Há muito que Portugal se distanciara do toureio apeado, com o Campo Pequeno e a lide magistral de El Juli o ano passado, houve um repescar da arte a pé, quer na primeira praça do País, quer por parte de outras.
Contudo, é no Campo Pequeno que surgem os nomes de peso do toureio a pé. E surgem com ganas de triunfar, como se tivessem touros picados… É assim, este ano, cumpre-se o culminar desta evolução na corrida de quinta-feira passada na monumental da capital.
Padilla já tinha aberto a porta grande lisboeta em Julho passado, repetiu na última nocturna. No entanto compartiu cartel com Finito de Córdoba e Manuel Dias Gomes, e, a meu ver, a porta grande poderia ter dado passo a Finito também. Tendo o mais jovem matador português estado ao melhor nível, capaz de abrir a mesma porta, não fora aquele o cartel.
Finito esteve sério e profundo em ambos os toiros, Manuel da Veiga (no quinto o ganadero deu volta), tendo duas lides completas, redondas, para a aficcion que aprecia o detalhe. Manuel Dias Gomes, por seu lado teve uma lide agradável no seu primeiro touro, com muita elegância, destacando-se na muleta. E com o seu segundo touro, encontrou um extraordinário oponente que permitiu todos os tércios plenos de arte.
Porém, as portas abriram-se para sair em ombros Juan José Padilla, porque ele enche as medidas daquilo que Portugal precisa, no toureio a pé, após a travessia do deserto feita desde meados dos anos 90 do século passado.
Padilla tem um toureio menos pormenorizado e mais eloquente. Está com a emoção à flor da pele, de um modo controlado, e o herói que é enche os tendidos dessa mesma emoção. No seu primeiro touro, com que deu duas voltas, prometeu-nos logo que daria três voltas no segundo touro.
Ele sabe o que quer e o que está a fazer. Abriu praça de modo vistoso no calote, bandarilhou fechando com dois pares de violino e manteve a intensidade no capote. No segundo touro não esteve nem mais nem menos, esteve igual a si próprio e ao nível a que habituou os portugueses, por isso triunfou, dando o triunfo ao toureio a pé em Portugal. Ninguém vai esquecer os sete muletazos de início do último tércio em que das tábuas aos médios leva o touro de joelhos, como se fosse uma brincadeira de crianças. E é isso que vai fazer com que, para o ano volte a Portugal e, dessa feita, o Camp Pequeno esgote num cartel de toureio a pé onde seria agradável ver também Juli e Morante, outras duas figuras que se consagraram este ano pela Lusitânia, mas que seria difícil ver juntas em praça…
Silvia del Quema
