Voltaram os toiros à Aldeia de Paio Pires (Seixal) nas festas de Nossa Senhora da Anunciada, quase duas décadas depois da última corrida. Ao invés da velhinha praça de touros do Paio Pires Futebol Clube, a corrida teve lugar numa portátil junto ao recinto da feira.
A velhinha praça continua a degradar-se sem que lhe alguém lhe dê o destino que merecia, apesar dos esforços que nos últimos anosfizeram, por exemplo, a Comissão Taurina de Paio Pires, o maestro Vítor Mendes e José Luís Gomes.
Não diremos que será a mais aficionada mas afirmamos com toda a certeza que é, de facto, uma terra com afición–e o certo é que a praça encheu …! E encheu com um público dado, participativo e que se divertiu mas do qual não se ouviu “toca a música” ou o típico “mais um”, bem revelando que aqui há mais qualquer coisa.
O curro de toiros de Prudêncio Silva não vinha muito bem apresentado. Justos de peso e trapio, com quatro anos de idade mas de aspecto muito anovilhado, acabaram por compensar em comportamento. Sem ser bravos, mostraram génio e transmitiram, levando a cara lá acima a emprestar brilho às sortes.
Francisco Núncio regressou após um interregno de dois anos. Mantendo-se fiel ao seu estilo muito peculiar e à postura clássica que é pedra angular do seu toureio, o ginete desenhou duas lides sóbrias, a andar de frente. Muito cuidadoso na escolha dos terrenos, pecou por não conseguir verdadeira ligação entre os ferros e a brega. Menos afortunado com o primeiro, que tinha o comportamento menos potável do lote, o ginete passou sem escutar música. No segundo toiro, em que a música soou ao segundo curto, a lide veio de menos a mais terminando com um ferro de grande nota, de frente e ao estribo.
Ana Baptista teve duas lides muito diferentes. Na primeira parte esteve sonante e toureira. Bonita brega, muito boa colocação do toiro, bons desenhos das sortes de frente e um grande entusiasmo entre as bancadas, embora as passagens em falso e ligeiros toques tenham impedido a música. Já na segunda metade da corrida, a cavaleira teve música, deu volta com o ganadero e alongou mais a lide… mas nem por isso foi, a nosso ver, um conjunto tão bem conseguido como o primeiro. O toiro tinha pata e a investida tinha som, mas viu-se tratar-se de génio mais do que de casta; sem suavidade, não permitiu à cavaleira redondear.
O triunfador da noite foi de facto Gilberto Filipe. Duas lides em sentido ascendente, ambas de grande ligação à bancada, em ambas com o cavaleiro a gosto e a ver-se desfrutar de um toureio seguro e de selo próprio.
Encontrando no primeiro um toiro que veio de menos a mais, o cavaleiro teve que prolongar a lide para tirar dele o melhor partido. Com efeito, a partir do terceiro curto até ao sétimo – um par a duas mãos que encheu o olho, Gilberto cresceu e entendeu-se perfeitamente com o oponente.
A segunda lide de Gilberto Filipe foi, de facto, muito agradável. O toiro era nobre, transmitia e empregava-se, e, as escolhas foram mesmo as mais acertadas para sair triunfador absoluto da noite e receber o prémio de melhor lide, que lhe foi entregue pela Comissão Taurina de Paio Pires. Seguiram-se apontamentos de “bom ferro” do primeiro ao último mas acabou por ser mesmo do quarto ao sexto, ao piton contrário (uma das predilectas de Gilberto Filipe), que a lide ganhou o seu espaço para marcar a diferença.
No capítulo das pegas a noite teve umas metades completamente distintas.
O grupo de Lisboa a encerrava-se em solitário com os seis exemplares de Prudêncio Silva e o cabo optou por rodar alguns forcados da camada mais jovem.
Manuel Correia, estreante a pegar em praça, consumou ao segundo intento à córnea, resolvendo a investida intempestiva do exemplar.
O “quase estreante”, Martins Lopes executou a segunda pega da sua carreira ao terceiro intento, encontrando dificuldade em obter reunião nas duas primeiras.
João Galamba empranchouna primeira tentativa, em que o toiro meteu a cara ensarilhando e consumou depois ao segundo intento, suportando os derrotes altos do exemplar.
A pegar “em casa” Nelson Lopes consumou uma pega correcta (à barbela) ao primeiro intento.
João Varandas assinou a pega mais vistosa da noite, conseguindo fechar-se à córnea sem que o toiro humilhasse e aguentando depois os vários derrotes muito bem fechado.
Por fim, João Luz fechou a corrida ao primeiro intento – embora tendo escorregado ligeiramente logrou obter reunião e aguentar a viagem por cima.
Sara Teles
