Andava relutante em escrever, não só a falta de temporada contribui, mas todas as fatalidades que têm ocorrido, deixam-me sem chão.
Não vou falar da quantidade de figuras que temos perdido pelo meio deste pesadelo, e não falo apenas e só porque já foram imensamente homenageados. Nunca é suficiente, é certo, para pessoas que foram maiores que a própria vida!
Mas quero falar de outros assuntos, logo eu que nunca tive jeitos de “Velho do Restelo”, e é isto…
Mas então, e agora Albufeira? Não chega já? Não vai parar este ataque ao nosso Património?
E quem de direito? Que faz? É que, ou estou a ver mal as coisas, ou não sou eu, nem o Zé da esquina que podemos arregaçar mangas e tentar meios legais, o que seja, para evitar que estas desgraças! Não sei o que se poderia ter feito, não faço ideia, não percebo nada de gestão de praças e espetáculos, mas alguma coisa poderia ter sido feita, acredito que sim!
Veja-se o que está a fazer quem de direito aqui ao lado, por conta das Espartinas!
Que canseira… desengane-se quem acredita que foi só esta, basta ver todo o monopólio, todo o arcaboiço financeiro, os meandros intermináveis dos supostos animalistas.
Por cá, negócios e negócios sabujos de venda e exportação de animais para a Europa!
Aqui ao lado, oferecem um quarto de milhão para que terminem os encierros para sempre em Pamplona???
Ah, se for em auxílio de um canil chamas, junta-se uma multidão, se for para ajudar um semelhante, já é melhor filmar e publicar. Ai ai humanidade!
E está tudo bem, certo? É esperar tranquilamente que a pandemia abrande e possamos voltar à nossa vida normal, às nossas festas, às nossas corridas… Não!
Para sermos capazes de dar valor a tudo isto, temos que perceber a volatilidade de todo este mundo de tradições, tome-se como exemplo a retirada dos Brasões da Praça do Império, ora a História, quer se goste ou não, não pode ser apagada!
Isto tem tanto de ridículo como de grave!
Gostar de touros é uma opção nossa, e nada tem que nos envergonhe como muitos querem! É uma opção, não nos faz nem melhores nem piores que ninguém, apenas nos faz mais felizes!
E somos politicamente correctos demais, e andamos um nadinha “apagados”…
Ora, o politicamente correto é apenas uma forma de normalização de massas, muito bem pregado pelo nosso País, por sinal, é só irritante, porque é aquele “vernizinho” (que às vezes estala), aquele fingimento social que nos ajuda a coexistir em cima uns dos outros aqui neste cantinho. O gostarmos todos do mesmo, ouvir as mesmas músicas, vestir igual, perder brio em quase tudo, ir aos arraiais e festarolas que voltaram a estar na moda (mas sem a barbárie de touros claro está).
Agora, qualquer coisa que se diga é sentenciado imediatamente, na hora, por sumidades da razão e conhecimento.
Na era da internet e de tantos pensadores de écran que nunca leram os grandes, nunca houve tanta censura. Sim, censura! E se muitos diziam que os “anti” não constituíam ameaça, que o melhor era não dar importância, espero bem que tenham mudado de opinião!
Dias a fio a levar com conversa de vírus e vacinas, hospitalizados e morgues, virologistas de bancada e números disto e daquilo, e isto tudo pode ser e é ok – esquecendo as pessoas, mas corridas de toiros é que não.
Frases chavão é que é: “Éramos felizes não sabíamos”, “Vai ficar tudo bem”, treinos e directos online! Nós éramos felizes e sabíamos, lamento…
Vamos “masé” todos para o Instagram ou Facebook onde só se mostra o lado onde o sol bate e em modo pensamento nulo. Não dá trabalho, e é grátis. Mas que era mais estranha esta, superficial, oca, e de pseudo-felicidade-forçada!
Ai, esperem, voltei a pecar: uma rapariga não é suposto refilar, não é?
Bolas, na Idade Média já havia quem não quisesse esta linhagem perversa e pacóvia da maioria, das modas, o lado dissimulado das ditaduras com as suas lavagens cerebrais em massa. Agora, tudo é extremo, até a falta de liberdade para gostar do que quisermos, só podemos gostar do que é aceitável para a maioria!
Se todos pensarmos apenas numa direcção, a da festa em si, num todo, conseguimos perceber o belo que é o sentido de comunhão, o sol e o vento no rosto, as faenas inesperadas, pessoas, estados de espírito.
Não podemos deixar cair mais nada, nem do Espectáculo Tauromáquico em si, nem praças, nem formas de Tauromaquia Popular!
Mas sei que ainda há quem defenda todo este Património tão nosso, um grande olé para a ATTP, e o seu Presidente Luís Capucha, pelo excelente projecto em curso para candidatar a Tauromaquia a Património Cultural de Portugal.
E isto faz-me acreditar que apesar deste mundo por vezes ter muito mofo, gente com teias de aranha na cabeça, ainda há brisas que passam e deixam aromas de esperança e de primavera.
Ester Tereno
