O momento alto da noite só podia ser de Alvarito Bronze.
Há quem goste, quem se divirta e quem o odeie mas o que é certo, é que não há quem o não comente. Alvarito Bronze, o quarto da ordem de alternativas da corrida do passado sábado do Montijo – a IV Corrida da Raporal / Stec – é uma ímpar celebridade.
Se só isso bastava para um cartel arrojado, a soma de um curro de Fernandes de Castro, foi ainda arrojo maior.
A ganadaria não deixou créditos em mãos alheias: não são toiros fáceis, nem cómodos mas deixam ver as credenciais de quem os lide e assim, sim!, vale a pena ir aos toiros!
A primeira tarefa é a de meter o público no espectáculo. Desta feita, a tarefa coube a Sónia Matias. Diante de um oponente encastado e a pedir meças, a cavaleira começou muito bem e acabou menos bem. Boas notas nos compridos e igual rigor nos dois primeiros curtos, sofreu ao terceiro um violento toque. Corrigiu com um quarto ferro e abreviou por aí.
Depois seguia-se a vez de um dos cavaleiros da terra. Gilberto Filipe, a quem o sorteio ditou uma vez mais lidar o toiro mais pesado que havia nos curros (*no nosso último texto já o referimos). Mas o segundo da noite, além de um génio que saltava à vista, era também visivelmente malvisto (perdoem-nos o trocadilho) e como de maneira alguma passou no capote, foi recolhido por ordens do veterinário e delegado técnico.
Assim passou a vez a Filipe Gonçalves que havia de oferecer alguns dos momentos de maior júbilo para as bancadas montijenses. A maneira como recebeu o oponente, aproveitando-lhe a chegada enraçada, deu lugar à primeira grande ovação da noite. Depois correu o toiro pelas tábuas e colocou-o em sorte para os dois eficazes compridos. Nos curtos o toiro perdeu a chama e mostrou-se mais reservado no frente a frente. O cavaleiro recriou-se e conseguiu manter o timbre emotivo da lide, equilibrando o adorno dos cites com as ganas do oponente a perseguir para rematar os ferros. Terminou com um violino e uma forte petição para mais, mas saiu no momento certo.
Voltou então Gilberto Filipe para lidar o único castanho da corrida. Desenhou uma lide interessante e variada. Aproveitou para cravar recebendo quando o toiro arrancou de largo; corrigiu terrenos para reunir a dois tempos quando o oponente lhe intuiu a saída e terminou com um sonante ferro de frente e outro de batida ao piton contrário. Redondeou numa boa prestação.
Aqui chegados, a mais de meia casa que enchia o Montijo, fez saber que o momento que aguardava com real expectativa era o de Alvarito Bronze. Ano após anos, o gáudio do público com a sua chegada faz saber que o cavaleiro é absolutamente incontornável na temporada montijense. E, «chegou, viu e venceu». Quem sabe ao que vai, não pode deixar de viver intensamente cada segundo desta actuação em que a temeridade e divertimento andam a par e passo. (Note-se que Pedro Reinhardt, que dirigia a corrida, não conseguiu captar a essência do momento e recusou a volta ao ginete em obediência aos critérios de rigor que regem o regulamento, muito contrariando a vontade do público presente).
E depois destes momentos, não era de todo fácil retomar o fio à meada. Com grande mérito o fez Tomás Pinto! Teve por diante um colaborante toiro de Fernandes de Castro e interpretou-o sobremaneira bem. Recebeu-o à porta gaiola e levou-o em duas ou três voltas à arena – mão direita levantada erguendo o tricórnio! Foi uma lide exemplar em todos os sentidos. Indo buscar o toiro para o colocar nos melhores terrenos, executou cada um dos ferros à maneira clássica com notas de “agora”, rematou-os cada um devidamente, sempre ligado. Um enorme sentido de lide, inspiração e ofício. Perfeito!
Mara Pimenta terminou a noite frente a um excelente toiro de Passanha. A jovem amazona fechou mais uma corrida da sua primeira grande temporada com boas notas. O público rendido aos seus encantos, perdoa-lhe, claro está, alguns naturais desajustes e a jovem mostra querer e poder. Começou menos bem mas cresceu ante a dificuldade e somou mais uma boa prestação.
Os forcados apontados para esta noite foram os de Montemor e Amadores de Montijo.
Pelos Amadores de Montemor, João Braga, abriu função à terceira tentativa. Todas elas constituindo enormes prestações do da cara frente a um toiro que derrotava e batia assim que sentia o forcado, fugindo ao grupo. Francisco Bissaia Barreto esteve perfeito na reunião, recebendo quase de estaca acoplou-se à córnea e aguentou a viagem até o grupo fechar nas terceiras. Na última pega do grupo o toiro meteu a cara no chão e as ajudas acabaram também por cair, ficando o da cara de permeio sem hipótese. À segunda Manuel Ramalho conseguiu concretizar com eficácia embora numa pega menos ortodoxa.
Dos Amadores do Montijo foi primeiro Hélio Lopes. Recuando muito, recebeu no momento certo e fez a viagem sem dificuldade para consumar à primeira tentativa. Ricardo Parracho saiu lesionado ao primeiro intento e foi dobrado por Jorge Varela que tentou outras três vezes consumar a pega. O toiro acabou por ser pegado por Hélio Lopes de cernelha, com Nuno Dias a rabejar – numa entrada que o público aplaudiu de pé. Por fim consumou Ricardo Almeida à segunda tentativa.
Sara Teles
