Encheu cerca de uma metade do tauródromo da Moita para a «Corrida da Imprensa» (preito que só Tomás Pinto não esqueceu de assinalar).
Confesso que os cartéis de seis cavaleiros não me atraem. São as não poupadas voltas e os tempos de lide e adornos levados ao limite que os tornam quase sempre espectáculos pesarosamente longos. A chave para estas corridas resultarem são «os toiros com gatos na barriga». Se sai um curro sério, com dificuldades, mais encastado ou bravo, aí não há tempo que chegue para desfrutar. Foi este último caso o que se deu nesta corrida de domingo da feira de Maio.
O curro alcacerense de Ernesto Castro, com cinco e seis anos de idade saiu rematado, com variada pinta e génio e deu jogo difícil, destacando-se o segundo e o quarto. Foi uma corrida para aficionados, para adeptos de um toureio sério e frontal – para os amantes do momento do ferro mais do que do adorno e do remate. E tínhamos entre os seis nomes, toureio de diferentes brocados. Nuns, o estilo garrido e popular, noutros o pendor clássico e canónico…
Na classe dos aguerridos, Joaquim Bastinhas não encontrou toiro para se recriar. O «Ernesto Castro» que lhe tocou, tinha qualidades mas não perdoava. Pendia para tábuas e saía com arreões, armava derrote alto e a procurar a bainha da casaca do ginete. Pouco ligada e com algumas passagens em falso foram o mote de uma actuação discreta.
Rui Salvador compôs a lide da tarde. Lidou o segundo toiro da tarde, com seis anos e 455kg. Saiu à praça com maus modos e depois acabou por acusar o castigo nos primeiros curtos mas no entretanto garantiu dois belíssimos ferros compridos, sobrada brega a que o exemplar correspondia com raça. O ginete leu o oponente na perfeição: andou a gosto com transparente entrega e os ferros – para o que o toiro se arrancava pronto e de largo – foram cobrados em justas reuniões. Tamanha entrega sobrou num violento toque ao penúltimo curto, quando o toiro já saía dos remates para a porta dos curros, donde saía para colher. Frente a um oponente que teve tanto de bom quanto de difícil Rui Salvador colheu o consenso das bancadas!
A linha do gráfico das emoções da corrida subiu exponencialmente com os dois compridos que Sónia Matias selou com espectaculares sortes de poder a poder e cingidas reuniões. O oponente, terceiro da tarde, tinha tanto génio como intuição para se adiantar aos intentos da amazona. Os curtos foram abreviados ao necessário e a linha do gráfico desceu drasticamente já que Sónia Matias não conseguiu debelar dificuldades.
Foram igualmente sonantes os compridos executados por Marcos Bastinhas. O bravo quarto da tarde, negro bragado meano, marcado com o n.º 8 e com cinco anos de idade foi o toiro da corrida e regressou para padrear. Acudia pronto e de largo aos cites, voluntarioso, franco e a rematar com graça. Teve uma lide sonante. Nos médios, as reuniões foram ao piton contrário, vistosas e arrimadas – reuniram o consenso do público, que o cavaleiro «meteu no bolso».
Duarte Pinto teve por diante um bonito flavo. Era um “mentiroso” que parecia desinteressado e desligado dos bons labores do ginete para depois sair em arreões mas sem transmitir. Os bons ofícios de Duarte Pinto garantiram uma boa passagem: todos os ferros, como as escolhas dos terrenos e a brega conformaram uma lide equilibrada e com verdade.
Fechou a tarde Tomás Pinto. O mais jovem da tarde foi o único que pareceu recordar-se que o mote da corrida era a imprensa, a quem brindou a sua lide. Começou por esperar o toiro nos médios em sorte de gaiola. Curiosamente, o sexto foi de todos o que mais hesitou em sair dos curros, causando arrepios com a ousada sorte. Quando saiu foi para um enorme ferro, que sobrou em valor para o ginete. De praça a praça a dois tempos, foram os sonantes segundo e terceiro da ordem, a que se seguiu menor acerto nos curtos. O oponente impunha-se nas em duras reuniões e alguns toques prejudicaram o arrojo do cavaleiro que vinha para dar tudo. Veio, infelizmente, de mais a menos.
Viram-se interessantes pegas nesta tarde em que os Amadores do Ribatejo e Aposento da Moita foram protagonistas.
Pelos Amadores do Ribatejo abriu praça João Guerreiro à primeira tentativa. Mal o forcado se perfilou arrancou-se o toiro com pata. Entrou franco para o forcado que se fechou decidido e empurrou até tábuas, garantido uma bonita pega. João Machacaz consumou também ao primeiro intento. Esteve com irrepreensível técnica frente a um hesitante mas poderoso oponente que o exigia um forcado experiente para carregar, aguentar e recuar nos momentos certos. Mário Gonçalves pegou o último que tocava à formação ribatejana. À primeira tentativa aguentou duros derrotes laterais e acabou por sair despejado para baixo já lá trás. À segunda, o toiro esperou e hesitou mas entrou franco e sem derrotes.
Do Aposento da Moita foi Leonardo Matias quem abriu tarde. O desacerto a recuar, escorregando, fez com que o forcado recebesse o toiro a meia altura impedindo a reunião. À terceira encastou-se e resolveu com bonita pega em que o toiro fugiu ao grupo. A Francisco Baltazar tocou um difícil oponente que fez a viagem da primeira tentativa pelo chão, tirando o forcado. À segunda esteve bem o da cara a alegrar a saída a chouto do toiro, que recebeu com decisão. José Maria Bettencourt consumou a última pega da tarde à primeira tentativa, em técnica perfeita.
Se a nossa imprensa, tantas e tantas vezes apodada de «amadora» é aficionada, e, se esta foi uma corrida para aficionados, então esta foi sem dúvida a corrida da imprensa…!
Sara Teles
