João Ribeiro Telles Jr
19 Novembro 2013
Torrinha – Coruche
A nova geração Ribeiro Telles está já bem representada no nosso panorama taurino, com o intuito de chegar à fala com um desses talentos arrancámos ao Biscaínho para ir ao encontro dessa fonte de tauromaquia que é, a Torrinha. Foi com o João Ribeiro Telles Jr, a quem os mais chegados apelidaram de “Ginja”, que estivemos à conversar. Bebeu tudo o que a escola da Torrinha tem para dar, ouve o avô, o pai e o tio António com todo o respeito que estes ilustres lhe merecem, e ainda assim a humildade permite-lhe reconhecer novos objectivos com vista a elevar a sua fasquia tão ou mais além do que a marca deixada pelos seus antecedentes.
Estando a tauromaquia enraizada na sua tradição famíliar, certamente que foi espontâneo o seu gosto pela arte. Conte-nos como correu tudo até ao dia em que decidiu ser toureiro.
Foi muito espontâneo, apesar de poder parecer que pertencendo a esta família seria forçado a enveredar por esta arte. Há que ter gosto, eu sempre gostei, o resto já cá estava o que facilitou e proporcionou que as coisas se desenvolvessem. Desde muito novo que me dediquei aos cavalos, penso que desde sempre fui apaixonado por esta actividade, comecei a montar aqui na Torrinha muito cedo e a tourear vacas muito cedo também, já tinha o gosto e deixei-me levar, na certeza de que era mesmo isto que eu queria. Senti desde criança toda a envolvência deste lugar e sempre me identifiquei muito com tudo isto, adorava montar a cavalo, montava aqui muito, caçava às lebres, toureava vacas, fazia passeios e tantas outras coisas, sempre na companhia do meu pai e do meu tio António.
Toureei na Torrinha a primeira vaca com sete anos, no ano em que completei os oito toureei uma garraiada em Benavente e aos nove anos foi quando tive a primeira apresentação em público, a partir daí passei a assumir um determinado número de corridas por época.
Actualmente dedica-se a outras actividade para além da tauromaquia?
Olhe, eu joguei bastante futebol, era jogador do Coruchense. Mas havia um problema, é que eu só estava disponível meia época depois, a dada altura começavam as corridas de toiros e eu deixava de ir ao futebol. Isto aconteceu até uma idade já considerável, penso que até aos juniores, mas naturalmente depois tive de abdicar não conseguia dividir-me e o toureio falou mais alto. Tive uma adolescência normal, tive tempo para todas as actividades correspondentes à idade que fui integrando e desintegrando a minha vida conforme as prioridades. Relativamente aos estudos, optei por me dedicar a 100% aos cavalos e ao toureio, ao invés de me dedicar a duas carreiras. Julguei que não daria a devida atenção às duas coisas se as fizesse ao mesmo tempo, assim optei pela que mais gostava.
Sente que, enquanto parte intergrante do clã Ribeiro Telles, tem uma missão a cumprir?
Penso que sim. Eu não vivo nessa pressão no dia-a-dia, mas sinto que os meus antepassados deixaram marcas fortes e que devo manter o nome para não defraudar e não desiludir. Acima de tudo é para mim muito importante não desrespeitar tudo o que foi construído e conquistado. O meu avô, o meu pai e o tio António deixaram a fasquia tão alta que é difícil superar, mas eu tudo farei pelo menos para manter.
Aos 24 anos de idade conta já com temporadas bem preenchidas, em 2013 realizou 18 corridas. Qual o balanço que faz desta sua temporada?
Eu desde muito novo fui integrado em cartéis de responsabilidade, nomeadamente a tourear com pessoas mais velhas e já com “nome”, desde essa altura o meu pai começou a dedicar-se mais a mim e abdicar da sua carreira para se entregar à minha. Isso é um aspecto que se nota até hoje, foi fundamental, esta época foi mais um exemplo disso. As coisas correram bem, a época foi forte e teve muito significado, toureei cá dezasseis corridas e dois festivais, e treze em Espanha. No total foram trinta e um espectáculos, e talvez por isso e pelas exibições conseguidas esta temporada marcou a diferença na minha carreira.
