Toca o cornetim para a pega e de imediato o burburinho do bom ambiente das bancadas de São Manços se transforma em silêncio. Só a voz do forcado, contemplativo no cite: o homem e o toiro. O forcado cita o toiro, carrega, consente, recua e reúne em cinco tempos só dele e do seu oponente e depois, só depois, a bancada explode na expressão de dezenas de comentários, aplausos e admiração. É terra de forcados e, sem dúvida, muitíssimo aficionada.
Pois não só para as pegas, os toiros de Cunhal Patrício que se lidavam esta noite pediam escola e deram trabalho. Um curro de nota baixa e ainda assim, dando um jogo muito desigual, sorteado em lotes desequilibrados. Para Rouxinol os dois toiros da noite; para João Telles Jr. os dois piores; e, para Marcos Bastinhas dois toiros que cumpriram. Foi uma noite morna, de pouco pano artístico nas lides a cavalo – mas, nem por isso deixou de ser uma corrida para aficionados.
Luís Rouxinol abriu praça frente ao que, realmente, foi o melhor exemplar de Cunhal Patrício – um toiro sério, que se empregava transmitindo às bancadas e ao qual o cavaleiro correspondeu com uma lide regular. Igualmente regular e bem conseguida foi a lide do quarto da ordem, que embora um pouco tardo a acudir aos cites, cumpriu, nobre e com fijeza. Do resumo, viram-se os habituais palmo e par, a fechar respectivamente cada uma das lides, baseadas em sortes de frente.
Aguardado regresso de João Telles Jr. depois da recuperação da doença que o forçou a parar durante quase todo este mês de Agosto. O primeiro do seu lote foi um manso que se doeu sempre ao castigo. Um “revoltón” de investida incerta, que começou andarilho e que aos primeiros curtos passou a empregar-se apenas aos arreões. O cavaleiro entendeu as dificuldades e concretizou uma lide complexa, com excelentes pormenores na colocação e escolha dos terrenos do toiro. O segundo exemplar que lhe coube foi o pior da noite. Daqueles mansos chatos, que não permitem luzimento por melhor que seja o ofício… O ginete foi esperá-lo à porta gaiola, levando-o a dobrar-se na brega. Depois da correcta ferragem comprida e de um bom primeiro curto ao piton contrário, o toiro deixou de ir ao engano e os seguintes não resultaram tão bem, com o toiro a meter-se pelo caminho. Mudou para a sorte de caras e terminou com dois violinos por dentro e bom efeito, numa lide por demais ingrata para o cavaleiro.
Marcos Tenório tem levado uma temporada com crivo de regularidade. A muita rodagem do cavaleiro permite-lhe apresentar-se com “a certeza” de que não defrauda… O primeiro toiro do seu lote cumpriu e serviu ao ginete, apesar de se vir sempre tapando nas sortes. Para contornar a dificuldade optou acertadamente pelas batidas ao piton contrário e a lide resultou muito bem. Gostámos de ver o ginete a “dizer sim” à competição e a ir buscar o último da noite à porta dos curros (repetindo o exemplo de Telles Jr.) – apesar de não ter tido o resultado esperado. De princípio o exemplar mostrou génio mas abriu para um estádio de fijeza, deixando-se quase por si em sorte nos tércios e indo também franco para as reuniões (apesar de sempre brusco no capote) – o ginete soube ver, entender e aproveitar-lhe o temperamento. Andou com temple e critério numa lide muito bem conseguida e comunicativa.
Começando pelo respeito da praça fazendo disparar de um para mil a beleza do capítulo, as pegas foram de facto os grandes momentos da noite, já que, além disso, os Cunhal Patrício sem estar grandes, tinham pata e empurravam com força.
Pelos Amadores de Santarém foi primeiro João Grave, que não obteve uma boa reunião ao primeiro intento. À segunda teve que entrar nos terrenos do toiro e vê-lo partir ensarilhado assim que avisado das tábuas. Esteve correcto a recuar mandando, reunir e fechar com decisão. João Vaz Freire consumou uma boa pega, vendo o toiro a investir franco mas intempestivo – ficou com eficácia na córnea e bem ajudado pelo grupo. Luís Sepúlveda consumou uma pega bonita e correcta a que o grupo correspondeu com muito eficaz prontidão.
Pelos Amadores de S. Manços Pedro Santos esteve muito bem com o toiro à primeira tentativa, na qual vinha até muito bem fechado, contudo, o manso enviesou viagem fugindo ao grupo e sacudiu o forcado para retirar a cara, sem hipótese para ajudas. Na segunda tentativa as bancadas levantaram-se em aplauso já que só com muita vontade ficou na córnea aguentando uma viagem sempre a fugir do grupo. João Fortunato juntou a técnica exemplar a cumprir os tempos com a investida vistosa do toiro a meter a cara por cima, consumando sem dificuldade e uma boa primeira ajuda. Pedro Fonseca pegou sem dificuldade um exemplar que foi sempre brusco no capote – entrou na jurisdição, mandou na investida, reuniu no momento certo e foi muito bem ajudado nas primeiras.
Sara Teles
