Entrevista: Filipe Gonçalves
12 Fevereiro 2013
Lavre – Pegões
Todos o conhecem como Algarvio, mas poucos saberão que se tornou no primeiro Cavaleiro Tauromáquico da região do Algarve e o 200º da história da Tauromaquia Portuguesa.
Filipe Gonçalves, é a representação da força, de quem quer estar entre os primeiros. Dono de uma reconhecida dedicação e entrega, a quem a carreira tem agraciado com lugares de destaque nos melhores cartéis das Praças mais afamadas do país.
Foi isto, e ainda mais que pudemos constatar quando num final de tarde estivemos à conversa com o Cavaleiro Tauromáquico Filipe Gonçalves.
Não estando a Tauromaquia enraizada na sua tradição famíliar, como iniciou o seu gosto pela arte?
É uma história de afición que surgiu na Praça de Toiros de Albufeira, quando me encontrava a assistir a um espectáculo. Não houve influência de ninguém, foi ali que tudo nasceu, fui assistir gostei muito e desde logo começou a despertar em mim o sentido de Tauromaquia.
Cavalos sempre tive, desde o tempo do meu trisavô que sempre tivemos cavalos em casa.
Para mim era uma vantagem, pois quando chegava a casa imitava o que via fazer em Praça e daí começou pouco a pouco a crescer a vontade, dava por mim a praticar, praticar, praticar.
Foi então que um dia o meu pai, me colocou junto de um Cavaleiro, que já não está entre nós, o Jorge de Ourique, com quem comecei a aprender aos fins-de-semana de forma gradual.
Quando concluí o ensino secundário, foi uma “guerra” lá em casa porque todos queriam que seguisse os estudos universitários e eu só queria aprender a ser Toureiro.
Cavaleiro profissional desde 2005, tem tido uma carreira em ascensão. Sente que tem vindo a crescer?
Sim, bastante. Estou muito feliz com a minha carreira, porque tem sido sempre em crescendo.
Já apareço mais, sou mais reconhecido.
No inicio, e como acontece sempre quando aparece alguém de novo ou alguma situação nova, senti uma certa estranheza, mas quando depois nos damos a conhecer as pessoas já começam a procurar saber quem somos.
Durante o defeso, gostaria de investir mais numa carreira internacional ou prefere ficar em Portugal e consolidar os bastidores para uma nova temporada?
Tenho uma carreira que me levou a vários países, já corri Espanha (embora não as Praças mais importantes como gostaria), os Estados Unidos, mas considero que o que está neste momento em primeiro lugar é consolidar a minha carreira em Portugal e torná-la mais firme para mim e para os aficionados, e depois quem sabe no futuro apostar mais no estrangeiro. Porque ir para fora durante o defeso seria ir para as Américas e eu acho que não é a altura certa.
O meu projecto actualmente, a minha preocupação é consolidar a quadra e incluir novos valores na quadra, novos cavalos, para que assim que a temporada comece eu esteja preparado, para as coisas me correrem bem e continuar a crescer.
Trabalha com afinco como Cavaleiro Tauromáquico, sem nunca esquecer a família. Como divide o seu tempo entre estes dois amores?
Esquecer nunca me esqueço. Há um afastamento, porque a família está no Algarve e eu estou aqui. Já vivi cá sete anos quando estive a aprender junto do Manuel Jorge de Oliveira, como era mais jovem acostumei-me com alguma facilidade mas custa sempre muito estarmos longe da família e das pessoas que nos são queridas.
Se fosse um cenário de guerra, a razão seria bem pior, assim é por um motivo bem mais positivo.
Descreva-nos a quadra que tem preparada para a próxima temporada?
A quadra este ano está mais consolidada, tenho os cavalos da temporada passada e entre eles estão mais quatro cavalos novos.
Está o Alfoz que é um cavalo novo, com que ando a bandarilhar a duas mãos já cá em casa, e que tem dado provas de que vai ser um bom cavalo. Acredito muito nele.
Tenho o Dali, que é um cavalo com o ferro do João Batista, o pai da Ana Batista, será um cavalo que também vai surgir este ano.
Tenho a Triana uma égua que pertenceu ao Diego Ventura, já toureada que também será nova na minha quadra.
Por último tenho o Da Vinci que é um cavalo com o ferro de José João Dinis, no qual acredito muito também.
Estes são os novos valores para este ano, e que vêm reforçar a quadra de maneira a conseguir tourear para além das trinta corridas, que toureei o ano passado.
Sempre com o objectivo de agradar ao grande público.
Quais são as estrelas da quadra? Que cuidados especiais tem com os seus cavalos?