Ao final de cada corrida costuma levar trabalho para casa? Quer isto dizer, se se auto-avalia e trabalha nas imperfeições que reconhece.
Isso há sempre, não apenas no toureio mas em tudo, até no dia-a-dia há coisas que podem ser corrigidas, outras que nos devemos debruçar sobre elas para as melhorar. O objectivo é procurar a perfeição, mas isso é muito difícil, há sempre qualquer coisa que o impede. É muito importante para mim identificar os erros para depois trabalhar sobre isso e melhorar, é fundamental.
O toureio a cavalo tem-se apresentado em praça com estilos muito diversos. O João tem um estilo de toureio alegre e franco. Na sua perspectiva a equitação taurina e o ensinamento dos cavalos para o toureio, ainda têm margem de progressão?
Sim, eu penso que sim. Apesar de tudo o que já vimos acaba sempre por aparecer qualquer coisa de novo e eu penso que poderão aparecer ainda outras coisas diferentes. Por outro lado, penso que isto já evoluiu tanto e chegámos a um ponto em que se fazem tantas coisas aos toiros que a margem pode ser curta, julgo que começa a ser difícil inventar-se mais, ainda assim penso que é possível progredir e temos mesmo que viver a considerar isso senão parece que tudo vai parar por aqui.
No que diz respeito à minha quadra, francamente considero que é uma boa quadra com óptimos cavalos e o facto de sermos nós “a meter” os cavalos desde novos cá em casa, é no meu ver muito importante.
A quadra é sem dúvida um dos principais eixos da sua profissão. Quer falar-nos um pouco das suas montadas. Quem são? Quais as suas escolhas? Que cuidados tem com estes animais?
Sim, a quadra é fundamental. Este ano toureei em doze cavalos, há aí mais uns cinco ou seis novos para “meter”, tenho cerca de dezoito ao todo. Acho muito importante sermos nós a trabalhá-los e a ”metê-los”, é uma mais-valia nós os conhecermos e eles nos conhecerem nós. Este ano tive cerca de cinco cavalos que se destacaram mais, os cavalos de saída por vezes não aparentam a importância que têm, veja por exemplo o Aveiro que foi um cavalo novo este ano, toureou as corridas todas e demonstrou muita segurança e confiança. Nos curtos, penso que tenho quatro cavalos muito bons, o Rio Frio e o Grave destacaram-se mais cá em Portugal porque tiveram alguns triunfos sonantes. Há ali seis ou sete cavalos importantes na quadra. Tenho o cuidado de os montar bastante, eu sou muito de montar, trabalho-os todos os dias. Estes animais são tudo para nós, temos de os tratar e cuidar ao máximo, nós sem eles não somos nada.
Das praças em que actuou esta temporada, alguma lhe tirou o sono?
Há sempre! Na minha opinião não há cartéis, nem locais, todos os locais incutem responsabilidade e seja a tourear com quem for é sempre importante. Mas de facto, há corridas daquelas realmente importantes… este ano felizmente tive várias porque penso que é sempre bom termos, e de facto são corridas que nos tiram o sono. Em Vila Franca de Xira, é sempre duro porque há um conjunto de factores que exigem de nós como, o público, a praça, toda a envolvência de uma corrida em Vila Franca, mas quando aquilo tudo corre bem realmente tem outro sabor. Para além de Vila Franca, Graças a Deus toureei muitas outras corridas importantes, como o Campo Pequeno, nesta praça só o facto de se estar anunciado tira o sono, é um peso enorme ainda mais se se tratar de uma corrida televisionada como aquelas que realizei. Mas há outras, este ano toureei duas vezes com o Diego Ventura uma das quais na feira da Moita, também importantíssima. Por tudo isto foi uma época de muita responsabilidade, mas acho que consegui alcançar os meus objectivos.
Quer partilhar connosco as praças onde gostaria de se ver anunciado?
É um dos meus objectivos tourear em Madrid e Sevilha, julgo que estou preparado e na altura certa, resta esperar para ver se terei essa sorte. Para mim seria muito importante, é um dos meus maiores objectivos nesta fase da minha carreira.
