Vila Franca compôs-se ontem para ver os toiros das mais sui generis ganadarias ibéricas em confronto: Miura e Palha.
Vila Franca não perdoa e não aceita desculpas.
Ali não há como tentar «tapar o sol com a peneira», porque «se por dá cá aquela palha» há um «um bicho de sete cabeças», muito mais ferve a água quando há bronca de verdade. E, nem vale a pena tentar fazer «ouvidos de mercador» porque ali as vontades fazem-se mesmo ouvir e só com muita sorte não se fazem cumprir.
Deram «água pela barba» estes Miuras e Palhas… Tanta que o director Lourenço Luzio (ainda por cima dotado de uma barba curta) se viu a braços com chatices atrás de chatices.
O tom jocoso com que sigo, pouco ou nada reflecte o espírito que se viveu ontem nas bancadas da sevilha portuguesa. Ninguém gostou da corrida e o empresário tem agora que percorrer um caminho difícil para re-conquistar a confiança dos seus aficionados. É que há Toiros e toiros… E os de ontem foram dos segundos.
Primeiro lidaram-se os Miuras. É consabido que os toiros desta ganadaria têm uma morfologia muito peculiar. São toiros altos e longilíneos, raramente gordos (apesar de facilmente atingirem os 600kg) e estas características fazem-nos parecer por vezes mais fracos e escorridos. Convenhamos que mesmo dando ênfase a estas vicissitudes da morfologia do encaste, os três Miuras de ontem em Vila Franca (especialmente o segundo) ficavam àquem dos Miuras que se lidam nas primeiras praças espanholas. E Vila Franca é e quer continuar a ser uma dessas «de primeira água» . Daí que os assobios e chatices não pararam de princípio ao fim.
Mas se o «pomo da discórdia» foram os Miuras, a verdade é que os Palha também não deixaram muita margem para melhores comentários. Eram para lidar-se três da prestigiada ganadaria portuguesa, mas um destes saiu com problemas de locomoção e acabou por ter que ser substituído pelo sobrero de Oliveira Irmãos.
E o pior é que além disso, os seis saíram mansos encastados com um sentido tal que não houve como dar-lhes a volta.
Luís Rouxinol abriu praça. Esteve bem nos compridos. Rapidamente deixou os três da ordem já com o oponente a adiantar-se e a escolher terrenos em tábuas. Os curtos foram a resolver a investida a «cortar caminho» mas nem assim evitando as colhidas da montada a cada reunião. O director mostrou o lenço branco para a música mas o público assobiou e não permitiu nem esta nem a volta do ginete.
Na segunda parte o cavaleiro vinha com ganas de agradar a Vila Franca. Começou muito bem, mexendo o toiro da divisa Palha (com uns bem distribuídos 510kg) que cedo descaiu para tábuas só o conseguindo tirar para os ferros de reunião dura. Depois acabou ver a montada colhida e a lide veio a menos. Assim, apesar de um ou outro melhores apontamentos as duas actuações não evidenciaram a regularidade técnica a que o cavaleiro de Pegões nos habituou.
Vitor Ribeiro recebeu o segundo da noite com boa brega. O público assobiou e protestou contra a falta de apresentação do toiro que tinha acusado 560kg na balança. Cumprindo as ordens da direcção da corrida e contrariando a vontade do soberano público o ginete cravou o primeiro comprido e viu a bancada ficar-lhe «em contra». Porém, piores que os problemas físicos foram mesmo os problemas de «matemática» que o toiro apresentou. Fez o que pôde mas não passou do morno.
Na segunda parte voltou o público a protestar face aos evidentes problemas de mobilidade do exemplar da ganadaria Palha, que teria 580kg. O veterinário não hesitou e agora sim fez a vontade às bancadas mandando trocar a ordem para lidar no final o sobrero, da ganadaria de Oliveira Irmãos, com três anos de idade. Mas se os Palhas e Miuras já tinham pedido contas este último em nada facilitou. Um manso que imprimia arreões intempestivos não concedia um milímetro. E foi mesmo nesses milímetros em que Vitor Ribeiro arriscou que se viram os melhores e mais aplaudidos ferros da noite. Arriscou o mais que pôde e a garra do ginete foram evidentes e o público mais do que uma vez rompeu em aplauso mas Lourenço Luzio, desta feita, não mostrou lenço nem cedeu música… Embora tenha acabado por mostrar o lenço para a volta…
Salgueiro da Costa também encontrou dificuldades sérias. O toiro tinha pata mas não tinha presença e adiantava-se uma barbaridade desde logo nos compridos. Não conseguiu dar a volta à papeleta. No quinto da ordem (que era para ter sido o último), um oponente da ganadaria Palha com 610kg, que se arrancava em ásperos arreões também não conseguiu acertar as medidas e as sortes resultaram pouco ortodoxas.
Os Amadores de Vila Franca tinham solitariamente a responsabilidade das pegas.
Nesta noite, despediram-se dois nomes grandes da forcadagem: Pedro Castelo e Bruno Casquinha. Autores de grandes pegas ao longo da sua carreira acabariam por executar esta noite a mais dificil… a última!
Ricardo Castelo abriu praça com uma das pegas mais difíceis da noite. Na primeira tentativa o toiro fugiu ligeiramente ao grupo, que acabou por não conseguir ajudar eficazmente. À segunda, o toiro meteu um piton no peito do forcado, que não obteve reunião. À terceira voltou a imprimir uma reunião duríssima que tirou o cabo por cima, pelo que só à quarta com a ajuda carregada a pega se consumou.
Gonçalo Filipe consumou sem dificuldade ao primeiro intento, com o grupo a fechar com eficácia.
Ao primeiro intento Pedro Castelo não conseguiu fechar-se saindo desfeiteado. À segunda, apesar de ter frenado na reunião o oponente acabou por não dificultar na viagem, concretizando assim a última pega da sua carreira.
Bruno Casquinha concretizou à primeira a pega da sua despedida, corrigindo a investida pouco franca do oponente com uma boa pega à córnea.
Ricardo Patusco recebeu uma entrada duríssima pelo joelho que o tirou na primeira tentativa. À segunda o toiro voltou a empregar-se áspero na reunião e só à terceira com a ajuda mais carregada concretizou a sorte.
Rui Godinho, fechou a corrida com uma pega eficaz ao primeiro intento.
Sara Teles
