No toureio a cavalo tem faltado uma nova emoção que dê volta à estagnação de valores. Por isso na nossa tauromaquia mandam hoje, mais do que nunca, o toiro e o forcado. Esta tarde foi um notável exemplo desta realidade, numa corrida com emoção a sobrar – mesmo para o exigente ambiente de Vila Franca de Xira.
Três dos cinco toiros a concurso foram aplaudidos à saída dos curros, o que revela que no campo da “apresentação” a fasquia esteve elevada. No entanto ninguém pareceu discordar da atribuição do prémio à ganadaria Palha, pelo primeiro toiro a sair dos curros e a encher a arena de imponência, rematado e bem-posto de cara.
Já no que à “bravura” diz respeito, não se pôde dizer o mesmo.
Não é muito razoável pôr em causa o acerto da inquestionável afición do público vila-franquense. E a verdade é que o público que preencheu cerca de meia casa, vaiou a atribuição do prémio bravura ao toiro de Canas Vigouroux. O toiro de Canas era bravo mas a lide que teve tapou-lhe por completo as virtudes. Duarte Pinto, na sua admirável humildade assim o reconheceu, pedindo desculpa ao público, afirmou sem preconceitos que fora “culpa sua”! Por outro lado, a bravura do Vale Sorraia saiu valorizada com a bem conseguida lide Manuel Telles Bastos.
Era difícil atribuir o prémio sem ferir a justiça. Se não tivesse ganho o Canas, era injusto que o azar do cavaleiro lhe negasse o prémio mas também não foi justo negá-lo ao Vale Sorraia, que proporcionou os melhores momentos da corrida. Justificava-se aqui, pelo menos, uma atribuição do prémio em ex aequo às duas ganadarias.
Entre os cavaleiros a tarde foi de Manuel Telles Bastos. Recebeu o Prudêncio à porta gaiola mas este logo mostrou mais interesse nas tábuas que na montada. Manso, o exemplar enquerençou na porta dos curros para onde fugia a cada oportunidade. Não era fácil tirar o toiro da querença e coloca-lo em sorte, mas quando isso aconteceu viram-se bons ferros e até bons modos e nobreza do exemplar. Na segunda parte Telles Bastos esteve francamente bem frente ao Vale Sorraia. A bravura e o toureio clássico são aliados e foram sonantes os ferros de frente e ao estribo de toda a praça. O ginete da Torrinha entendeu perfeitamente a essência do toiro e não podia ter aproveitado melhor. Deu primazia à investida, recebeu o toiro debaixo do braço, levou a rematar os ferros com alegria. Muito bem!
Luís Rouxinol abriu a corrida com a estampa de Palha. Mas o toiro teve tanto de belo como de maldoso. Media os terrenos para colher, atravessava-se e adiantava-se, com um génio difícil – teve uma lide abreviada porque várias vezes comprometeu o cavaleiro. Rouxinol também não se entendeu com o Oliveira Irmãos que acudia aos cites e facilitava a reunião mas desistia da montada assim que recebia o ferro. Acusando um cansaço prematuro, o toiro reagiu aos últimos ferros a doer-se. No entanto, enquanto se manteve indiferente ao cavalo, nos capotes dos subalternos o exemplar mostrou casta e recorrido, nobreza e aliciantes notas de génio que teriam dado uma boa faena apeada.
Duarte Pinto devia ter lidado primeiro um David Ribeiro Telles que entrou no concurso em substituição do Vaz Monteiro. Diminuído dos quartos traseiros, o toiro, de bonito tipo, recolheu aos curros e trocou a ordem de lide com o que havia de sair em sexto. Mas o ginete começou mal frente ao bravo de Canas Vigouroux. O toiro tinha de facto, muita qualidade e se o cavaleiro o tivesse entendido teria sido a matéria-prima ideal ao seu toureio clássico irreverente. O jabonero, recebido na arena com aplauso (embora bisco), partia franco de todos os terrenos e transmitia nas reuniões mas o ginete não estava com mão certeira e talvez por falhar alguns ferros, não conseguiu retomar a calma que se exigia e dar espaço ao toiro ao invés de o afogar. Recomposto, o cavaleiro deu tudo frente ao sobrero da ganadaria Palha que não entrou em concurso. Ferros de praça a praça, a dois tempos com reunião ao estribo perfilaram a essência de um toureio virtuoso com muito para ver.
As pegas foram, a par dos interessantes caracteres dos toiros, os momentos mais altos da tarde.
Pelos Amadores de Vila Franca, Ricardo Castelo abriu praça com um “pegão” de primeira ao maldoso Palha. Depois de um cite de sepulcral silêncio na praça alegrou o toiro quando o viu arrancar brusco e a entrar com tudo. Valeu-lhe uma preciosa segunda ajuda de André Matos que se fechou com o da cara para embater nas tábuas quando o toiro se desviou do grupo. Ricardo Patusco foi despejado da cara com um derrote para baixo que lhe imprimiu o Canas. À segunda tentativa o toiro não humilhou e entrou duro mas o da cara reuniu com decisão à córnea. Por fim pegou Pedro Castelo à córnea. Sem ajuda, aguentou a viagem branda que a córnea veleta do exemplar permitiram, consumando à primeira.
Dos Amadores de Alcochete, João Gonçalves ficou determinado na córnea do Prudêncio, que instintivamente cortou caminho ao grupo a favor da querença, consumando uma grande pega! Tomás Vale viu o toiro de Oliveira Irmãos investir para si com a mesma vontade com que tinha estado no capote. Sem culpa, o forcado recebeu o toiro no peito com violência e foi dobrado por Fernando Quintela que há-de estar a situar-se entre os melhores caras da actualidade. A maneira de recuar na cara dos toiros, faz com que as pegas pareçam de uma suavidade impressionante! Fechou-se à córnea e aguentou os derrotes até tábuas, com uma excelente primeira e eficácia do grupo. Mas a pega da tarde foi protagonizada por Pedro Viegas. O Palha arrancou com pata empregando-se nos rins, entrando grupo adentro e desfeiteou a primeira tentativa. À segunda foi uma pega extraordinária que está já inscrita para as melhores da temporada. O toiro atravessou o grupo, bateu com violência e o forcado aguentou tudo fechado à córnea numa viagem que pareceu interminável. Olé!
