É extremamente emblemático que nesta marialva terra de Salvaterra de Magos se mantenha a tradição, há 16 temporadas, de realizar a Corrida Real com a presença de SAR D. Duarte de Bragança, sua esposa e os príncipes reais.
Ana Batista, Diego Ventura, e Francisco Palha perfizeram um dos cartéis de maior expectativa desta fase intensa da temporada taurina nacional.
Ana teve um primeiro hastado bastante complicado, saiu focado na trincheira, a cavaleira da terra levou-o à garupa em redondo para a cravagem dos compridos. Já nos curtos começou em alta depois de uma colocação difícil, no segundo que cravou era obrigatório soar a música. Seguiu sempre em nota alta com uma boa lide a um touro complicado que dificultava o momento da união, o que não a impediu de cravar ao estribo com grande elegância. Fechou muito bem a lide de um touro que o seu toureio soube trazer acima, com um palmito.
A pega ficou por conta de Pedro Silva, de Vila Franca de Xira, que se fechou com o touro de Alves Inácio ao terceiro intento.
Diego Ventura era a figura mais esperada desta nocturna , abriu a sua actuação com uma excelente sorte gaiola, dai para a frente manteve o nível, numa lide a encher a medida aos tendidos, com praça a praça e cites ao píton contrário, rematando bem as sortes e com a briga que bem lhe conhecemos, ante um Alves Inácio prestável apesar de retraído na investida, que diminuía a qualidade da cravagem.
Pelos Amadores de Alcochete foi João Machacaz, que se fechou à primeira tentativa, numa boa pega.
Francisco Palha iniciou a sua lide com muita emoção, um touro que saiu para a esquerda e se mostrou violento no capote que o recebeu. O primeiro comprido foi acompanhado de um toque, mostrando a laia do oponente de Margaça, que se retraia na investida e adiantava-se ao cavalo. Nos curtos mostrou-lhe completamente que mandava, tendo o melhor momento da primeira parte da corrida ao levá-lo ladeando a galope por toda a arena. Continuou a cravar bem nos curtos apesar do touro nunca melhorar o seu timbre de falso e sem classe. É curioso como um touro mau pode resultar numa lide de tanta importância.
Vila Franca foi à cara do touro com João Luz, que fez a praça levantar-se em ovação muito merecida para ele e para o rabujador, Carlos Silva.
O cavaleiro deu a volta com relutância, o forcado deu duas voltas. Ambos tiveram forte petição do público para darem as voltas, porque a verdade da tauromaquia é precisamente a de saber ultrapassar agruras com nobreza e foi o que se viu com este touro, que deu uma lide irregularmente triunfal.
Ana Batista voltou à arena para lidar um Alves Inácio sempre a medie as distâncias e que ela teve de aproveitar o melhor que se poderia. Nos compridos esteve a organizar-se com os tempos do touro e depois a sua lide foi em crescendo. Cravou bem os curtos, em tom clássico, e teve cravagens muito emocionantes com o Conquistador, deixando a sua marca forte nesta nocturna que era, à partida, de Ventura.
A pega deste touro foi executado por Diogo Timóteo, de Alcochete, que se fechou ao primeiro intento, muito bem, com o touro a desviar o trajecto e a dificultar os ajudas.
Diego Ventura voltou à arena e repetiu a sorte gaiola, levando o touro no seu encalce ziguezagueando pela praça. Nos curtos, Ventura sacou muita emoção aos tendidos com o seu Nazari, ladeando na brega e cravando de alto a baixo. Mas seguiu emocionando com o Guadalquivir, muito maleável e atrevido ante o touro, porém foi com o Dólar que deixou o êxtase nas bancadas, cravando sem cabeçada dois pares de bandarilhas.
João Matos fez a pega deste hastado, pelo grupo de Vila Franca, fechando-se ao excelente primeiro intento.
Rematar uma nocturna destas não é fácil, mas Palha conseguiu excelência nos compridos e nos curtos foi categoria, sortes frontais, cravagem precisa. O seu crivo ficou patente ao melhor nível possível, com um touro de investida curta. E foi esse o fim de noite que ficou na memória. A pega de Alcochete, ficou a cargo de Manuel Pinto, que se fechou à primeira tentativa num touro de muita pata.
A volta ao ganadero, no quinto touro, é que foi, a meu ver, descabida. De resto, o cartel de Salvaterra elevou o nome desta praça e minguem terá saído defraudado da Corrida Real.
Sílvia Del Quema