Para mim só o facto de estarem na minha quadra já têm que ser estrelas.
Cada um na sua posição, tal qual os jogadores de futebol. Depois há também aqueles pelos quais o público tem um certo carinho, os que melhor conhece e dos quais gostam mais.
Tenho o Xique que é o cavalo das palmas, muito conhecido, para mim um cavalo único.
Tenho o Universo que é um cavalo que aguenta bem todos os Toiros, é um cavalo baio do meu ferro, que anda de lado como nenhum e tem um “momento do ferro” extraordinário.
Tenho também o filho do Universo, o Zidane que também já bandarilha a duas mãos e já adquiriu a sua posição de destaque.
Estes três cavalos são aqueles com os quais mais me identifico, cada um na sua posição e com o seu desempenho.
Gostava também de referir o Chanel, como excelente cavalo de saída.
Das inúmeras Praças em que actuou, guarda uma recordação especial de alguma delas?
Todas elas me deixaram alguma recordação, sempre.
Naturalmente umas mais marcantes que outras, mas aquelas que mais vincularam, talvez pelos êxitos obtidos e pelo carinho demonstrado pelo público, foram a Praça da Póvoa do Varzim, Nazaré, Moita e Setúbal.
Pode revelar-nos as principais Praças onde pensa tourear em 2013?
Em 2013 penso tourear em todas as Praças de maior destaque, refiro-me às Praças de primeira.
Numa fase em que muito se fala em dificuldades sócio-económicas, teme pelo futuro da Festa em Portugal?
Não, não temo. Aquilo que se ouve falar relativamente à crise, é um pouco subjectivo. Eu não temo a crise, vejo as coisas de outra forma.
Na minha opinião a crise vem para refinar, fazer uma selecção em todas as áreas e no Toureio vai-se reflectir igualmente. Poderá ter uma vertente negativa, com a saída ou o desaparecimento de alguns valores, mas julgo que será uma fase de transição para uma nova época, uma nova etapa.
Sob o meu ponto de vista, julgo que não serei atingido pela crise, acredito que a minha carreira está em ascensão e conto ser requisitado.
Julgo que deixarão de existir corridas que não fazem sentido acontecer e irão consolidar-se mais os eventos de maior relevância como as grandes feiras, as grandes festas, as principais corridas em Praças de 1ª e outras.
Uma vez reduzido o número de espectáculos o publico certamente irá aderir em maior quantidade.
Prevê fazer alterações na equipa que o acompanha? Quem são os elementos?
Quem me acompanha como apoderado, é o Sr. Pedro Penedo desde o ano passado.
Como bandarilheiros estão comigo o Cláudio Miguel e o Duarte Alegrete, e depois a restante equipa que é um grupo de amigos, eles fazem parte da família e sem eles seria impossível conseguir ter a carreira que tenho. Desde o João Pedro Bolota, o Chalana, o Fernando Pessoa todos eles me apoiam e me dão força quando as coisas correm menos bem.
É muito importante saber que existem pessoas que nos querem bem, sobretudo naquelas fases em que temos de trabalhar tanto que parece que nem conseguimos pensar.
Estas são as pessoas com maior destaque em termos de imagem junto do publico, porque por detrás há muito mais gente.
O Filipe Gonçalves não é só o Filipe Gonçalves, sem a equipa que tenho era impossível conseguir tourear e levar a minha carreira em frente.
Como qualifica as Ganadarias portuguesas em geral? Vinculadas a um método reprodutivo tradicional, ou dinamizadas pela evolução da genética?
Julgo que as ganadarias portuguesas, muitas delas já estão a atingir uma qualidade superior.
Em Portugal o número de ganadarias, por razões óbvias é inferior ao número de ganadarias espanholas (onde quase todas têm Touros muito bons), mas já existem entre nós ganadarias com muita qualidade em que os ganaderos fazem questão de seleccionar de diferente forma.
Existem ganadarias, como em tudo, em que os ganaderos não seleccionam da melhor maneira, o que depois se reflecte em Praça e cria problemas aos Toureiros.
Dado que o Toureio a pé em Portugal está um pouco apagado, talvez por não se apostar nesta modalidade e talvez porque o grande publico não adere tanto (tenho pena, porque gosto muito do Toureio a pé!), não se entende porque é que os ganaderos nas tentas seleccionam para o Toureio a pé. Não defendo que eliminem esta possibilidade, julgo que devem continuar a tentar para o Toureio a pé, devemos perceber como é que as vacas vão às muletas e como é que investem se vão de largo para o cavalo, tudo isso…..mas deviam de complementar com o Toureio a cavalo. Esta selecção está muito focalizada para uma coisa que na prática não vai existir.
