Sem toiro não há Festa, é a essência da tauromaquia, sem toiro não há toureiros, não há público, não há praças…tudo gira em torno do toiro.
Quem é Manuel Dias Gomes?
Manuel Dias Gomes é um jovem que tem um sonho, que tem ainda muita coisa por concretizar sobretudo, por ter a vontade de dar ao toureio a pé aquilo que ele merece, tal como outros grandes toureiros o fizeram.
Ana Paula Delgadinho
