Não se pode falar de Pablo Hermoso de Mendoza sem falar do arranjo da sua quadra.
Sobre arranjo dos cavalos para o toureio, escreveu Fernando Sommer de Andrade, no seu III volume do Toureio a Cavalo: «[…] o que exijo é que estes exercícios sejam feitos de uma maneira perfeitíssima.»
Hermoso de Mendoza levou o conselho à exaustão e das duas uma…Ou parou a leitura por aí, ou quando, duas páginas à frente, leu que «o cavalo de toureio tem de ser arranjado […] para não nos deixarmos subjugar pelos rejoneadores, que, com o nosso exemplo, se têm aperfeiçoado» – a frase lhe tocou o orgulho patriótico.
O rejoneador esteve muitos furos acima da qualidade do tímido primeiro oponente de Passanha. Mas foi no segundo que fez o tratado. Villa, Van Gogh, Dali e Pirata com os nomes exibidos do pátio de quadrilhas – transtornaram as bancadas. Lentamente seguiu da qualidade templada dos primeiros ferros para a estupefacção. A pirueta antes do quarto ferro, passou … quê?! A 1 milímetro do piton? Levou o toiro das tábuas embebido à garupa para o colocar em sorte e cravar como se de um lance de capote se tratasse? Depois quantos foram? Dois, três…? Quantos palmos seguidos, a compasso? Desmontou qual tivesse a fim de faena logrado o rojão de morte por inteiro. Teve razão, fez exactamente tudo o que o toiro, a praça, o público e as câmaras da RTP exigiam.
A antítese de tudo isto era António Ribeiro Telles. O nosso máximo ex-libris do toureio equestre “pode com tudo” mas é consabido que o seu brilho estala nos encontros de poder a poder de outros encastes, no quarteio, no exímio que é dos ferros a dois tempos para que “a máquina” e a quadra do ginete estão apuradamente montados. Nem por isso deixou de agradar muito à bancada da Figueira da Foz – cites bonitos, sortes acometendo, em que a nobreza do primeiro exemplar lhe permitiu “adornar-se” até no próprio quarteio, fizeram a primeira lide redonda e muito bonita. O segundo Passanha que António Telles lidou foi manso e por isso foi o engenho que aguçou a arte. Realmente bons foram os três compridos, exactamente “en su sitio” e o terceiro curto com um bonito cite, bonito quarteio, boa reunião e bonito remate.
Paulo Jorge dos Santos podia ter saído com um grande registo da Figueira. No primeiro mostrou adornos inovadores, mostrou desenvoltura e acima de tudo, paixão. Esteve muito bem frente ao oponente, que lhe serviu à medida e logrou grande efeito com a exuberante montada com que fechou os curtos. Mostrou menos argumentos no último da noite, a que sacou uma lide muito mais irregular.
As pegas da noite foram consumadas sem dificuldades de maior pelos dois grupos.
Pelos Amadores de Montemor, João Cabral não conseguiu efectivar a pega aos dois primeiros intentos, resolvendo apenas à terceira com um cite mais em curto e o grupo mais junto. António Vacas de Carvalho teve que entrar na jurisdição e esteve bem quer a receber o toiro quer a aguentar os derrotes “incómodos” que o exemplar imprimiu. Francisco Borges com cite de donaire, calma nos terrenos adiantados a que teve de subir e nos demais tempos da grande pega ao primeiro intento que consumou.
Pelos Amadores de Vila Franca de Xira, Ricardo Castelo viu o toiro acudir pronto ao cite e entrar franco na reunião – fechou à córnea com uma ajuda por demais eficaz do grupo. Márcio Francisco esteve muito bem a alegrar o toiro e a impor-se, à córnea, vendo-o parar para o tirar, donde não saiu e consumou à primeira. Ricardo Patusco com enorme técnica e consequente grande eficácia, recuou carregando sempre para obter reunião no momento adequado e fechar a noite redonda do grupo.
Sara Teles
