O duelo das casas Telles e Moura quase encheu o tauródromo de Almeirim.
Além do sol e do vento quente do primeiro dia de Junho, as ruidosas bancadas tiveram sucessivos motivos para manter a chama acesa ao longo da tarde.
O curro de Vinhas foi expressão pura de toureabilidade. Sobraram em mobilidade e deram um jogo nobre que permitiu que duas linhas de toureio tão diferentes como estas de Telles e Moura, se recriassem e exibissem os seus bons ofícios. Quem tem assistido à Isidrada e foi aos toiros a Almeirim, sentiu a diferença no imponente trapio mas não há dúvida que o pouco que faltou aos Vinhas em apresentação sobrou em qualidade e gritante toureabilidade.
A tarde foi de todos! A rivalidade por que o público exaspera, foi acontecendo “mal disfarçada” e foi deveras interessante que a inspiração e a sorte se tenha repartido por todos.
António Telles esteve mais discreto na lide com que abriu praça do que na segunda parte da corrida. O cinqueño de Vinhas entrou com pata e nunca se negou à luta embora não fosse tão pronto como seriam os demais. O ginete da Torrinha andou correcto mas não fez magia. Da ordem destacaram-se o terceiro e último curtos que pela sintonia dos tempos e dos terrenos foram de antologia.
Manuel Telles Bastos foi o oposto. Se na lide a duo foi mais apagado, na actuação em solitário esteve em muito bom plano. Foi na ferragem comprida onde realmente se destacou. Começou por mandar recolher os peões de brega e recebeu o toiro com um enorme ferro que rematou com duas voltas à arena e o toiro conduzido a galope. Seguiram-se outros dois compridos que o director brindou com música e já o público com vibrantes aplausos. Nos curtos foi menos assertivo e “deixou-se tocar” em duas ocasiões mas aproveitou bem a mobilidade e a casta deste segundo exemplar que seria um dos melhores da tarde.
Também não foi na lide a solo que João Moura Jr. teve o seu momento em Almeirim. Foi excelente na recepção do terceiro da tarde e andou correcto nos compridos. Nos curtos acompanhou as qualidades do toiro e compôs a actuação com bons ferros a que procurou aliar a brega a ladear, adorno que acabou por não resultar na perfeição já que o toiro não se empregava tanto quanto seria necessário.
Miguel Moura foi o mais brilhante dos solistas. Recebeu sem peões de brega o quarto da tarde em sonantíssima abertura. Lesionou-se o toiro e acabou por sair o sobrero, que foi recebido de igual forma. Seguiu uma lide alegre e inspirada em que uma “dupla batida” ao piton contrário, fez surgir um renovado interesse no público. Conseguiu um estável equilíbrio entre o adorno e boas reuniões e deixou no público uma transversal vontade de o voltar a ver tão breve quanto possível!
Ora nas lides a duo, inverteram-se os papéis e os principais protagonistas foram os que mais ténues tinham estado na primeira parte.
António Telles estava inspiradíssimo e Manuel Telles Bastos acompanhou o tio deixando-o brilhar na sua imensa toureria. Seguiram-se os ferros de frente e ao estribo do primeiro e soberba brega a colocar o toiro. Agraciaram o público com o “carrossel” e fecharam a tarde da Torrinha com uma actuação vibrante.
Para fechar a tarde, os irmãos João e Miguel Moura estiveram extraordinários! Em perfeito entendimento, pintaram um quadro tão bonito e tão cheio de cor que as bancadas não hesitaram em aplaudir de pé! Embora tivesse sido João Jr. a assinar os melhores ferros, ambos conseguiram extrair em conjunto todo o sumo que o último de Vinhas tinha para dar.
Para as pegas foram as jaquetas de Vila Franca e Chamusca que marcaram presença em Almeirim.
Pelos Amadores de Vila Franca de Xira abriu praça Rui Godinho. Apesar de ter recebido com um joelho por diante, o da cara teve ganas para lá ficar e fechou decidido para consumar à primeira tentativa.
António Faria viu o toiro ensarilhar à primeira tentativa impedindo a reunião. À segunda brigou muito para aguentar os derrotes altos mas acabou por cair já a chegar a tábuas. Mal sentia o grupo o toiro tirava violentamente a cara e assim, só ao quarto intento se consumou a pega.
Ricardo Castelo esteve enorme na primeira tentativa, aguentando uma barbaridade à córnea! Pena que o grupo tenha tardado um pouco na ajuda. À segunda consumou em técnica perfeita com o grupo a corresponder coeso.
Pelos Amadores da Chamusca, Ricardo Costa citou com serenidade e carregou a sorte no momento certo, mas o toiro meteu-lhe a cara alta e embora viesse recuando não conseguiu emendar para obter reunião. À segunda fez a viagem alta fechado à córnea com o grupo a fechar coeso. Francisco Borges consumou à primeira uma das mais bonitas pegas da tarde. Mal se virou e viu o forcado o toiro entrou “com tudo”, meteu a cara franco e levou o da cara bem fechado à barbela e o grupo fechado empurrando-os até tábuas.
Nuno Marques foi eficaz e consumou a pega ao primeiro intento em boa técnica.
Sara Teles
