Belíssimo curro de Passanha o que saiu ontem em Setúbal. Abaixo dos pesos comuns da ganadaria, saíram toiros mais pequenos em relação ao seu tipo mas que tiveram uma suavidade e uma transmissão muitos furos acima da média – como sempre, excelentemente apresentados. Toiros sem querença, que não escolheram os terrenos, voluntariosos e com nobreza no conceito pleno de bravura. Justificaram por inteiro a volta a que Diogo Passanha foi chamado no último – um toiro de bandeira que deu interessantíssimo jogo a Rouxinol.
Pois em Setúbal o dia começou com chuva e manteve-se com cara enjoada e nuvens carregadas até ao fim. Se era de prever uma casa fraca foi surpresa ver a praça setubalense composta entre todos os sectores. E que dizer sobre o público assistiu ao mano-a-mano Moura e Rouxinol…?Foi uma alegria ver um público recuperado de afición, com sentido de crítica, sem dar largas a palmas fáceis. E assim, o confronto de Moura e Rouxinol deu-se acima de tudo, nas bancadas!A divergência de opiniões aqueceu os sectores: se para uns Moura é o indubitável maestro para outros Rouxinol é uma força motriz da arte.Houve muito jogo para ver.
João Mouraencontrou no primeiro oponente o primeiro bravo da corrida, que lhe deu suavidade para o temple no desenho do piton contrário e na brega ao estribo. A tarde não podia ter começado de melhor maneira, com o maestro a gosto, entregue e a aproveitar todo o sumo que havia a espremer do exemplar. No segundo mandou sair os peões de brega mas acabou por andar mal na primeira ferragem. O toiro há-de ter sido o mais “complicadote” dos seis, mas apenas por ser menos pronto a acudir aos câmbios. Assim, apesar de a início ter evitado os capotes, o cavaleiro acabou por recorrer às flanelas em demasia entre os ferros. Por seu turno, no quinto e seu último toiro, andou com maior entendimento numa lide em sentido ascendente. Apesar de o exemplar ter quebrado a meio, por vezes procurando tábuas, Moura não se desligou e as abordagens resultaram templadas, suaves e ao estribo. Sobrou de todas as actuações a brega mourista, a suavidade nas mudanças de terrenos a levar o toiro embebido. A menina do Sado tem uma estrela para Moura. Há-de ter sido esta, a par da primeira corrida nesta mesma praça em início de temporada que o Maestro mais encantou…
Mas também Luís Rouxinol tem especial cartel em Setúbal. É a praça da sua casa e é aqui mais acarinhado que em qualquer outro lugar. Apresentou três actuações com três argumentos diferentes e saiu vencedor do mano-a-mano. O seu primeiro Passanha foi bravo e suave e o ginete fez brilhar na brega e elegância “do tal Ulisses de ferro Vinhas”. Menos evidente começou frente ao segundo com um violento toque. Depressa se corrigiu e fez esquecer o infortúnio, aguentando os cites para lograr as reuniões a dois tempos frente a um exemplar mais tardo mas que, ainda assim, deu jogo em sentido crescente. Com o público de pé, terminou com um palmo nos médios que levantou a bancada.
Foi, porém, no sexto toiro que selou um empolgante e emocionante conjunto. O toiro de bandeira que encerrou a corrida, foi o último dos setenta e dois que a ganadaria Passanha lidou esta temporada. Este toiro não podia ter escrito melhor epílogo: com trapio encheu a praça quando saiu a galope para a sonante sorte gaiola à tira que lhe apôs o cavaleiro. Dali foi tudo bravura: partiu pronto de largo, levando a cara debaixo acima nas reuniões ao estribo, transmitiu a sério e teve uma lide séria e de excelência – tal qual pedia a excelência do exemplar.
A mesma suavidade deram os Passanha para as pegas e ambos os grupos de forcados, Montemor e Montijocumpriram a função com distinção.
Pelos Amadores de Montemor abriu praça António Vacas de Carvalho. Viu o toiro arrancar intempestivo e o forcado subiu para alegrar investida a galope recebendo correcto à córnea que o toiro levou por alto. Embora tenha recebido com um piton entre as pernas corrigiu-se e aguentou a viagem até tábuas, onde o grupo não deixou o forcado bater. Noel Cardosofoi o único a concretizar ao segundo intento. À primeira fechou-se de pernas e empranchou numa violenta voltareta. Depois esteve valente e consumou à córnea e sem conceder aguentou a difícil viagem por baixo. João Cabralfechou a tarde montemorense consumando à córnea uma vistosa pega a que o grupo correspondeu com importante ajuda.
Dos Amadores do Montijo foi primeiro Isidoro Cirneque esteve muito bem a mandar no toiro para se fechar à córnea aguentando a viagem de cara alta com o grupo a tardar ligeiramente a entrar mas a fechar com eficácia. Fábio Sicnic aguentou com garbo a dificuldade da viagem por baixo bem fechado à barbela e muito bem ajudado pelo grupo. Por fim, ao toiro de bandeira correspondeu excelente pega. O exemplar empregou-se e bateu rijo e de cara a meia altura – com séria determinação o forcado aguentou à córnea e brilhou, com a primeira ajuda e restantes a selar uma tarde de grande acerto para o grupo.
Sara Teles
