Quantas vezes nos cartazes vêm estampados toiros extraordinariamente pesados?
Numa larga percentagem, sabemos que o que têm em peso falta-lhes em casta, bravura e emoção. Mas o público menos atento a encastes e genealogia vai ao engodo do perigo potencial de mais de meia tonelada de rês brava.
Peso, não é sinónimo sequer de trapio, quanto mais do resto… Mas, o que dizer quando à partida temos “o resto” e acrestamos peso e trapio?
Quem não for dado a hipocrisias, pode afirmar sem pejo, que se temos para ver um encaste que não oferece garantias de comodidade – se lhe acrescentarmos peso, acrescentamos emoção.
Em Salvaterra, no domingo, saiu um toiro de Vale do Sorraia com 625kg de peso. Mais alto que as tábuas, largo como um barco, fundo como um comboio e raro pêlo comprido – um animal impressionante cuja mobilidade não ficou minimamente comprometida com o bem distribuído mas imponente peso. De comportamento não foi o melhor da tarde, foi voluntarioso mas distraído, ia franco para os ferros e impunha-se na reunião pouco humilhada e procurou refugiar-se em tábuas. Foi um «bico de obra» para o praticante António de Almeida.
O ainda jovem praticante António D’Almeida resolveu com mérito. Andou mais hesitante e demorado nos compridos mas à medida que a lide desenrolou, também o instinto do ginete. Maior destaque para a brega na colocação do toiro e para o sentido de lide, sem esquecer o público mas também sem exagero de gestos.
Para a segunda parte, coube em sorte ao praticante um oponente com 520kg que recebeu com eficácia nos compridos. Depois sofreu uma aparatosa e impressionante queda. Aqui, pareceu um ginete de cátedra. Cheio de garra, mas senhor de uma grande naturalidade, levou a sua prestação a um outro nível, com vistosos ferros ao piton contrário.
Teve algumas falhas, mas em geral, destacou-se uma grande genuinidade de gestos, um bom sentido de lide e bastante facilidade em conciliar as dificuldades do espectáculo.
António Telles abriu praça com um bonito Vale de Sorraia com 530kg. O toiro era complicado mas oferecia bom jogo para o ginete. Foi uma lide interessante, no habitual timbre clássico, em que as ásperas reuniões, com o toiro a levar a cara acima, tiveram o papel principal.
Na segunda parte, o cavaleiro da Torrinha esteve soberbo nos compridos. O toiro, com sentido, a adiantar-se e com recorrido, deu lugar a uma lide de grande entendimento a exaltar essas características para a bancada.
Na primeira parte coube a Luís Rouxinol o segundo mais pesado do curro. Com 600kg bem distribuídos, o imponente oponente aliava reuniões de cara alta a bater, um bom tranco de galope e viagens a cortar caminho.
A brega levando o toiro pelo estribo, a galope cadenciado, chegou com força às bancadas e o ginete meteu o público no bolso.
Na segunda parte lidou Vale de Sorraia com 470kg, veleto de córnea, de saída alegre e olhar vivo, muito em tipo da ganadaria. A lide completou a primeira, muito ligada e com muito temple no cite, já que o toiro partia voluntarioso e enraçado.
As pegas estiveram a cargo dos Amadores de Lisboa e de Salvaterra de Magos.
Amadores de Lisboa:
João Galamba abriu praça e viu o toiro sair pronto e solto, entrando para a reunião de cara alta. À segunda o forcado não concedeu, e, mandando na investida, recuou levando o oponente toureado e fechou-se com determinação aguentando a viagem bem ajudado.
À formação lisboeta tocou o «barco» de 625kg, a que foi à cara Daniel Batalha. À primeira tentativa não obteve reunião e à segunda esteve correctíssimo nos cinco tempos e correspondeu-lhe excelente ajuda.
Por último, Martim Cosme encontrou facilidade com um oponente que apesar da viagem por baixo, não complicou. A dar uma boa primeira ajuda, Pedro Parrulas, despediu-se esta tarde e deu merecida volta com o da cara.
Amadores de Salvaterra:
Nilton Milho não recebeu bem o toiro na primeira tentativa que saiu frutrada. À segunda faltou-lhe ajuda para aguentar o derrote para baixo e à terceira concretizaram com eficácia.
Ruben Pratas esteve muito correcto executou uma boa pega à primeira tentativa com o grupo coeso.
Luís Carrilho esteve valente ante o oponente que arrancou com pata e o empurrou até tábuas. A pega foi vistosa mas só valeu pelo da cara já que o grupo falhou a nível das ajudas.
Da corrida de Salvaterra de Magos destacaram-se os toiros.
Divisa de Vale de Sorraia – ganadaria que preserva a antiga casta de Norberto Pedroso e Pinto Barreiros e que é, sem dúvida, um dos grandes bastiões de orgulho pela nossa cabana brava.
Sara Teles
