Marcial Lalanda defendia que um bom toiro não devia ir além dos 276kg. Referia-se obviamente (por não existirem balanças nas praças) – ao peso «en canal», que se aferia logo a seguir à morte, depois do toiro limpo e considerando que nesse estado o toiro sofre um abatimento de cerca de 40% do seu peso. Temo-nos habituado aos toiros grandes de “peso e trapio” e um curro mediano já quase não basta nem satisfaz; Mas o que é certo, é que ontem Vila Franca de Xira foi bom exemplo para se ver que ter peso não é o mesmo que ter poder. O poder está nos rins… E somando-lhe bravura ou, que seja apenas, génio e casta, depressa se passa dos miados e dos assobios para o aplauso na recolha aos curros.
Pois gostei bastante do curro de Palha. Os toiros saíram terciados, não obstante o peso médio anunciado de 500kg, mas que pediram contas, que não foram previsíveis e que tiveram riñones para se empregar quase sempre intempestivos, disso não há dúvidas. À recolha do encastadíssimo quinto toiro, os aplausos pediam a volta do ganadero, que não a deu mas foi como se tivesse dado.
Além do curro de Palha gostei bastante das lides de António Telles. Esteve ali como se em casa se encontrasse e o público de Vila Franca, o seu grupo de amigos fosse: andou a gosto. É verdade que a estética deste toureio se completa com toiros assim e que lhe tocou um bom lote nestas características. Foram três toiros diferentes com três lides de maestro de sobressaída brega e mão acertada no quarteio e desenho ao estribo. No quinto e último do seu lote, aliou-se um toiro com génio e encastadíssimo, que partia brusco para a montada empregando-se para colher, ao toureio da Torrinha e o resultado só podia ter sido excelente. Deu volta à arena e foi chamado aos médios com petição para uma merecida segunda volta, que acabou por não dar e terminou uma noite plena.
João Salgueiro encontrou no seu primeiro um toiro que pedia contas. Bonitos foram os compridos de poder a poder e os demais até ver colhida a montada perigosamente. Depois entre os apupos da exigente praça que queria ver trocada a montada colhida, manteve-se encastado mas as repetidas passagens em falso não fizeram esquecer o incomodo de ver obrigado o Chapulín nos ferros seguintes. Dali parece que as coisas não voltaram ao timbre elevado que construiu nos primeiros ferros. A segunda lide foi sem sabor entre a correcção das sortes. A última foi um desperdício de toiro, que era bravo e que o cavaleiro acabou por não deixar ver, mercê quiçá de sentir que o público não estava consigo.
Pois além do curro de Palha e de António Ribeiro Telles gostei da pega de cernelha dos Amadores de Vila Franca de Xira. Foi escolhida pelo cabo para o encastado quinto toiro, que demorou a encabrestar mas deu lugar a uma vistosa tentativa e a uma boa pega. Todas as outras pegas foram também consumadas ao segundo intento, parecendo que a intempestividade com que saíram todos os oponentes – empregar-se a galope surpreendeu todos os forcados da cara, que acabaram, em geral por se precipitar. Foram caras Rui Graça, Pedro Castelo, Ricardo Patusco, Márcio Francisco e Bruno Casquinha, dobrado por Rui Godinho. Foram cernelheiros na quinta pega João Maria Santos e Carlos Silva. Sobre as pegas e este último forcado há que dizer que a sua intervenção como rabejador é por demais brilhante, situando-o entre os mais sonantes nomes das jaquetas de ramagens.
Sara Teles
