Ontem Manuel Gama dirigiu a corrida de Vila Franca com um critério absolutamente louvável.
É certo que ali ninguém se aborrece por não haver música, por não haver voltas ou por não haver facilidades. Em Vila Franca aplaudem-se os toiros de imponente trapio à chegada ao ruedo e os bravos na recolha aos curros.
Afinal não é a praça da Lourinhã nem da Cachoeira como gritava um homem atrás de mim. O único reparo ao público foi o aplauso ao “tão em voga” solo protagonista do cornetim, que também é muito aplaudido nas tais praças da Lourinhã e da Cachoeira e que já excede os limites da paciência.
Mas voltando ao inteligente: não houve voltas na segunda parte. É certo que alguns (poucos) cavaleiros têm suficiente sentido crítico para recusar a volta quando não estão muito bem. Mas na maior parte dos casos, o ditado diz e bem que «a ocasião faz o ladrão» e acabam por dar-se voltas sem que o público esteja minimamente entusiasmado. Por isso louve-se e sublinhe-se uma direcção rigorosa que exija muito! Porque o que é banal não tem graça e nós estamos precisados de mudanças saudáveis.
Posto isto e ao que interessa – o melhor da corrida foram os toiros de António Teixeira mas também houve bons ferros e pegas rijas.
O primeiro toiro de António Teixeira saiu à praça e soou aplauso.
A saída alegre e a empregar-se para a montada de Luís Rouxinol, cumpriu com boa nota. O cavaleiro esteve muito bem nos compridos e, nos curtos, optou por citar em curto, em contra querença, dando vantagem para reunir em cambiada. Nos dois primeiros o toiro saiu voluntarioso e a emprestar emoção à sorte e dali até ao quinto, com menos transmissão no momento do ferro.
O segundo do lote do cavaleiro de Pegões tinha ganas de colher a montada e transmitia muito nas ásperas reuniões de cara alta. Embora correcta, a lide não atingiu os padrões de qualidade da primeira.
O segundo da ordem tinha imponente trapio, encastado e nobre. Filipe Gonçalves interpretou-o com acerto e lidou-o de frente, desenhando o quarteio e aproveitando os remates enraçados do oponente. O oponente que lhe tocou em sorte na segunda parte tinha também o sal e pimenta dos anteriores e foi aplaudido na recolha. É apanágio deste cavaleiro apresentar abordagens variadas e aqui escolheu os ferros ao piton contrário como trave mestra, frente a um oponente que nunca se escusou aos médios e que acorria de quaisquer terrenos. Arriscou mas acabou por vir de mais a menos, com algumas falhas nos últimos ferros. Não lhe foi cedida a volta.
O terceiro foi um toiro de bandeira. Um bravo que acedia a todas as chamadas, alegre no momento do ferro, pelo seu caminho e nobre. A abordagem de Duarte Pinto, apostada num renovado estilo clássico não podia ficar melhor às qualidades deste toiro, com ferros de frente desenhando um quarteio. O último toiro da corrida foi o único manso do lote que se fechou irremediavelmente em tábuas. Doeu-se desde os primeiros ferros e saía em arreões encastados num galope «para comer» e depois manseou sem dar hipótese para mais. Duarte Pinto aproveitou as primeiras sortes para extrair «o que havia» do oponente mas terminou com inevitável nota baixa. Não lhe foi autorizada a volta.
Houve muito para ver no capítulo das pegas, em que estava em disputa o troféu João Vila Verde.
Os Amadores de Vila Franca de Xira consumaram as três pegas à primeira tentativa e com aquela extraordinária eficácia que os caracteriza. Pedro Castelo foi à jurisdição e recuou a mandar, fechando-se e aguentando os derrotes do oponente com oportuna ajuda. Ricardo Patusco, viu o oponente sair com pata e recuou e reuniu muito bem, aguentou a viagem a meia altura até às tábuas. Rui Godinho aguentou a viagem por baixo muito bem fechado e o grupo tapou eficazmente o embate nas tábuas.
Pelo Aposento da Moita José Maria Bettencourt, esteve enorme na reunião e a aguentar a viagem a bater mas faltou-lhe grupo na primeira tentativa. À segunda o toiro meteu um piton por diante e tirou o forcado no primeiro derrote. À terceira, o poder do toiro volta a tirar o grupo. À quarta de sesgo, volta o toiro a conseguir tirá-los e à quinta efectivam a pega de recurso. Nuno Inácio esteve muito bem a tirar e mandar no toiro da jurisdição até reunir e concretizou à primeira com uma boa primeira ajuda. José Henriques esteve enorme a receber a investida dura do oponente que o empurrou até tábuas, onde faltaram as terceiras. À segunda deu vantagem e consentiu muito numa vistosa pega em que correspondeu uma boa terceira ajuda.
Sara Teles
