Quando Pedrito iniciou a terceira faena com um passe cambiado pelas costas ao belíssimo jabonero a investir de largo a galope para o traje goyesco lilás, tinha a Moita rendida – em silêncio. Não houve mais na faena ao sexto toiro de Hermanos de Sampedro, que, aplaudido à saída dos curros, não acompanhou com afã nem classe na flanela do diestro «ad aeternum» moitense.
No primeiro e segundo toiros presenteou-nos com ramalhetes de verónicas rematados com belíssimas meias verónicas. Com muletazos de largo, longos, profundos e de um traço tão artístico quanto a sua figura ímpar: fez, das duas faenas, duas odes a um toureio utópico que raras vezes se vê por cá. Os dois primeiros Sampedros lidou-os com pulso e temple, levando-os submetidos, cara abaixo, num compromisso seríssimo de flanela e pitons. O primeiro tinha som e recorrido – nobilíssimo, permitiu admitir ao adorno das verónicas e chicuelinas, dois pares dos três pela mão de Pedro Gonçalves e Cláudio Miguel e uma ampla faena por ambos os pitons. No segundo, submeteu o exemplar baixando-lhe a mão, levando-o por derechazos e naturais ao seu compasso. Extraordinário. Pedrito esteve realmente extraordinário!
Por verónicas, cada uma mais bonita, abrindo “al compás” começou a faena de Enrique Ponce ao seu segundo Sampedro. Pena que entre estas e os molinetes encerrando a quinta e última série, o toiro não tenha servido e impedido o maestro de se luzir, tal como aconteceu no primeiro da tarde (uma faena breve marcada pelas pausas com que teve de levar o oponente, justo de forças). Foi no último – um nobre mas de investida curta, que não humilhava até ao fim mas que teve recorrido, que se viu compensar o contra gosto em que andou nos dois primeiros. Envolveu-o na flanela acercando-se e corrigindo-se muito pouco nos terrenos para o ligar em passes redondos que foram subindo de tom à medida que andou a faena, que estendeu ao limite fazendo o toiro passar na flanela por ambas as mãos. Não foi magistral porque assim não pôde ser, mas foi de maestro, a volta que deu a um toiro a que não se podia chegar mais e como chegou profundamente às bancadas na mais importante feira taurina portuguesa.
Dentro de toda a expectativa que se rodeava esta última corrida, a “goyesca“que fechou o maior certame taurino da nossa realidade foi mesmo a melhor corrida das seis, a que mais encantou, a que teve verdadeiro toureio, a que teve arte, a que surpreendeu e emocionou e a única que realmente, arrebatou o público. Fez-nos calar, arrepiar, levantar em aplauso e atravessar os “breves segundos” em que o espectáculo decorreu com uma vontade imensa de mais… Pedrito e Ponce, com suas maneiras distintas, com os toiros que lhes couberam e distintas plásticas, puderam ambos sair em ombros num desfecho triunfal da feira.
Sara Teles
