Não é algo muito divulgado, mas também não é um segredo. Quem tem cavalos de alta competição, como os cavaleiros tauromáquicos, é frequente recorrer-se a Terapêuticas Não Convencionais, nomeadamente à Osteopatia, à Naturopatia, à Homeopatia, à Fitoterapia, à Acupunctura e à Medicina Tradicional Chinesa… O grande argumento contra as Terapêuticas Não Convencionais (TNC) tem sido dizer que os resultados não têm prova científica e os resultados que os pacientes testemunham são fruto do acaso ou psicossomáticos.
No último programa Prós e Contras da RTP, ouvi um debate que parecia sacado de um plenário universitário do século XIX, e não mais tarde do que a primeira parte desse século! Uma época em que nada que não fosse provado com o recém-conhecido método científico não tinha valor. A propósito deste programa, recordei-me de vários casos que nos últimos 16 anos atendi, com humanos, e que me fizeram rir até às lágrimas ante a argumentação dos Contra as TNC. Os tais que parecem ter saído de uma máquina do tempo de 1800 para o século XXI.
Não creio que faça sentido vir aqui partilhar histórias de pacientes pessoas, mas antes dos animais.
Depois de ouvir David Marçal dizer que só querem provas científicas para aceitar as TNC, pergunto porque não reúnem então as condições para fazer esse estudo? E depois entendo: porque afirma que se não há provas e ponto. E quando se lhe aponta a existência de testemunhos de pacientes que ficaram melhor ou mesmo bem depois de tratamentos de TNC, ele diz que os testemunhos são o resultado de falácias. Ou seja, se uma pessoa melhorou com um tratamento de Acupunctura, por exemplo, foi porque já iria melhorar mesmo que não fizesse nada! Mais, ele disse mesmo que no caso de uma hérnia discal ela iria passar, era uma questão de tempo, portanto, como os pacientes recorrem às TNC quando já estão muito aflitos, as melhoras ocorrem não pelo tratamento, mas porque a pessoa iria melhorar de qualquer forma! Por outro lado, revelou ainda que a outra razão para esses testemunhos positivos de pacientes acontecerem, serem devidos a um efeito psicossomático ou placebo…
Então é aqui, neste contexto, sendo este o grande argumento contra as TNC não poderem entrar no Serviço Nacional de Saúde (dando a todos os contribuintes a possibilidade de terem esta escolha sem terem que pagar mais por ela), ocorrem-me três histórias. Todas ligadas ao mundo do touro.
Houve uma epidemia de gripe entre os cavalos numa região onde eu tinha, numa mesma cocheira, três cavalos. Esses meus animais eram tratados preventivamente com fitoterapia. Toda a cavalariça e cavalos a campo em redor ficaram doentes, com tosse e febres altas. Menos os meus. Por esse motivo, foi-me pedido que ajudasse a tratar os outros. Fiz uma verdadeira maratona de tratamentos, a 23 cavalos. Enquanto cavalos na região mantiveram a doença mais dias, estes ficaram bem no espaço de 36 horas no máximo e não houve recaídas.
Este foi um dos episódios, que me trouxe muitos pacientes e vários deles, cavalos toureiros. Outro caso que me recordo bem, foi com um cavalo que alterava o comportamento no carro de transporte, e ultrapassou esse comportamento (mordia aos outros, mesmo sendo colegas de boxes e coiceava) com a aplicação de três agulhas em pontos de acupunctura específicos antes de embarcar.
O outro caso, não é com um cavalo, mas com um cão que estava para ser abatido porque ficou paralisado do pescoço para baixo. Provavelmente a causa foi febre da carraça, mas em três semanas passando por vários veterinários, a opinião era unânime e o cão, Rafeiro Alentejano, já me chegou sem músculos e com muitas postulas. Fiz a primeira sessão de Acupunctura e receitei Fitoterapia Chinesa. Eu própria estava céptica. Marquei um tratamento de 6 sessões, uma a cada sete dias. No segundo dia que o tratei ele tinha ganho mobilidade nos membros posteriores, e percebi que teríamos potencial para recuperar. À terceira sessão encontrei o cão a andar. Não foi preciso fazer o quarto tratamento, que estava combinado para junto à praça de Montemor-O-Novo, onde o seu dono estava a trabalhar nessa tarde. Fui à corrida e o cão estava óptimo, ficou óptimo por mais seis anos.
Portanto, ou eu faço milagres com os bichos – o que não creio -, ou o efeito placebo é realmente fabuloso. A minha capacidade de passar uma ideia ao animal, que o leva a ter um efeito psicossomático positivo é espectacular.
Quem tenha alguma vez convivido com um animal, seja ele cão, cavalo, gato ou outro, sabe que nenhum animal palica levar agulhas ou as entende como algo agradável. Até mesmo a toma de Fitoterapia (plantas em comprimidos ou cápsulas ou gotas) é-lhes muitas vezes desagradável. Por isso, pergunto a estas pessoas que na televisão mentem e desinformam sobre algo vital como a Saúde, existe efeito placebo ou psicossomático num animal?? A resposta deve ser que melhoraram por coincidência. Eu tenho 16 anos de coincidências positivas para relatar, se calhar é mesmo milagre.
Na plateia ouviu-se dizer que “o método científico é provar que algo funciona ou não em muitas pessoas”, mas então porque é que não se acredita em séculos de tratamentos com bons resultados? A resposta foi simples: “nalguns casos resulta, tal como um relógio avariado está certo duas vezes ao dia” e estou a citar o médico e investigador David Marçal.
Quando um dos directores de escolas de Medicina Chinesa em Portugal começou a falar da quantidade de hospitais de Medicina Tradicional Chinesa que existem na China, foi dito isso não contava para o debate porque era outra cultura? Então eu sendo da cultura mediterrânica não me curo como um chinês?
Também na plateia, ouvi afirmar-se que “há provas que o tabaco é nocivo e ele vende-se, porque as pessoas escolhem fumar de uma forma informada”, isto para dizer que é preciso dizer que as TNC fazem mal à Saúde. E o rojão de morte para provar que todas estas pessoas são do século XIX é dizerem que se “não é ciência” não interessa a ninguém e por isso não deve existir, porque é indiferente que exista ou não.
A Festa Brava sabe o valor das TNC, não só para animais como com pessoas. É espantoso que eu senti que hoje queiram fazer de mim parte de uma minoria, duplamente. Por um lado por ser taurina e por outro por ser acupunctora. Ambos casos do ponto de vista de grupos de gente não esclarecida, sem horizontes ou abertura para os ter, que recusa ultrapassar a ignorância e que grita mais alto do que as pessoas bem educadas, como nós que sabemos manter as tradições porque sabemos o Bem que nelas reside. Os radicais, sejam da ciência sejam do anti-taurinismo sejam do islamismo ou sejam de outra coisa qualquer, são o fim da nossa civilização.
Sílvia Del Quema
