Dificilmente a corrida mista de dia 18 de Junho no Campo Pequeno será suplantada como a melhor da temporada do abono da primeira praça do País.
Foi uma noite de arte, em que a porta grande grande se abriu para o matador El Juli e em que o rejoneador Diego Ventura deu tudo por tudo para triunfar.
Para quem esteve no Campo Pequeno, podemos dizer que teve muita sorte, mas podemos mesmo chegar a dizer que foram aficionados privilegiados, em particular porque Juli – que tradicional e polemicamente não costuma bandarilhar os seus touros – presenteou-nos com o segundo tércio feito por si, com categoria, destacando-se o último par de bandarilhas. Perante a sua frequente negação a bandarilhar, apesar dos pedidos fortes que regularmente lhe são feitos nesse sentido em Espanha, este foi certamente um momento que vai levantar polêmicas ou pelo menos celeumas no país vizinho.
Mas para além desse privilégio, Juli esteve triunfal, provou ser, mais uma vez, uma figura de excelência do toureio com três lides de mestre que redundaram em Volta, duas Voltas e três Voltas. De Juli tivemos maestria e do seu curro correspondência, o que foi a fórmula mágica para uma noite memorável. Guiou os tendidos com uma primeira lide que deixou desde logo claro que as varas não fazem sempre falta… No seu primeiro touro isso foi óbvio e no segundo também, com o terceiro poderia ter melhorado o touro com o ser picado, mas não foi vital. E este foi outro factor que certamente contribuiu para a magia da noite.
Diego Ventura, por seu lado, apresentou no Campo Pequeno o toureio mais maduro que já lhe vimos, não há dúvida que é um rejoneador figura, muito bem montado, que consegue interpretar com um crivo marcadamente seu qualquer lide, sendo que aquela que teve, realmente, um nível muito elevado foi a do primeiro touro da noite, um Passanha, a que se seguiu um Vinhas que teve de ser recolhido por estar manco e trocado pelo Cortes Moura, tendo sido lidado em terceiro o Vinhas sobrero, mas a empresa resolveu dar-lhe ainda mais um touro. Uma decisão mal justificada ante o ambiente deste mano-a-mano, que após ter sido anunciada a porta grande para Juli entendeu dar à lide a cavalo o sobrero de Passanha. É a capital do toureio a cavalo a falar mais alto, certamente…
A pé, os touros foram, respectivamente, Garcigrande e dois Domingo Hernandez.
As pegas desta noite estiveram a cargo do Grupo de Forcados Amadores de Montemor-o-Novo, tendo-se destacado a última da noite, ou seja a do sobrero de Passanha, que foi o touro extra e que, aliás, o melhor que nos deu foi a pega.
Pegaram os forcados Francisco Borges à primeira tentativa, João Braga ao tercero intento, Francisco Barreto e Manuel ramalho à primeira.
A lide deste extra deixou uma nota menos boa à noite de Ventura, que deixou a montada ser tocada algumas vezes, falhou ferros e teve uma cravagem irregular e ainda com falta de sortes rematadas. Porém, no touro que abriu a nocturna, esteve magistral: cites de risco e arte, cravagem correcta e sortes rematadas ante um touro que parecia feito à medida do toureiro. Com o seu segundo a sorte com o oponente foi menor, mas suficiente para provar o toureio maior que nos entrega Ventura, tendo sido de destacar os curtos bem nos terrenos do touro e a emoção sempre presente no par de bandarilhas. Compartiu a sua terceira lide com David Gomes, o cavaleiro suplente, sem grande brilho mas com o mérito de ter feito a gentileza e dado aquela oportunidade. Foi só o quarto touro que manchou um pouco a sua noite.
A saída em ombros de Juli foi das mais merecidas do Campo Pequeno, a praça esteve ao rubro, e no seu primeiro touro há que realçar as suas distâncias, as meias verónicas e a extraordinária ligação na muleta, com uma actuação redonda. Com o segundo touro deu-nos a inteligência a par do saber, tirando ao touro tudo, mas tudo mesmo que tinha para dar, com passes de peito profundos e um oponente a corresponder por ambos pítons. Realce no terceiro para as reboleras iniciais e para as bandarilhas com que nos agraciou.
O Campo Pequeno tinha a casa quase esgotada, se não estava era por um quarteirão de bilhetes e não mais, e felizes daqueles que ali se sentaram à 18 de Junho de 2015!
Silvia Del Quema