Quando olha para trás, quais são os momentos da sua carreira que o marcam especialmente?
Sem dúvida, o dia da minha alternativa. Primeiro porque penso que este dia é o mais importante para qualquer toureiro, e no meu caso, chegar ao Campo Pequeno ver a praça esgotada, conseguir reunir toda a família, foi uma noite muito marcante, marcante para várias pessoas mas a mim vai-me marcar toda a vida.
Num cenário destes, quando estava para sair à praça sentia um aperto….um aperto grande. No início da semana já sentia apertar, no dia apertava ainda mais e com a noticia que tivemos de manhã que a praça já estava esgotada, aquilo foi um sufoco à séria. O chegar a Lisboa, entrar em praça, as cortesias, ui!… mas depois quando sai o toiro temos que saber abstrair-nos e no fim, como correu lindamente, a felicidade superou tudo.
Foi realmente uma noite que me marcou.
Numa fase em que muito se fala em dificuldades sócio-económicas, considera que a Festa tem futuro em Portugal?
Eu penso que sim. Vivemos num momento difícil é certo, e não apenas no que aos toiros diz respeito, é um fenómeno que influencia o país em geral, seja qual for o ramo de actividade toda a gente se queixa e na Festa não é diferente. Ainda assim, há um factor importante que é a juventude que se vê nas praças, é sem dúvida positivo. Por outro lado, há efectivamente muito ruído em torno deste tema da crise, mas penso que é mais o ruído do que as pessoas, a prova está que ainda esta época nas condições que estamos a passar conseguimos ver várias praças esgotadas e outras bem cheias, o que no meu entender trás muita força a nós e à Festa.
O defeso é para muitos tempo de “arrumar a casa”, nesta altura o João gostaria de investir na carreira internacional? Que significado tem para si sair a tourear em Espanha?
Há várias épocas que tenho marcado presença em Espanha e França. Gosto muito de tourear em Espanha e é um dos meus objectivos. Em Portugal não sou de tourear demasiadas corridas, felizmente tenho conseguido tourear corridas importantes e penso que até quinze corridas por época serão as suficientes, naturalmente que me refiro à minha pessoa, porque depois em Espanha tenho outras tantas o que acaba por perfazer um número bastante aceitável de corridas por temporada. Nunca fui de tourear cá demasiadas corridas porque penso que acaba por se repetir praças, por se repetir cartéis e julgo que estamos numa fase em que temos que ser organizados. Para fazer um boa época porque não tomar esta opção?! Integrar os cartéis da principais corridas em Portugal e entrar em Espanha onde a afición é enorme, para tentar conseguir um lugar nas grandes feiras.
Como classifica o mercado ganadero nacional, de uma maneira geral?
É muito complicado, não apenas o nosso mas de uma forma geral. Se nos sentar-mos a fazer contas às despesas implícitas à criação de um toiro em quatro anos, contrapondo com o valor que é dado pelo aluguer desse toiro… é uma injustiça. Se há alguém que se pode sentir injustiçado são os ganaderos, porque o investimento na criação comparado com aquilo que o toiro vale, é um desequilíbrio grande. Não estou a atribuir culpas, não sei de quem é sequer a culpa, mas penso que a verdade é essa, não é nada fácil, é daquelas coisas que se fazem por gosto. Felizmente ainda vai havendo quem tenha possibilidades e mantenha as suas ganadarias por amor à criação do bravo. Em termos de negócio, contas feitas é quase sempre a perder, mas está tão enraizado na gente do toiro que se vai conseguindo superar esse problema.
E porque esta casa é também ganadaria, considera que actualmente as nossas ganadarias estão vinculadas a um método reprodutivo tradicional, ou já vão sendo dinamizadas pela evolução da genética?
Aqui em casa temos duas ganadarias e o processo de reprodução rege-se muito pela selecção. Temos a sorte de juntar o útil ao agradável e toureamos as vacas todas, até porque a linha Vale de Sorraia não é toureada a pé, não se tentam as vacas toureia-se só a cavalo e desde logo é feita a selecção. Na ganadaria David Ribeiro Telles, essas sim, são tentadas e toureadas a cavalo no dia da tenta. Há ali matéria para estudar, avaliar e seleccionar se as vacas são boas, ainda assim como sabe, é muito difícil, nada é garantido, por vezes julgamos que temos todas as condições reunidas e depois sai tudo ao contrário. A verdade é que essa incógnita também é um factor aliciante no método de reprodução da raça brava.