Porque um ganadero que tenha na camada 6 corridas de Toiros para tourear a cavalo, e pode acontecer 3 Toiros da mesma camada serem toureados a pé, não se justifica o método da tenta. Ainda assim, isto quase não existe, há ganadarias que há anos não são toureadas a pé, pelo que, deviam ser vistas a cavalo também…não só a cavalo, reforço que deveria ser complementada a tenta a pé com o cavalo. Era muito importante!
Existe alguma Ganadaria que lhe mereça maior destaque, à qual daria uma nota especial?
Relativamente às que toureio… Charrua, Conde Cabral, Pinto Barreiros, Ascenção Vaz e Falé Filipe.
São Toiros com muito som, que gosto de os tourear. É muito importante o Toiro transmitir emoção e perigo, mas também é muito importante que um Toiro tenha som.
Se ouvirmos uma música avançando rapidamente, nunca vamos perceber o som e a presença dos instrumentos, o mesmo se passa no Toureio (a pé e cavalo) se o Toiro for muito violento nunca se consegue saborear o trabalho do Toureiro, enquanto os Toiros que referi considero que têm som porque transmitem, têm raça e levam emoção às bancadas o que é igualmente importante.
Se todos os ganaderos seguissem estas linhas, seriam certamente bem sucedidos.
Consegue dizer-nos qual foi a lide que mais lhe encheu o peito?
Se lhe falasse em apenas uma, seria pobre.
Tenho gravadas várias lides na minha memória, todas diferentes. Lembro-me por exemplo de uma lide em Alter com Toiros Charrua, que por acaso até saíram fora da linha habitual da ganadaria, a transmitir muito perigo tive duas grandes lides com os Toiros a assustar as bancadas e a fazer sofrer. Nesse dia, lembro-me que desfrutei bastante com esses dois Toiros perigosos.
Tenho também uma lide na Nazaré, transmitida em directo para a RTP, que também correu muito bem. Duas semanas antes também na Nazaré, outra na Póvoa do Varzim que também correram muito bem.
Foram lides que me trouxeram muita emoção, em que me senti Toureiro e senti muita satisfação e realização pessoal.
Partilhe connosco algumas datas inesquecíveis da sua carreira?
As datas de referência serão sempre a da prova de praticante e a da alternativa.
Embora tenha muitas datas importantes na carreira as de maior relevância serão essas.
“A actuação dos Forcados, é um elemento essencial na Corrida à Portuguesa.” Concorda?
Sim, claro.
São um elemento essencial mas não o principal, complementam o espectáculo à portuguesa.
Nós somos únicos no mundo, embora esta modalidade já exista no México, nos Estados Unidos e outros países, a originalidade ninguém nos tira.
No meu entender o Forcado está lado a lado com o Cavaleiro porque se complementam.
É muito importante a figura do Forcado, além de ser amigo deles e de ter uma grande estima por alguns grupos acho que o Forcado é a “cereja no topo do bolo”, numa corrida de Toiros em que as pessoas assistem à actuação do Cavaleiro e terminam vendo espectáculo com o Forcado.
A Festa não seria mesma coisa sem eles!
Temos vindo a assistir, a uma introdução ligeira de Toureio apeado nos nossos cartéis. Considera que esta medida pode condicionar a actuação dos Cavaleiros Tauromáquicos à Portuguesa?
Os Cavaleiros Tauromáquicos não temem por isso. Infelizmente o Toureio apeado em Portugal é um produto sem saída. O público não adere, em consequência os empresários desistem de apostar porque se for uma corrida mista ainda se vê algum publico, mas se for uma corrida só a pé falta muita gente à Praça. Embora não seja a pessoa indicada para justificar esta situação, vejo que o resultado é esse.
Em termos de rivalidade não vejo que o Toureio a Cavalo e o Toureio a pé se toquem, e desde logo não considero que haja rivalidade.
Do seu ponto de vista a Equitação Taurina e o ensinamento dos cavalos para o Toureio, ainda tem margem de evolução?
Seria ignorância da minha parte dizer que já está tudo inventado.
Senão vejamos, eu agora inventei um trabalho que foi por um cavalo a bater palmas, isto é um adorno que não existe em livro nenhum, não está escrito.
Não podemos aceitar que esteja tudo inventado, devemos dar abertura a que surjam novas coisas, porque era impensável há uns anos chegar juntos dos antigos mestres de equitação e pedir que ensinassem um cavalo a bater palmas…certamente riam e consideravam um absurdo, no entanto eu consegui concretiza-lo.
