Podemos ler em muitas dezenas de crónicas que Rui Salvador “andou com entrega”, esteve “esforçado”, andou “empenhado” etc… São escritas e repetidas muitas vezes e na grande maioria, essas palavras querem dizer exactamente o que se passou; noutras soam a mal disfarçada condescendência… Rui Salvador tem um valor desmedido, um mérito inatacável e é sem dúvida alguma, um dos melhores cavaleiros da nossa praça. Ontem arrepiei-me com a segunda lide de Salvador. Esteve GRANDE – sem que, na realidade, tenha podido fazer nada frente ao manso perdido que saiu em quarto, na ordem de sorteio do curro de José Luis Vasconcellos e Souza d’ Andrade. Já sabemos que o cavaleiro atravessa um mau momento com a quadra e anda um pouco “malfadado” com os sorteios… Mas é um grande momento como cavaleiro. Notável, aliás… porque só um motor muito robusto e uma alma muito generosa podem fazer o que ele faz, como ele faz, arriscar como arrisca e apresentar-se como apresenta em todas as praças onde passa. Ao invés de se valer dos 28 anos de alternativa, não hesita em provar – sempre – por que motivo os percorre. Não atravessa uma fase de artista mas uma “fase bélica” em que tudo emana do seu absoluto empenho.
A ferragem comprida no primeiro exemplar não foi feliz. Depois de um primeiro correcto carregando a sorte ao piton contrário, ficou com a montada sem saída no segundo e viu-a colhida à garupa. Nos curtos andou muito inspirado e aproveitou a boa condição do primeiro Souza de Andrade. Embora a chama do exemplar se tenha apagado lentamente ao longo dos 13 minutos, o toiro teve fijeza e, embora tardo, acudiu sempre ao cite. Rui Salvador soube dar cova ao toiro, consentindo muito na brega, andou sempre ligado e aproveitou-lhe a transmissão para cravar os curtos com verdade e nota alta, vendo-lhe a cara lá acima nas recargas. O manso perdido da segunda parte cedo mostrou vontade de fugir ao confronto. Parado, sempre a esconder-se em tábuas – simplesmente não reagia a qualquer dos esforços de Salvador. Conseguiu apenas dois ferros enormes, o primeiro e o terceiro – mas tentou tudo, acometer a curto, dar praça, na querença, em contra-querença, nas tábuas, nos tércios, obrigando-o … Esforçou-se realmente (esforçou-me mesmo!) e o público correspondeu aplaudindo-o de pé! Grande quadro!
Luís Rouxinol também não “faz a coisa por menos”. Lidou primeiro um exemplar feio de cara mas de conjunto harmonioso – como ademais, todos os restantes com trapio e bom tipo. Este seu primeiro oponente não revelou grande carácter e foi um manso encastado, que aproveitava para se descartar a cada brecha. Ainda assim, quando se empregava intempestivo e com sentido, o toiro transmitia muito e a lide nos curtos com o generoso Vinhas foi bem conseguida, muito ligada e meritória. O quinto da ordem foi um toiro para aficionados. Daqueles que uns vêem como bravo e outros como manso (contradição rara mas possível e interessante…). Saindo com som, o toiro tapou-se nos primeiros ferros mas recarregava com alegria nos remates, trazendo a cara alta e com investida um pouco descomposta. Talvez Rouxinol não lhe tenha dado a abordagem mais adequada e aumentado os defeitos do toiro que, “cedo se tornou tardo”. Manteve-se fiero e sempre nos médios mas faltou-lhe ambição e vontade de colher para ter graça. A lide foi composta e de entrega, com bons ferros e bem terminada com par e palmo de nota alta.
A mais jovem cavaleira em praça era Ana Rita. Foi muito aclamada pelo público assim que entrou para lidar o primeiro do seu “bom lote”. Afortunada pelo sorteio, aproveitou tudo o que os Souza Andrade permitiam ao seu toureio. O primeiro, voluntarioso e a acudir de todos os terrenos aos cites, embora algo descomposto de investida foi o primeiro realmente interessante do curro. A cavaleira só pecou na posição do braço na execução das sortes porque de resto foi tudo bem conseguido e terminado com um violino que chegou ao público. A fechar a noite lidou um bravo que revelou logo à saída bons modos no capote. Vulgar nos compridos, a cavaleira lidou com paixão nos curtos e viu-se sítio e grande instinto. Embora falte ortodoxia às reuniões quase sempre passadas, foi uma lide por inteiro muito agradável, muito ligada e ritmada e de conjunto redondo. Terminou um curto e um palmo de violino e fechou com cartel no Cartaxo.
Para as pegas, os toiros de Souza Andrade não incomodaram em demasia e se os dois grupos de forcados deixaram que as coisas complicassem na primeira parte, na segunda consumaram boas pegas de bom conjunto.
Pelos mais antigos, Amadores do Ribatejo abriu praça o cabo João Machacaz. Ao primeiro intento o toiro arrancou com pata e ensarilhou a apalpar e procurar o forcado, levantando a cara e impedindo a reunião ao frenar, a que faltou voz. À segunda o cabo consumou um pegão com entrada rija. Ficou decidido à córnea, sem ajuda e sem medo de embater em tábuas para onde o toiro empurrou com pata e cara por cima. Mário Gonçalves viu o toiro partir pronto mas ensarilhado e não mandou nem obteve reunião. À segunda o toiro meteu um piton por diante mas o forcado teve vontade de lá ficar, fechou-se à córnea e consumou uma boa pega, a que o rabejador tirou o brilho. Sérgio Carmo terminou com uma boa pega, nada fácil – o toiro arrancou intempestivo e o forcado, levando-o toureado a recuar, bem consumada por todo o grupo.
Pelos Amadores de Salvaterra foi primeiro João Damásio. À primeira encheu a cara ao toiro e carregou muito com a voz mas não obteve uma investida franca e o toiro bateu com a cara a meia altura. À segunda o forcado não esteve bem e defendeu-se, ficando ao lado do toiro na reunião. Consumou bem à terceira, com a ajuda mais carregada, à córnea e decidido. Daniel Recatia foi autor de uma boa pega à córnea em que o toiro fugiu ao grupo e empurrou para tábuas, sem hesitações do forcado. Joaquim Consolado esteve grande: consentiu muito a carregar a sorte enquanto o toiro vinha a chouto e recebeu bem com eficaz e pronta ajuda do grupo.
A corrida acabou, apagaram-se as luzes da praça, espalharam-se velas entre o público que encheu pouco mais de meia casa e cantou-se o fado… Belíssimo!
Sara Teles