Há quem diga que esta foi uma temporada em que os toiros não trouxeram emoção à Festa, concorda?
Confesso que não concordo muito. Penso que quanto mais as pessoas entendem, menos se divertem. Quanto mais entendido se é, maior é a expectativa, assim como os mais cépticos julgam sempre que o melhor é o que está para trás; “….o do ano passado era bem melhor que este!”
Eu não penso assim, penso que houve corridas importantes, provavelmente mais corridas até que no ano anterior, penso que dentro do quadro económico que passamos foi uma época bastante positiva.
Não gosto de estar em desacordo com ninguém, mas na minha opinião houve corridas para tudo, houve toiros a apertar, houve toiros mais bravos, menos bravos, houve tudo.
Já tivemos oportunidade de o ver distinguido com vários troféus. Alguns terão sido mais marcantes, quais?
Os meus troféus têm todos um gosto especial. Só pelo facto de sabermos que estamos nomeados para a disputa de um troféu é desde logo um troféu pelo valor que é dado ao nosso trabalho. Poderá haver um ou outro que me marca mais, como o galardão do campo Pequeno que ganhei logo no primeiro ano em que fui praticante, também recebi por duas vezes as esporas de prata da corrida da RTP no Campo Pequeno, são sempre prémios importantes. Felizmente, consegui sempre que chegasse às pessoas o meu trabalho e a minha dedicação e penso que isso me foi trazendo alguns troféus.
Sabemos que tem um imenso grupo de simpatizantes e fãs, dentro e fora do universo taurino. E o João, é fã de quem?
Eu sou fã de muita gente, mas o meu maior ídolo é o meu pai, foi ele quem me trouxe tudo e foi sempre o motor de tudo isto. Por outro lado, e embora não pareça talvez por não estar tão activa, outro grande pilar é a minha mãe, que me apoiou sempre desde o início mesmo naquela fase em que o mais importante são os estudos, a minha mãe manteve a regra mas conseguiu sempre dar-me abertura para isto. A família foi importantíssima no meu percurso até aqui, e espero que o continuem a acompanhar daqui em diante.
Sou mesmo fã de muita gente e de muita coisa, mas o meus maiores ídolos são os meus pais e o Benfica.
A dinastia Ribeiro Telles já tem um futuro assegurado no mundo dos toiros? Quem será o próximo Telles a dar cor à nossa Festa?
Eu penso que sim, embora não lhe saiba dizer quem é o próximo. Temos aqui muitos miúdos, só netos somos cerca de trinta e oito, mas há dois ou três que já montam muito a cavalo, o filho do meu tio António monta muito, o filho do meu tio Manuel também e o filho da minha tia Sofia. Tenho esperança que sigam e que o nome Ribeiro Telles tenha continuidade no mundo dos toiros.
Complete esta frase: Para mim a tauromaquia é…
Tudo…é tudo porque não me vejo noutro mundo. Eu desde muito cedo tive bem ciente o que queria. Quando os adolescentes terminam a secundária e ficam na dúvida que carreira seguir ou qual o curso a optar, isso foi coisa que nunca se passou comigo porque eu sempre soube o queria desde muito novo. Muita gente pensou que me vi privado de algumas vivências próprias da idade, mas não é verdade, eu vivi tudo e espero viver ainda muito mais porque sempre consegui conciliar as coisas de forma a construir uma carreira, certo é que não sou ninguém ainda mas manterei o sentido de responsabilidade que foi o que me ajudou a crescer.
Quem é João Maria Ribeiro da Cunha Ribeiro Telles?
Bom… falar de outros é difícil, falar de mim pior um pouco. Penso que sou uma pessoa aberta a tudo, tento ser uma pessoa o mais humilde possível respeitando toda a gente. Julgo que sou simpático, considero que sou boa pessoa tendo por base bons princípios, que é o mais importante.
Ana Paula Delgadinho
