A abertura da temporada no Campo Pequeno não podia ter decorrido de melhor forma.
A nocturna de quinta-feira que deu início ao abono 2017 foi o culminar de um percurso, não simplesmente da primeira praça do País, mas nacional.
O cartaz a anunciar que o evento estava esgotado é a prova mais óbvia de que a cultura taurina está de boa saúde, por mais anti-taurinos que por aí andem. O cartel foi ambicioso e correspondeu às expectativas. João Moura mostrou um empenho extraordinário na sua lide, que lembrou tempos mais antigos do Campo Pequeno, mostrando bem a sua toreria. Juan José Padilha encheu as medidas dos que esgotaram os tendidos para o ver e à sua capacidade de emocionar. Roca Rey vingou na primeira praça portuguesa, marcando com nota positiva a sua passagem por Lisboa.
E este ambiente de entusiasmo, festa, cultura e estética acontecem numa corrida mista! Há sete anos atrás ninguém esgotava uma corrida mista em Portugal, não se abriria um abono com uma mista e muito menos se conseguiria atrair à nossa capital os nomes internacionais que agora cá encontramos.
Acredito que tudo isto se deve a trabalho árduo de quem chefia as actividades tauromáquicas do Campo Pequeno e deixo aqui um redondo Olé a Rui Bento Vasques por isso mesmo.
João Moura esteve muito bem com o seu primeiro touro, de Vinhas, que deu bom jogo e permitiu cites elegantes e de risco com uma cravagem de crivo Moura. No seu segundo, houve menos ligação e a lide fez-se sem história.
As pegas estiveram, respectivamente a cargo de Ricardo Castelo e Rui Godinho, ambos a consumarem ao segundo intento.
Para os matadores a porta grande abriu-se a Padilha, depois de dar duas voltas no seu primeiro touro e três no segundo, sendo que o ganadero deu volta com ele no primeiro Varela Crujo da noite.
Já Roca Rey teve menos sorte, pois calharam-lhe em sorte as duas reses mais difíceis, sendo o último da noite um touro manso que não permitiu a emoção a que o toureiro peruano nos habituou, apesar dos seus esforços. De qualquer modo, com o primeiro touro que lidou Roca Rey transmitiu, lidou bem por ambos pitons e manteve a sua marca de criar perigo pela curta distância entre ele e o oponente.
Mas a sombra de ter Padilla a antecedê-lo na lide é quase impossível de suplantar, uma vêz que a capital portuguesa rende-se claramente ao espírito do toureio de Padilla. O primeiro Varela da noite permitiu uma lide a gosto para qualquer toureiro e depois do capote inebriante de Padilla, as bandarilhas bem cravadas pelo matador, foi na muleta que o toureiro pode usar e abusar das boas características do seu oponente, dando-nos bons momentos de toureio.
A porta grande estava praticamente garantida, a não ser, talvez, no caso de lhe ter saído em sorte o manso da noite. No segundo touro, Padilla brindou os tendidos com desplantes atrás de desplantes e mais remates de grande técnica, desde o caote, passando pelas bandarilhas até à muleta e a simulação da morte do touro.
Ninguém saiu defraudado da primeira nocturna da temporada lisboeta, viram exactamente o que o cartel prometia e o Campo Pequeno viu a consagração assegurada do toureio a pé em Portugal, tal como ficara em promessa pendente garantido no final da temporada passada.
Sílvia del Quema
