A quarta da feira da Moita, prolongamento da tarde do fogareiro, foi uma verdadeira desilusão. Primeiro foi a casa, composta entre todos os sectores mas que não chegou a metade do preenchimento; depois os toiros de Campos Peña…
Foi uma mansada maçadora; uma noite sem história a que o público reagiu raras vezes com entusiasmo e cujos aplausos desbotados soaram só para não deixar passar em claro o trabalho entusiástico dos cavaleiros. Podem arranjar-se outras descrições para estes toiros, reservados, parados, a cumprir pelos mínimos, etc. Mas a verdade é que não merecem desculpa: só houve toiros mansos e deram um trabalhão aos cavaleiros. Os toiros ridicularizaram o trabalho dos artistas, não emprestaram nada às lides e foram uma desilusão (com um ou outro ligeiramente melhorzito). Pouco depois do início, a única coisa já que se revestia de interesse além das pegas, era a abordagem que cada um poderia dar de diferente… Já nas pegas…. Houve duas de OLÉ! Nuno Santana de Alcochete e Frederico Caldeira de Montemor foram os triunfadores absolutos da noite.
Rui Salvador abriu com uma lide muito bem conseguida. Esteve solvente e correcto nos compridos e muito ortodoxo nos curtos. Sem possibilidade de triunfo, acabaria por ser uma das lides mais bonitas da noite. Com música ao segundo curto, seguiram-se ferros de caras com um marcado quarteio, bem cravados ao estribo mas que não chegaram para aquecer as bancadas já que as reuniões do hastado nada tiveram de interessante.
Por seu turno Gilberto Filipe entendeu também que a lide ao oponente não teria outro remédio que as sortes de frente acometendo, ganhando na ortodoxia dos ferros a única coisa digna de registo. Por tal ortodoxia viu o lenço branco ao segundo curto continuando com regularidade até ao quarto. Terminou com um palmo, com o toiro parado mas também não aqueceu a bancada e nada mais havia a fazer.
Filipe Gonçalves lidou o terceiro, que de diferente dos demais teve apenas a capa. O colorado ojo de perdiz, era distraído e tapava-se nas reuniões para se empregar para colher apenas na saída da montada. Nos compridos andou a resolver e nos primeiros dois curtos arriscou nos terrenos e deixou colher a garupa da montada. Com o Zidane e já com o toiro a fugir para tábuas cravou mais três curtos com um bonito cite e com o braço de alto abaixo mas não houve beleza nos ferros. Arriscou ainda um par a duas mãos que agradou ao público e que pelo breve entusiasmo não o deixou sair. Deixou mais um par que voltou a agradar ao conclave mas que resultou traseiro.
Manuel Telles Bastos teve por diante um exemplar que saiu dos curros para as tábuas, que percorreu interessadamente à procura de uma saída. Os três compridos foram de muito boa nota, à tira. Foi igualmente bom o primeiro curto aproveitando a investida intempestiva do exemplar e nos restantes andou com entrega a tentar colocar o toiro em sorte sem ajuda dos capotes e com ortodoxia nas sortes de caras acometendo.
Igualmente empenhado e aguerrido esteve Tiago Carreiras. Nos compridos deu primazia à investida e cravou com correcção. No primeiro curto carregou com a voz na reunião ao piton contrário para lograr algum efeito. Ao segundo,
acometendo, escutou música. Pisando-lhe muito os terrenos o toiro tinha ligeiramente mais graça no momento da reunião e ginete aproveitou-a, embora como o toiro esperasse muito tenha tido que sacrificar a ortodoxia das reuniões. Terminou com esforço a tentar dar algum brilho na brega cingida do Quirino e pudemos desfrutar da sua entrega como um dos momentos mais relevantes nas lides a cavalo – sem que como os demais tenha conseguido emocionar.
Tomás Pinto surpreendeu ao colocar-se à porta gaiola para esperar o último oponente. Por certo que não tinha qualquer esperança que o último oponente da noite fosse melhor que os outros mas nem por isso deixou de
arriscar. A lide com música ao segundo curto, foi bem conseguida impondo o quarteio das sortes de caras e teve leveza e claridade. Terminou com um palmo e, tal como os alternantes, agradou a um público altamente desagradado com o curro de Campos Peña.
A divisa de Campos Peña tinha, até este ano, tido fama de dar trabalho e impressionantes pegas. Nem para isso o curro serviu! Deram trabalho mas não foi um conjunto impressionante pegas, até porque boa escola dos dois grupos suplantou as dificuldades. Caracter interessante
foi a “rivalidade” entre os dois grupos, o que é muitíssimo interessante. Foi nas pegas que houve triunfos. Dois grandes, repartidos entre os dois grupos: dois pegões “de segunda volta para o forcado” que encheram a noite: olé!
Pelos Amadores de Montemor foi primeiro Francisco Borges. Ao primeiro e segundo intento o forcado tinha o toiro com ele mas viu a investida ensarilhar, faltando-lhe quiçá alegrar mais o toiro a recuar para evitar a reunião com o toiro a defender-se. À terceira corrigiu-se exemplarmente e consumou com boa técnica aguentando a entrada franca com mangada alta e boa ajuda do grupo. António Vacas de Carvalho citou o toiro de meia praça e viu-o arrancar pronto e com pata. Recebeu correctamente o toiro humilhado e o grupo fechou com rapidez aguentando todos os derrotes que o exemplar imprimiu já parado.
Frederico Caldeira foi autor do segundo pegão da noite (como que uma resposta aos Amadores de Alcochete que no quarto toiro tinham levantado as bancadas). Ao primeiro intento mandou no toiro, recebeu com garra e ficou na cara do toiro que entrou a desfazer o grupo (que se esgrimiu para fechar com prontidão) e aguentar a viagem dura com uma excelente segunda ajuda de Tiago Laranjinha. Olé!
Pelos Amadores de Alcochete consumou em técnica perfeita Fernando Quintela ao primeiro intento, recebendo o toiro com decisão aguentou um derrote alto com o grupo a fechar com eficácia. Nuno Santana citou com muita alma ao primeiro intento. Viu o toiro sair franco e com muita pata tirando-o da cara com um violento derrote para cima. De seguida consumou o primeiro pegão da noite! Esteve muito, mesmo muito bem a recuar com o toiro que se empregou a galope e acoplou-se na cara para não sair. O toiro empurrou e atravessou o grupo como um comboio e o da cara aguentou sozinho a longa viagem até o grupo fechar. Olé! Por fim, Pedro Belmonte viu o toiro entrar com a cara à meia altura nos dois primeiros intentos de que saiu desfeiteado. À terceira o toiro voltou a entrar com pata e o forcado fechou-se com decisão e uma excelente primeira ajuda de Fernando Correia (que, aliás, nas três pegas “deu as primeiras” com eficácia e determinantes).
Sara Teles
