E se na última crónica não consegui escrever sobre coisas simpáticas, nesta já sim! Mas lá está, se tudo fosse côr-de-rosa, não teríamos assunto. E sei que os verdadeiros estão sempre nos cornos do toiro, acusados de serem desestabilizador e de terem mau feitio, mas têm muito mais piada, muito mais tudo. Parece óbvio, não é? Não é.
E vou falar de um dos elementos mais importantes na quadrilha de um cavaleiro, matador ou novilheiro, O Bandarilheiro! Não sei se terei palavras suficientemente dignas para mostrar a minha admiração ao seu papel fulcral.
Em muito lado se lê e tão bem, que são “Toreros de plata, corazones de oro”.
Toureiro, que o são… apenas oito letras para descrever seres excepcionais pela sua entrega, paixão, arte, devoção e tantas outras qualidades.
Até podem parecer pessoas comuns á primeira vista, normais como outro qualquer, mas há qualquer coisa de espiritualidade que os converte numa espécie de divindade neste microcosmos da vida e da morte.
Sim, sempre á procura da perfeição, lidam com o instinto de sobrevivência como qualquer um de nós faria na mesma situação, mais, fazem-no em segundo plano para alguns. Há atitude mais nobre? Tudo por conta da apaixonante religião: a do toiro bravo.
E haverá sempre quem os chame de loucos, muitas vezes incompreendidos outras, aplaudidos, mas sempre, sempre excepcionais.
Á primeira vista, a diferença entre matador ou cavaleiro, e bandarilheiros é apenas o traje. O Traje de Luces!
Só o nome… parece que corresponde aos reflexos que produzem as lantejoulas que o cobrem. O ouro um metal solar, exclusivo para toureiros, a prata um metal lunar para os toureiros de prata. E tanto haveria para falar sobre as origens de todos estes preceitos.
Um traje tradicional, dos finais do séc. XVIII, que acabou por se converter e reajustar no traje de uso exclusivo dos toureiros.
Há coisa mais maravilhosa que os vêr entrar en el ruedo, vestidos com o Traje de Luces, o Capote de Paseo e a Montera na mão direita?
Só o vestir para tourear constitui por si mesmo um cerimonioso ritual…
O toureiro triunfa, mas mais de metade deste triunfo deve-se á sua quadrilha. Os toureiros de prata ou azabache, sim porque são toureiros e em nada subalternos ou actores secundários, asseguram que a lide é plena. Basta um olhar entre toureiro e subalternos, para saber como e quando actuar. Até o desfilar, quase sacerdotal durante o paseíllo, o ar solene, compenetrado e atento.
Parece que até têm uma linguagem própria: Ponerse el mundo por montera. Adoptar uma actitude atrevida, sem fazer caso dos demais; Echar un capote. Ajudar alguém que se encontra em apuros. E diz-se por aí, que há, muitas mais…
Arriscam a vida de peito aberto, fiéis guardiões das investidas. Pode ser que os toureiros cheguem alto porque os bandarilheiros os empurram pelas colinas. E a prata fica tão bem na arena dourada..
E quanta humildade!! Os seus nomes não aparecem nos Cartéis, no entanto, são eles que recolhem as flores e tudo o que se atira aos toureiros na volta ao ruedo, e mais importante que tudo, são eles os primeiros a estar quando desgraças acontecem, e a carregar o toureiro da praça para a enfermaria.
E é o valor e a arte dos toureiros de prata ou azabache, incansáveis em toda a corrida, correm, saltam, o seu suor esforço, que merecem toda a nossa admiração. Banhados a prata e honra.
E sempre há os que passam de ouro a prata, e nenhum “demérito” há nisto, seja pela incerteza do futuro, seja pela paixão pelo toureio, alguns passam a vestir azabache.
No seu tercio, analisam a investida do toiro, mostram ao toureiro como o toiro humilha, com a magia dos seus capotes e a arte das bandarilhas. Tem qualquer coisa de técnica e inspiração.
Alguém disse e tão bem: “Es que lo que pasa en el ruedo no puede describirse con palabras”
E não consigo deixar de falar de um milagre, de um grande amigo, e de um grande Bandarilheiro, Francisco Farinha. Que tão mal esteve por uma atitude nobre num Festival, ao tentar salvar um rapaz, e felizmente agora, se encontra bem!
Nada de novo, são maiores que o comum dos mortais.
Chegam vestidos de azabache ou prata, mas saem como são, Toureiros de Ouro!

