A partir das seis da tarde de ontem as bilheteiras de Alcochete fervilharam.
Até à hora da corrida, muitos foram os que desesperaram por comprar a entrada das desistências de última hora.
Os que reservaram o bilhete e não foram fizeram a alegria de alguns mas muitos foram os que ficaram de fora e não puderam assistir ao espectáculo.
Para isto contribuiu o apelativo cartel (mas também os anti-taurinos que tinham marcado presença no primeiro espectáculo e que fizeram nascer uma onda de solidariedade pela festa alcochetana).
A corrida desenrolou-se em peripécias!
Os toiros da ganadaria Passanha, bem apresentados e a sair com «sal e pimenta» ao ruedo, depressa apresentaram caracteres inesperados, ora acabando cedo demais ora se desfazendo em dificuldades ao longo da lide.
E como ensina o velho ditado «casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão»-
Os assobios não tardaram. Primeiro a Ventura (que lidou o segundo toiro da corrida), que, como primeiríssima figura que é, enche a praça com apoiantes e com um sem número de intransigentes que não lhe permitem qualquer deslize. No primeiro toiro fez vibrar a praça nos compridos. A vistosa brega e os primeiros ferros foram de estalo. Depois, desenhou uma boa actuação, com um ou outro pormenor de menos acerto. Ficou a faltar qualquer coisa. Na segunda parte, decidiu brindar a lide aos colegas alternantes e a João Ribeiro Telles. Não conseguimos ouvir as palavras mas os rostos não enganaram: o génio luso-espanhol reagiu ao «aparato» que tinha acabado de pôr em antagonismo os apoiantes de Rui Fernandes e de Ribeiro Telles.
Efectivamente, Rui Fernandes tinha estado em plano morno na primeira parte. O primeiro exemplar de Passanha saiu enraçado mas perdeu a chama cedo demais. Valeu o esforço do cavaleiro para cumprir a ferragem da ordem em plano de regularidade.
Na segunda parte tocou-lhe um oponente com sentido, que investia pela certa, acedendo com reuniões duras e intempestivas. Voltou o cavaleiro a esforçar-se para dar a volta ao oponente e agradar à bancada. Porém: depois do primeiro aviso e ainda no tempo regulamentar o cavaleiro cita o toiro e prepara mais um ferro. Nesse exacto momento, o cornetim interrompe-o. Toda a praça reage contra o director de corrida (Pedro Reinhardt) num violento assobio. Primeiro porque o anterior aviso não se tinha ouvido. Depois porque é preciso bom-senso e mandar tocar o cornetim imediatamente antes do ferro ou imediatamente depois e não durante a sorte!! Ainda para mais quando se viu o cavaleiro «suar as estopinhas» para conseguir elevar a actuação. A praça inteira estava com Rui Fernandes! À excepção de um ou outro espectador, que, certamente apoiando uma outra casa, fizeram estalar o rebuliço entre a trincheira e as bancadas do redondel alcochetano.
Ora, todas as histórias têm dois lados e cada um tomará o partido que mais justiça lhe merecer e com isto a festa vive e renova-se!
A João Telles Jr… Tocaram-lhe em sorte os dois melhores toiros do curro de Passanha e o ginete não deixou escapar a oportunidade. A boa actuação da primeira parte, ficou na retina com um penúltimo ferro, com uma reunião ao estribo e o toiro a meter a cara alta a chegar ao ombro do cavaleiro.
Na segunda parte, o toiro não tinha a mesma qualidade. Começou menos bem nos compridos mas nos curtos compôs uma boa ode, porque o oponente se adiantava e transmitia muito no momento da reunião. Os últimos dois ferros, de violino, foram os que fizeram estalar a bancada selando definitivamente o êxito da sua passagem.
Escaparam ilesos das tropelias os forcados de Évora e de Alcochete.
Pelos Amadores de Évora, Dinis Caeiro abriu praça. Carregou muito em cima e não teve tempo de «se sacar» pelo que viu a investida ensarilhar e, recebendo um piton entre as pernas, acabou por ser despejado. À segunda tentativa, corrigiu e concretizou a pega com eficácia.
João Pedro Oliveira esteve bem e concretizou a pega à primeira com o grupo a corresponder com coesão.
Martim Caeiro não reuniu nas melhores condições e acabou por ser despejado com um derrote violento na primeira tentativa. Na segunda tentativa reuniu bem mas o toiro volta a tirá-lo com um fortíssimo derrote. À terceira o grupo subiu e não consentiu veleidades ao toiro.
Pelos Amadores de Alcochete João Pedro Sousa vinha fechado na cara, numa pega de reunião dura em que o toiro fugiu ao grupo, acabando por embater com violência nas tábuas e deixando o forcado inanimado. Foi dobrado com raça e eficácia pelo cabo Vasco Pinto.
João Machacaz na primeira tentativa, viu o toiro entrar-lhe muito por baixo e acabou por não conseguir reunir em condições. À segunda pisou a jurisdição, o toiro voltou a entrar baixo mas conseguiu acoplar-se e fechar-se com decisão com uma boa primeira ajuda de João Rei.
Nuno Santana esteve tecnicmente perfeito e efectivou ao primeiro intento.
Sara Teles
