A tarde prometia emoção, um curro conceituado, um cartel jovem em ascensão, forcados de renome e o último passeo de um dos bandarilheiros mais acarinhados desta nobre arte que é, a Tauromaquia.
Ainda assim, talvez pelo arrefecer da temporada, talvez pelo arrefecer do clima, registou-se numa visão optimista ¼ de público em Praça.
O jogo de Pinto Barreiros primou pela apresentação, bem conformados de tamanho e peso os exemplares causaram impressão, muito embora na lide não manifestassem acentuada bravura e se caracterizassem genericamente pela investida suave.
Filipe Gonçalves, começa por tourear um preto corniabierto de 540Kg, que pouco se coadunaria com a sua irreverência toureira. Na presença de um toiro pastueño sem fijesa, o cavaleiro deixa dois compridos sem emoção.
Na passagem aos curtos, Filipe trás à arena “Zidane” um Lusitano com ferro Filipe Gonçalves que já deu provas de ser uma estrela, e abre a série com bonitos adornos que conduzem o toiro aos terrenos do meio, e permitem ao cavaleiro citar e cravar. O terceiro, merece destaque pela bonita sorte desenhada, pelas levantadas da montada cujas sedas soltas agraciam e pela cravagem em altura após boa reunião.
Com o toiro a dar sinais de desistir, o “furacão do Algarve”, ainda tenta com entusiasmo o par de bandarilhas, que lhe saiu pouco vistoso.
A segunda lide, abre com um Lusitano ruço para receber um toiro castanho olho negro de 470 Kg, com algum trapio mas pouca investida. Depois de ter estado, um tanto irregular nos compridos, Filipe premiou o público com dois ferros de bonita brega e cites de Praça a Praça, que culminou com boa nota e a rematar ladeando em tábuas oferecendo a garupa.
Manuel Telles Bastos, vem com a determinação subtil a que nos acostumou, para lidar um toiro preto, modelado, de cachaço pronunciado e com o peso de 525 Kg. Manuel andou com velocidade a mais nos compridos, cravando à tira sem quarteio uma série de três.
O primeiro dos curtos arranca aplausos mais exuberantes das bancadas já frias. O segundo e terceiro foram dignos de lágrima, a proporcionar ao verdadeiro aficionado um momento delicioso, em que a banda da terra toca o pasodoble “Forcados do sul”, de David Costa, enquanto no ruedo se trabalha em família; o primo António no domínio do toiro a sugestionar a melhor brega e o Manuel com a pura convicção de toureio a executar com beleza e verdade.
Para a segunda lide, tocou-lhe em sorte um castanho ojo de perdiz, com 485 Kg que o cavaleiro da Torrinha soube avaliar em condição e comportamento, cravando três compridos bem apontados no alto da cruz.
Com o toiro a mansear, mas ainda assim a não descair para tábuas, Manuel não teve dificuldade em fixar o oponente cravou o primeiro curto, bregado com um “picadinho” à entrada dos terrenos do inimigo. O terceiro ferro é de destacar pela harmonia do cite, e a correcta cravagem, já o quarto ferro se destaca pelo esmero no remate da sorte.
Ao mais jovem cavaleiro de alternativa desta tarde, Duarte Pinto, a quem tem sido reconhecido sobejamente o crescimento e o talento, tocou-lhe em sorte um toiro preto de 505 Kg, ligeiramente selado, desde logo apelidado de “pardal” por levantar demasiado alto as dianteiras no momento da investida.
Considerado por alguns a nova figura do toureiro, muito por mérito da prestação que teve no Campo Pequeno, com um toureio frontal sem recurso a manigâncias para iludir o público, Duarte teve duas lides muito homogéneas sem grande destaque para os compridos, mas melhor nos curtos que transmitiram a sua garra às bancadas.
Inicia a primeira lide com o “Barão” um cavalo de ferro Ortigão Costa, Lusitano preto, que troca para entrar nos curtos pelo “Baltazar” um Luso-hanoveriano com a mesma ferragem. Ao segundo curto, confirmam-se os rumores da baia, “temos pardal”, uma sorte bem executada com o toiro a levantar no momento da cravagem e a subir ao braço do cavaleiro. O terceiro e quarto, foram animados, com o toiro a deixar templar e a corresponder com investida.
A fechar Praça, e como não poderia deixar de ser o cavaleiro de Paço D’Arcos brinda a sua lide ao fiel bandarilheiro e amigo Manuel Filipe, que recebe do Director de Corrida uma mensagem de agradecimento e amizade em representação de toda a família taurina, aplaudida de pé, proporcionando assim o momento de maior emoção da tarde.
Manuel Filipe, integra a equipa de Duarte Pinto desde 2002, no entanto foi bandarilheiro de seu pai, Emídio Pinto, durante 30 anos. Foram-lhe atribuídas nos microfones da Praça algumas qualidades tocantes como “ inexcedível peão de brega”, “marca de uma geração de bandarilheiros”, “grande ser humano que sempre recusou protagonismos”, e Manuel Filipe emocionado limitou-se a vergar uma derradeira vez em seu braço um capote cheiro de histórias. Uma digníssima volta em ombros, já pensada pelos seus companheiros de profissão, deixou muitos olhos cheios de água por todo o taurodromo. “Manuel Filipe, pode abandonar a arena, mas não abandone a Festa.” – pediu a direcção da corrida.
Assim, partimos para a última lide de um toiro com 510 Kg talvez o mais equilibrado, em que Duarte esteve especialmente bem no terceiro e quarto curtos, a entrar nos terrenos do toiro para o conduzir aos médios, e a fazer juz à sua expressão de toureio, veio a citar de largo e paracravar numa reunião bem conseguida. O quinto e último ferro, teve bastante emoção após um cite exuberante e uma cravagem com valor.
Para pegar estes Pinto Barreiros, estiveram a duo os briosos rapazes da jaqueta, de Santarém e Coruche.
A abrir Praça pelos escalabitanos foi João Grave, que brindou aos céus, bem sabemos a quem. Muito bem a citar, mantendo o toiro ligado esteve correcto a recuar mandando, a reunir e fechar com decisão.
Para o terceiro estava reservada uma cernelha, bem conjugada no jogo de cabrestos conduzido no dedicado “fandango” dos campinos, e à segunda tentativa Lopo de Carvalho e Ricardo Tavares consumaram com firmeza.
Luís Sepúlveda foi à cara do quinto, impôs um cite silenciador e logo que avisado o toiro partiu para o forcado que o recebeu em desiquilíbrio, mas a aguentar-se dando a pega por consumada.
Pelos de Coruche, pegou o segundo da tarde Luís Gonçalves reunindo à córnea nos médios, e negando-se à desistência viajou direito ao grupo.
Ao quarto toiro foi para a cara Paulo Oliveira que protagonizou uma pega correcta, embora rápida com o touro a investir com suavidade.
A encerrar esta vespertina, este João Mesquita que concretizou ao segundo intento uma pega brindada a Manuel Filipe, com o toiro a arrancar com vontade, o forcado fechou-se à córnea aguentou alguns derrotes já sob a mão do primeiro ajuda, mas o Grupo reuniu com empenho, e cumpriu com valor.
Ana Paula Delgadinho
