A proposta da PróToiro para o Bullfest foi a de gerar uma dinâmica de combate à ignorância. Ignorância essa que não se traduz no comportamento, fanático dos anti-taurinos (pois para o fanatismo não há conversão), mas sim na falta – pura – de conhecimento que grassa, sobretudo na urbanidade, e que se torna num campo fértil para a proliferação dos conceitos errados que os anti-taurinos querem dissiminar. Analisando deste prisma o Bullfest, não podemos dizer que foi um sucesso estrondoso. Contudo, podemos dizer que foi uma ideia extraordinária que merece um incondicional apoio da afición nacional e internacional. Ou seja, o Bullfest foi um evento grandioso e é um sucesso.

Vou explicar-me melhor: a ideia em si teve um ‘quê’ de megalómana – e Portugal precisa tanto disso, pois tende à comiseração e ao pranto fadista. A ideia em si foi muito bem executada – não é fácil conseguir, num dia inteiro, manter em permanente actividade uma área como a do Campo Pequeno. A ideia em si, não se fica por um evento isolado, mas antes por um episódio, que procura lançar a tal dinâmica que referi no início do texto – o que na Praia Lusitana é algo quase impossível de se conseguir. A ideia conquistou quem lá esteve, estrangeiros inclusive, o que tem uma relevância imensa para assegurar o futuro da tauromaquia – apesar de o mote ser a portugalidade e não o âmbito taurino em exclusivo como o nome insinua.
A festa calhou numa data importante para o Campo Pequeno e para a tauromaquia, sem dúvida, pois é a data do falecimento do matador de toiros que tantos anos esteve à frente da primeira praça do País, Manuel dos Santos. Contudo, eu creio que “calhou” é o termo certo, pois não me parece propositado. Foi, no entanto, importante, porque se aproveitou para falar em mais alguma coisa relacionada à Festa Brava. O programa do Bullfest incluía uma série de actividades sedutoras para os taurinos assumidos, para os taurinos simpatizantes e ainda para os indecisos hameltianos que não sabem se são ou não taurinos. O facto do nome ser ‘anglicanizado’ chocou muitos dos taurinos, porque somos naturalmente conservadores, porém, quando conseguimos olhar friamente para a necessidade de apresentar a tauromaquia de maneiras diferentes para chegar a públicos diferentes, certamente conseguimos entender a importância – ou até a irrelevância – de o nome deste evento estar em inglês. No programa não havia estrangeirismos, e foi um excelente programa! Os Robertos foi uma recuperação histórica de algo que dantes aparecia em esquinas de rua e nas praias; os baptismos equestres são uma sedução para quem gosta de animais e não podemos nunca esquecer que quem gosta de animais é facilmente enganado pelos anti-taurinos, porque estes lhes vendem que nós não gostamos de animais. Assim, o mérito de levar pessoas, que adoram animais, a montar, num espaço onde se mostra que não somos monstros é muito positivo! O programa contava ainda com as muito úteis exibições de treinos dos principais elementos de uma corrida, ou seja um treino de cavaleiro, de matador e de forcados; seguindo-se a este o nível de levar as pessoas a experimentar esses mesmo treinos, no seu nível mais basilar: o treino de salão de um toureiro e o treino dos forcados com a tourinha. Para mim, esta foi, sem sombra de dúvida a melhor parte da tarde, porque vi a arena do Campo Pequeno encher-se de gente que queria sentir como é estar ali, a imaginar que é o touro que investe no seu capote ou contra o seu peito aberto! O documentário sobre a Torrinha, que não tive oportunidade de ver por a sala encher por duas vezes, foi outra excelente ideia para este Bullfest. O momento musical contou com Fado (sala cheia, mas dava para ouvir à porta) e Cantares Alentejanos, dois patrimónios da Humanidade, como deveria ser a tauromaquia… Do lado de fora, onde também decorreu o baptismo equestre, estava ainda um insuflável em forma de praça de touros que fez as delícias dos mais pequenos, e algo que achei divinal: uma tourinha pequena e leve e capotes e muletas pequenos para que todos os miúdos pudessem fazer os seus treinos. Provavelmente o melhor da festa!
O programa fechou com um festival de toiros, muito apropriado para quem esteve ao longo do dia a divertir-se, sendo que se podia almoçar carne de touro nos restaurantes aderentes no local, e depois entender a seriedade desta diversão, assistindo a um festival misto, com seis cavaleiros, em lides a duo, e três matadores, com pegas a cargo de uma miscelânea de grupos de forcados. Todos eles disponíveis para uma sessão de convívio com os aficionados que desceram à arena lisboeta, com cartões para autógrafos distribuídos pela própria organização, num forte incentivo à iniciação da positiva idolatração das figuras da Festa.
Como em todas as primeiras vezes, há coisas que falham. Não creio que possamos chamar falhas ao que possa ter acontecido menos bem. Foram ajustes que têm de ser feitos para o próximo Bullfest – que o ideal seria não ocorrer apenas daqui a um ano – e que passam por compreender a optimização do programa após a sua primeira execução. Assim sendo, a meu ver, agora haveria de entender o que entusiasmou mais o público. O exterior da festa, com os cavalos para se dar uma voltinha, o insuflável a chamar a atenção de quem tem crianças e os capotes e muletas para brincar na tourinha são essenciais a um próximo Bullfest e devem manter-se durante todo o tempo do evento, tal como aconteceu desta vez. Do mesmo modo que o treino de salão foi de grande importância, pelo que sugeria que, em vez de apenas uma hora, ter todo o dia, isto é, as escolas não estarem todas ao mesmo tempo na arena e irem trabalhando à vez, para que mais pessoas pudessem disfrutar desse momento.
Por outro lado, vale a pena crescer e, num próximo evento, ter a exibição de filmes mas ter ecrãs exteriores à pequena Sala Nobre, mesmo que não se ouvisse podia-se ver. E o Fado ou os Cantares Alentejanos podiam acontecer a partir do lugar da Direcção de Corrida, ou mesmo do Camarote Real. Aumentaria a disponibilização de stands para vendas e mostras e inseria no programa uma palestra ou um debate indirectamente ligados ao touro, por exemplo a importância do sobrado e do montado na agricultura portuguesa.
E digo, no início desta crónica, que o Bullfest é um sucesso e não que ‘foi’ um sucesso, porque esta é uma iniciativa que vai ter continuidade, que deve persistir, aperfeiçoando-se, com ou sem as minhas não solicitadas opiniões. A necessidade que há de esclarecer a ignorância, a importância da pedagogia da verdade junto da cultura urbana, massificada à custa da distância das origens e do desconhecimento da realidade que rodeia as cidades, obrigam a que o Bullfest prossiga uma senda, nada fácil, de defender o que é culturalmente português e que não tem a maldade que muitos lhe atribuem.
Sílvia Del Quema
