Campo Pequeno teve a sua nocturna mais difícil de sempre, desde a reabertura da primeira praça do País. Numa corrida do abono e com um dos melhores carteles possíveis. Para mais com ganadarias de provas dadas recentemente e a justa é importante homenagem a Curro Romero a acontecer. Contudo, foram longos os minutos de bronca à empresa.
A razão esteve nos touros que saíram à arena. Houve mesmo quem tenha dito que eram mais novilhos do que touros. E houve uma larga maioria a chamar-lhes cabras…
A questão reside, pois então, na escolha dos touros. Que não é um processo pacífico, envolvendo vedores da empresa e dos toureiros. Isso não desculpa o insulto a quem pagou uma corrida de touros na catedral do toureio portuguesa. Mas também não culpa o Campo Pequeno, que, aliás, já veio a público, num comunicado, lamentar o ocorrido e prometer que tudo fará para que não volte a acontecer.
O problema real, para mim, reside na diplomacia – traduzida na escolha das reses a lidar – que envolve trazer ao custo mínimo dois matadores do calibre de Morante e Manzanares. Sem touros picados, a escolha dos oponentes cabe muito aos oponentes… Ou seja, os toureiros não lidam uma coisa qualquer. Só pelo afeitado que os touros tinham se viam que essa preocupação esteve latente.
Ora e o que é que quem lá esteve viu na realidade? João Ribeiro Telles esteve muito bem com ambos os seus touros, de ferro Ribeiro Telles. O primeiro tinha pouco trapio, mas sobretudo transmitia pouco na sua investida curta, a que o ginete da Torrinha deu a volta com mérito. Na pega veio de largo para João Rui Salgueiro, dos amadores da Chamusca, que se fechou à primeira. No entanto, o papel do cavaleiro desta noite de touros lisboeta era ingrato: o público encarou-o como um fait-divers e deu volta ante a ansiedade dos tendidos pelas faenas a pé.
Morante recebeu maravilhosamente o seu primeiro touro de Paulo Caetano, que permitiu as suas verónicas de câmara lenta, bem rematadas. Foi com a muleta que pouco se sacou, mas com momentos elegantes que não desiludiram o público nem incomodaram o diestro.
Manzanares teve no seu Paulo Caetano um oponente mais retraído, que no capote permitiu presença toureira, e que na mesma deixou o toureiro mostrar os seus dotes, mas sempre com uma ligação entre passes difícil.
João Ribeiro Telles voltou à praça com outro touro de sua casa, mas mais uma vez se sentiu que estava com o público longe dele, pois teve a lide mais completa da noite e que passou discreta. Ladeios impressionantes, toureio à garupa, batidas francas e cravagem sem reparos. A pega foi de Francisco Andrade, da Chamusca que pegou em solitário, e fechou-se com o touro ao quarto intento.
Morante voltou a pisar a arena e não há figura mais toureira do que a dele, só que isso não chega e a sua faena não transmitiu, tendo a expressão do toureiro depois dos lindos capotazos que lhe deu mostrado as reservas que punha no oponente, que já sabemos que efeito lhe causam. Assim mesmo, o trabalho na flanela foi interessante e com apuntes…
Depois apareceu o touro mais pequeno da corrida, ainda por cima manso, Manzanares não forçou o dar-lhe a volta, mas procurou o mais que pode a investida até decidir “estocar”. Mas também com a bronca que este touro teve desde que saiu dos curros o toureiro nunca teria como se redimir.
A agitação na trincheira, por parte da empresa foi notória desde as bandarilhas. Os toureiros ajudaram e Morante saiu a praça mais uma vez para, com Manzanares, receber de capote o sobrero.
O problema é que também não havia muito a lidar neste touro, apesar da boa apresentação que tinha. Tanto Morante como Manzanares estiveram muito bem no capote, na muleta, o maestro da Puebla foi rápido a decidir que era a hora de morrer.
Sílvia Del Quema
