O carisma é como o jazz, fácil de identificar mas muito difícil de descrever. Pode desenvolver-se e trabalhar-se mas é qualquer coisa que “é ou não é” e que não se fabrica – antes nasce por acaso, de um conjunto de circunstâncias e que se vai estendendo, palavra a palavra, suscitando curiosidade e criando expectativa. Canas Vigouroux… que leva sempre pelo menos um jabonero nas corridas da sua divisa. Finos de hechuras, músculos compactos e salientes, de morrilho farto, trapio impressionante, toiros que transmitem e que são promessa de pegas rijas!
Havia expectativa para a corrida de Samora Correia e não há dúvida que aquela mística para isso contribuiu. Com cerca de ¾ de casa preenchidos, salpicada de encarnado aqui e ali dos trajes a rigor dos campinos, foi uma corrida com ambiente e salero.
António Telles abriu a noite frente a um dos melhores toiros da corrida, que saiu com muito som e a causar impressão pelo bonito tipo. O cavaleiro esteve à altura do compromisso, andou compenetrado nos primeiros ferros, partindo a acometer nas sortes e aproveitando a transmissão do toiro que crescia na brega empregando-se. Na segunda metade, o ginete da Torrinha encontrou um oponente que se empregava com prontidão e arrancava voluntarioso, cortando ligeiramente o caminho. Telles andou de frente como é seu apanágio mas faltou harmonia. Terminou com um terceiro fabuloso ao estribo e um quarto menor, com o peão de brega ao lado a avisar o toiro.
Duarte Pinto andou regular da ferragem comprida, cravou os curtos quase todos à tira, ficando ligeiramente espalhados. Teve no terceiro curto um bom ferro, com reunião cingida e ao estribo e no quarto, um ferro correcto de frente. O cavaleiro demorou um pouco a confiar-se frente a um exemplar que tinha nobreza e que obedecia sem apertar em demasia. O seu segundo oponente foi o pior toiro do lote. Saindo logo reservado, reagiu com pata aos primeiros castigos e cedo manseou para tábuas. Duarte Pinto levou uma actuação bem conseguida mas sem romper, embora a vontade de colher do oponente nos arreões e a garra do cavaleiro tenham transmitido à bancada.
Marcelo Mendes não escutou música na primeira actuação e muito condignamente não deu a equivalente volta. O toiro saiu com tanta chispa que a bancada estremeceu com a primeira cornada no burladero. O jovem ginete não se entendeu depois com tanta voluntariedade; ao segundo curto soou o primeiro aviso e nos três minutos seguintes teve que se aplicar para sair por cima. Só que, tal como tinha acontecido no início da lide voltou a falhar o toiro na reunião e houve que repetir. Em boa hora o fez já que o último acabou por ser o único ferro realmente bom, sonante e cingido frente a um toiro que pedia mais…
Na segunda parte lidou um manso que se empregava “às vezes”. Soube atacar o toiro, dobra-lo na brega, tirá-lo de tábuas e aproveitar-lhe os terrenos de querença para resolver quando o não conseguia colocar em sorte. Foi uma lide bem conseguida, entusiasta e que se viu com interesse, porque lidar um toiro assim e conseguir entreter o público não é fácil. Curiosamente, resultaram-lhe menos bem as coisas frente a um bravo do que frente a um manso perigoso…
No capítulo das pegas os toiros de capa negra e os jaboneros de Vigouroux tiveram carácter bem distinto.
Pelos Amadores de Vila Franca de Xira pegou Pedro Henriques ao primeiro intento, com muita técnica a corrigir a investida ensarilhada alegrando e levando sempre o toiro com ele, estando o grupo excelentemente pronto na ajuda. Rui Godinho esteve grande a consentir e carregar a sorte na cara do toiro que arrancou com pata – sobrando-lhe pouca margem para recuar, quase escorregava mas obteve uma belíssima reunião à córnea com o grupo a blindar a viagem.
Flávio Henriques protagonizou os momentos mais duros e arrepiantes da noite. O manso sempre a procurar saída na lide empregava-se uma enormidade na pega e a violência dos derrotes foi qualquer coisa de impressionante. A primeira das cinco tentativas foi brutal e o forcado foi ao limite do possível, enorme a crescer para o toiro que saiu a galope aguentou vários derrotes acima e saiu com os impossíveis laterais. Ainda tentou por mais duas vezes pegar o toiro mas saiu à terceira lesionado e com grande ovação. Foi dobrado por Ricardo Patusco que conseguiu, duas tentativas depois, concretizar a rija pega.
Dos Amadores do Ribatejo foi primeiro João António, que à primeira deixou o toiro vir solto e saiu da cara com a mangada para baixo. À segunda voltou a ver o toiro acometer intempestivo conseguindo agora receber muito bem à barbela aguentando a viagem até tábuas. O cabo João Machacaz não conseguiu ficar na córnea ao primeiro intento e repetiu à segunda a melhor pega do grupo, mandando no toiro a recuar e a fechar com muita decisão a longa viagem. Por fim, a fechar a noite Sérgio Carmo pegou o segundo manso do lote, que apesar de o forcado vir bem fechado bateu para o tirar já parado, frustrando a pega. Ao segundo intento o da cara não condescendeu e aproveitou a investida franca para reunir eficaz e decidido sem sair até à reunião do grupo.
Sara Teles