Julgo que nunca devemos considerar que já foi tudo descoberto, se eu descobri uma habilidade que nunca tinha sido inventada, penso que chegará alguém depois de mim e trará outra novidade qualquer.
A descoberta é um actividade que está sempre em aberto.
Em termos de Toureio propriamente dito, acho que o cavalo evolui de tal forma que o Toureio de há 30 anos em nada se relaciona com o Toureio de hoje. Na lide com o Toiro acho que nada mais haverá a fazer do que hoje se faz, desde os nossos primeiros Cavaleiros o João Núncio, o Batista, até ao dia de hoje tem sido uma evolução abismal, muito completa. A equitação evoluiu bastante, atingimos um nível superior, directamente relacionado com a lide do Toiro, não há mais nada para fazer.
Em termos de adornos, como disse inicialmente a margem é outra…talvez falte saltar por cima do Toiro a cavalo à maneira dos recortadores.
O público espanhol é conhecido pelo seu carisma e personalidade exigente. Avaliam a prestação do Toureiro e só a posteriori o classificam. Em Portugal, o publico é mais sensível à pessoa do que ao profissional. Qual é a sua opinião sobre o nosso publico.
Na minha opinião, tudo uma questão de educação. Em Portugal as pessoas estão educadas de uma forma, em Espanha de outra.
Em Espanha aconteceu-me ir a caminho da Praça, num sitio onde nunca tinha estado, e as pessoas que estavam nas esplanadas ao verem os reflexos brilhantes dos fatos atingidos pelo sol à passagem do carro, foram-se levantando pela avenida fora, a bater palmas e a gritar “torero, torero”. Achei muito agradável, uma bonita forma de mostrar respeito e de louvar os artistas, que aqui em Portugal não acontece. Ali sentimos que o respeito pela figura, pelo profissional começa fora da Praça antes da corrida.
Aqui em Portugal, já tive situações em que estou a sair da Praça, e as pessoas que estão a descer do sector passam por mim e voltam-me a cara. Em Espanha isto é impensável, já tive vários êxitos cortei rabos e orelhas e as pessoas levavam-me em ombros e todos me queria agarrar e tocar, ou apenas um autografo….somos um Deus para eles.
Não é por uma questão de vaidade como muitas vezes se pensa, mas em Portugal tenho muita pena que não seja assim, para mim é uma demonstração de reconhecimento pelo resultado do nosso esforço. Porque ser Toureiro é uma coisa difícil.
Aqui em Portugal os aficionados talvez considerem que ser Cavaleiro é uma coisa banal, no entanto é perigoso. O Toureiro sofre tanto para conseguir fazer aquilo que é Tourear, até entrar dentro da Praça já passou tanto para conseguir levar uma carreira em frente que só isso merece respeito, e este respeito muitas vezes não nos é atribuído.
Gostava muito que o publico português tivesse uma postura idêntica ao do espanhol, por ser mais carinhoso, mais quente.
Tenho inclusive partilhado algumas opiniões com Toureiros espanhóis, que me dizem não entender quando algo corre menos bem, o porquê dos assobios da afición portuguesa, enquanto em Espanha optam pelo silêncio de maneira a dar oportunidade de recompor as coisas. Estes profissionais não se sentem acarinhados em Portugal, e não entendem porque é que o publico não tenta estimular e motivar ao invés de vaiar.
Percebo que este é o carisma do nosso povo, tudo passa pela nossa educação e não é restrito aos aficionados mas sim ao povo português. Devíamos ser mais positivos, ser positivo faz-nos crescer e ajuda-nos a atingir o nosso objectivo.
Se tivesse oportunidade de falar à afición, o que diria?
Diria que não tenho segredos nem magias, julgo que as pessoas gostam de mim pela minha simplicidade. Eu acredito que quando acrescentamos muito àquilo que somos, complicamos tudo na vida.
Temos que ser o que somos e não criar uma personagem. Mostro sem mascaras o que sou, e gosto de mostrar ao grande publico o Toureio que tenho e que reflecte a minha pessoa.
Sinto que sou acarinhado, mas um dia gostava de estar a actuar em Praça e ao mesmo tempo conseguir ouvir o que se diz nas bancadas a meu respeito.
Gostava de transmitir a toda a afición, ao grande publico que me acarinha e me recebe com louvor, e a todos os que me rodeiam, que podem estar confiantes porque continuarei a trabalhar para todos eles e para os agradar.
Quem é Filipe Guerreiro Gonçalves?
Sou o que vêm em Praça.
Sou uma pessoa bem disposta, gosto muito de rir, gosto de interagir com as pessoas, gosto de ter amigos, gosto que me tratem bem, gosto que me respeitem até porque também o faço.
Ana Paula Delgadinho
