Não é a falta de uma praça de Touros que impede a realização de um espectáculo taurino, quando a vontade existe! A Associação Tauromáquica Alcaçovense deu mostras disso mesmo, promovendo um festival taurino numa desmontável e fomentando a beneficência em prol da Associação Terra Mãe, cujo âmbito passa entre outras metas pelo acolhimento de crianças e jovens.
Numa tarde soalheira de Abril assistimos a um espectáculo morno, para o qual muitos contribuíram voluntariosos.
Tomou a primazia Rui Salvador, o Cavaleiro natural de Lisboa rendido aos encantos de Tomar. Empenhado como o conhecemos, empregou toda a maestria numa lide em que recebeu um toiro mulato, bem hasteado mas a cair (o que de resto, foi transversal a praticamente todo o curro destinado a este festival!). Este exemplar da ganadaria Santiago, esteve inicialmente distraído e desde logo pouco interessado na montada, o que sujeitou o Cavaleiro a dedicados momentos de brega. Nos compridos, esteve bem a instigar à investida e a concretizar com o novilho a responder. Na série de curtos, o Cavaleiro da Quinta do Falcão mostrou que a sua natureza é tourear de frente e a pisar os terrenos deste novilho listão, cravou ferros dignos e de seriedade com especial destaque para o terceiro em que o cavalo entra num bonito quarteio, bem desenhado ao ritmo de quem dança, mesmo após ter sofrido um pequeno desiquilíbrio.
Seguiu-se Tito Semedo, um Cavaleiro pouco presente nas nossas praças, mas prestes a alcançar os 20 anos de alternativa, que deverá comemorar em Agosto do corrente. Saiu-lhe em sorte um novilho de Jorge Mendes que haveria de ser recolhido. Acabaria por lidar em quinto lugar um exemplar ensabanado com mobilidade e com sentido, que começou por investir em tábuas, causando alguns arrepios. O Cavaleiro conimbricense, iniciou bem nos ferros compridos embora a cravar de largo, sem quarteios pronunciados. Na ferragem curta esteve mais arrojado, com sortes de aguentar e a cravar de alto a baixo. O novilho reservou-se, e ainda assim Tito viria a completar a sua lide cravando seis ferros curtos; dois sem brilho, um cravado por dentro e um último ao estribo com o novilho trazido a muito custo.
Francisco Núncio, o neto do Mestre João Branco Núncio e fiel continuador de uma dinastia, estava em casa. Com o estilo e a postura que o caracterizam lidou o segundo novilho da tarde, um novilho que primou pela pelagem lustrosa apenas, fraco de apresentação e bisco, este Passanha não correspondeu. Francisco entrou com raça e tentou agarrar o público. Dos três compridos, salienta-se o terceiro, em que equilibrou todos os momentos da sorte e cedendo a vantagem da investida cravou com acerto. Recebe música ao segundo curto, e traz finalmente alguma alegria a esta tarde de toiros pouco exuberante. Numa briga constante para sacar um novilho a descair para tábuas, o Cavaleiro cravou ferros de boa nota rematados com entusiasmo.
Às portas de celebrar 25 anos de toureio e tendo atingido a bitola do 1000º Toiro lidado, a única Cavaleira desta vespertina Ana Batista, esteve confiante e a lide resultou positiva. Teve por diante um novilho da ganadaria do Engº Jorge Carvalho, um negro mulato, corniabierto. A Cavaleira de Salvaterra pautou pela ponderação com que construiu as sortes, baseando a ferragem comprida na cravagem com decisão. Sem trocar de montada, Ana seguiu para os curtos em que bregou com dificuldade para fixar um novilho andarilho, citou de largo e em quarteios bem definidos cravou com boa nota, nomeadamente o segundo ferro. Curiosamente, recebe música ao terceiro ferro que terá sido o menos bem conseguido desta lide.
Esta tarde de toiros não haveria de se realizar sem um cheirinho de toureio apeado. Mário Alcalde o jovem madrileno de 20 anos, veio até à carismática vila das Alcáçovas para mostrar o que aprendera na Escuela de Tauromaquia de Madrid e que tem vindo a pôr em prática desde 2006, ano em que iniciou as suas actuações em público. O jovem novilheiro teve por diante um novilho de Falé Filipe, um carbonero bem apresentado e a dar prenuncios de boa lide. Deu inicio à lide por curtos lances de capote; inicialmente à Verónica e depois meia Verónica.
O tércio de bandarilhas, foi executado pelo Cláudio Miguel a dois turnos e pelo Juca, embora a não surtir o efeito desejado com o toiro a esperar demasiado.
Chegada a hora da faena de muleta, Alcalde não desiludiu. Com o novilho a entrar bem na muleta e a humilhar a gosto, assistiu-se a bonitas séries iniciadas com derechazos, que foram naturalmente intervalados com bonitos naturales rematados com pases de petcho. O público reconheceu, a música suou, e Alcalde conseguiu desfrutar das boas condições de lide deste novilho, que lhe permitiu ainda terminar a faena com circulares e a ilusão da sorte de matar com a mão.
O pior da tarde estava destinado a Brito Paes. O Cavaleiro de bem montar, de subtileza e de compromisso a que nos vimos habituando, teve uma lide penosa perante um novilho mulato, fraco de trapio, manso e que pouco se empregou. Determinado, toureou cravando os compridos sem reprimendas. Sensível a todos os elementos da Festa, o Cavaleiro inicia a sequência de curtos brindando à banda. A brega exigente, e o cite fatigante permitiram a muito custo cravar com regularidade. Com o novilho a abandonar a luta, o Cavaleiro executa ainda uma sorte de violino, em terrenos do oponente e termina com um ferro de palmo para ânimo do publico.
A fechar as sortes a cavalo e o espectáculo, esteve o Cavaleiro praticante Manuel Vacas de Carvalho, com entrega e vontade de bem fazer. Sob o preceito do Mestre Luís Miguel da Veiga, o promissor Cavaleiro esteve ante um novilho Pégoras, mais um mulato e mais um a cair. Manuel esteve precipitado na ferragem comprida, a deixar ficar sem fixar a montada para iniciar as sortes. Mais ponderado, troca de montada e entra nos curtos mais assertivo para cravar seis ferros dos quais se destacam o terceiro e quarto, que terão merecido a música que deu brilho a esta lide sem grande emoção.
No que toca aos moços de Forcado, tiveram uma tarde branda.
Os de Lisboa abriram praça, e Manuel Guerreiro não poupou forças. Alegrando no momento que antecede a reunião, recebeu fechando-se à barbela, e à primeira tentativa executou com o grupo a concluir.
Também Eurico, citou e trazendo o novilho à voz concretizou sem dificuldade uma pega à barbela, com o grupo a fechar-se bem.
À cara do novilho Prudêncio foi João Mendes Pereira. O Forcado convencido a ficar citou, templou, carregou e aguentou viajando sozinho até que os sete companheiros voltassem à formação para concluir.
No que respeita aos de Évora, João Direitinho pegou primeiro um novilho que quase não lhe deu tempo de citar, arrancou-se e procurou a investida com o Forcado a fechar-se bem de pernas e braços e a pará-lo à primeira.
Francisco Oliveira, cita na ginga de cintura mantendo o novilho ligado e avisa, com resposta para reunir, pega à córnea protagonizando à segunda tentativa um dos momentos mais quente da tarde.
A fechar praça esteve Afonso Mata, citou bem e mandou vir, o novilho raspou mas cedeu perante um Forcado que soube ler a investida e recebeu numa reunião à barbela.
Ana Paula Delgadinho
