Foi a primeira tarde de toiros da “minha” temporada. A primeira é sempre boa (!), porque o defeso parece sempre mais longo que os reais dois meses que passaram (que para mim, foram, pois, exactamente três – longos, meses). É por isso que, devo reduzir “a excelente” tarde que foi para mim (em abono da verdade que devo aos nossos caros leitores) para uma “tarde entretida” que manteve a meia casa da Monumental montijense metida no espectáculo.
Mercê do dia acinzentado e podia também desconfiar que os arrepios que me percorram o corpo e alma tinham mais a ver com o frio do que com a emoção – mas as exclamações vizinhas foram prova que de que esta vinha directamente da arena para tocar a pele.
Com um dia acinzentado, o festival a favor do antigo forcado dos Amadores de Alcochete e imenso aficionado Chalana Marques, foi percorrido de bonitos apontamentos e contas feitas sobraram os arrepios de emoção à contagem dos arrepios de frio entre os tempos mortos que também sobraram ao longo das três entretidas horas do espectáculo.
Entre as primeiras notas de destaque estiveram os novilhos. A boa apresentação foi mote comum das diferentes divisas da tarde. Quase todos cumpriram, embora nenhum tenha sido excepcionalmente bom nem outro excepcionalmente mau.
Nas lides cavalos, todas a duo, abriu João e Miguel Moura com uma das mais entretidas da tarde. O mais jovem andou solvente, elegante na brega e nas execuções. O maestro, esteve sábio nas abordagens a colocar o novilho de Inácio Ramos em sorte. Com o selo da casa na brega ao estribo e sortes cingidas pelo piton contrário, foi uma lide bem conseguida e de entendimento entre ambos, como em raros momentos voltou a acontecer depois.
António e Diego Ventura repetiram os arrepios emotivos. Diego andou encastado e o público reagiu e aqueceu imediatamente entre os cites exuberantes, a brega ao estribo e o fulgor das sortes a entrar de frente, carregando em curto os cites de largo. Ver António Ventura foi rara oportunidade que a meia casa que preencheu a casa montijense agradeceu. Arriscou e emocionou a cada abordagem ao cumpridor de Fermín Bohorquez.
Rui Fernandes e Jacobo Botero não tiveram sorte com o cabisbaixo de Passanha que lhes tocou. Solventes nos compridos tentaram compor a ode com vistosos cites do brilhante arranjo das montadas para sacar algo do exemplar que nada transmitiu. Passaram “mostrando trabalho do defeso” sem arrebatar a bancada.
Também Ana Batista e Sónia Matias foram pouco afortunadas com o Conde Cabral. Se o novilho saiu com pata e codícia às montadas, igualmente depressa manseou. Forçadas a uma passagem com apenas bons ferros desgarrados, foi uma lide de menos a mais que fechou com um bom curto de Ana Batista e um bonito violino de Sónia Matias.
Filipe Gonçalves e Francisco Palha lidaram um interessante exemplar (algo cabano) de Ascensão Vaz. O novilho ia cumprindo nos médios (embora pouco disponível para aceder ao piton contrario) mas por infortúnio o terceiro curto de Filipe Gonçalves prendeu-se à cara da rês e dali não só já nada brilhou como faltou a imediata intervenção do director de corrida para cessar de imediato a lide.
Terminaram João Ribeiro Telles Jr. e Manuel Moreno que tiveram por oponente um David Ribeiro Telles que cumpriu mas que lhes faltou sempre nas reuniões impedindo o brilho que ambos pareciam vir dispostos a dar. João Telles elegante e gracioso na brega e Moreno exuberante nos cites fecharam a tarde/ noite num bonito plano.
No capítulo das pegas – cargo exclusivamente dos Amadores de Alcochete – a tarde era de responsabilidade, precisamente pela homenagem a que o cartel se prestava a Francisco Marques “Chalana”, hoje devidamente fardado com as ramagens do seu antigo grupo.
Não foi, porém, uma boa tarde para os alcochetanos.
Rúben Duarte consumou ao segundo intento, depois de ter ficado inanimado na primeira tentativa em que saiu desfeiteado da córnea num derrote de cima abaixo. Repetiu à segunda em boa técnica bem ajudado nas primeiras, com novilho a empurrar até tábuas.
À terceira consumou Nuno Santana depois de duas tentativas desfeiteadas mercê da investida à meia altura do Bohórquez.
Pedro Viegas citou sem pressa, seguro na cara do oponente – fechou à barbela ao primeiro intento com o grupo a corresponder coeso na ajuda.
Joaquim Quintela encontrou dificuldades a sacar o Conde Cabral de tábuas onde se defendeu quebrado. Com efeito nada pôde o jovem forcado nas duas tentativas em que o toiro acometeu “a fazer mal”… Foi na volta que a dupla de cernelheiros consumou sem dificuldade e mérito.
Também de cernelha consumaram Fernando Quintela e Pedro Belmonte, desta feita, demorada e sem brilho.
Sara Teles
*Fotos gentilmente cedidas por Estevão Numes
