Está um calor de verão.
O ambiente domingueiro propício à festa dos toiros.
Os cafés e as esplanadas na rua de calçada à beira da praça estão cheios e animados como de costume.
Os cavalos desenrolam no largo de terra batida entre os camiões e os olhares dos curiosos e amigos que conversam naquele ponto de encontro.
Às seis em ponto soa a ‘Maria da Fonte’. Olhando em redor – está meia casa forte e barulhenta, o que pode vir a servir para uma tarde animada.
O espectáculo começa com expectativa.
Infelizmente, foi um daqueles casos em que a realidade ficou àquem do esperado.
Abriu praça o toiro que haveria de vencer o troféu bravura – deste que é talvez o mais emblemático concurso de ganadarias do nosso património histórico.
Um exemplar da ganadaria de Branco Núncio que se deixou andar, sem se impor. Deixou-se colocar em todos os terrenos e António Ribeiro Telles compôs o ramalhete da melhor forma para pôr em evidência o melhor da matéria-prima. A nosso ver, sendo um toiro fácil e cómodo, faltou-lhe alguma chama e transmissão.
A segunda parte da corrida abriu com um bonito toiro de Murteira Grave. Da saída enraçada continuou um toiro com sentido e a exigir cátedra. Não podia ter tido melhor interpretação que a de António Telles, numa lide com entrega e grande entendimento.
Vitor Ribeiro começou por lidar um bonito oponente da divisa vermelha e preta de David Ribeiro Telles. Um toiro bem rematado, bem distribuído de carnes, nobre e encastado que, «queria mas não podia»… Daí que, bem vistas as coisas, podiam ter-se evitado os vários capotazos nas trocas de montada que acabaram por castigar ainda mais o oponente. Este, reservado de frente mas nobre, impunha-se no momento da reunião mas precisava que lhe invadissem os terrenos. O cavaleiro cravou acometendo e cumpriu a ferragem.
O segundo oponente que saiu em sorteio a Vitor Ribeiro foi o de Irmãos Carreira – Um castanho albardado, alto, bonita cara. Foi algo distraído e acusou alguma escassez de forças nas mãos. O ginete apostou nas sortes de caras, acometendo. Ficou qualquer coisa por ver.
João Moura Jr. lidou um São Torcato que tardou a sair do estado «levantado» de uma chegada à arena menos elegante, a percorrer as tábuas à procura de saída. O exemplar foi sempre um pouco distraído mas acabou por crescer com a lide, revelando-se até voluntarioso a partir de largo para os últimos ferros. Moura Jr. apontou os primeiros ferros atacando ao piton contrário. Quando o toiro veio a mais, aproveitou a brega a percorrer tábuas com raça e ainda um quarto, quinto e sexto ferros a deixar o toiro vir de terrenos de dentro para fora e reunir nos médios.
Fechou a corrida com o toiro vencedor do troféu apresentação. De facto, um toiro muito em tipo da ganadaria Passanha e do seu actual encaste Murube. Voltou a repetir uma lide com bom efeito na bancada, em especial nos segundo e sexto e último ferros curtos em que o oponente levou a cara abaixo ao ombro do cavaleiro. Arriscou e logrou os momentos mais emotivos da tarde.
As pegas foram ao agrado das bancadas de uma praça que se afirma uma catedral de forcados.
Abriram praça os Amadores de Montemor, segundo grupo mais antigo do país. Francisco Borges consumou boa pega, aguentando uma viagem com vários derrotes com o toiro a querer sacudir o grupo. Embora o toiro tenha desviado o seu caminho, o grupo esteve eficaz. João da Câmara deixou o toiro sair de largo, pelo seu caminho e a oferecer uma pega bonita com o grupo a fechar com coesão. João Romão Tavares não concretizou à primeira porque o oponente lhe meteu o piton direito por diante prendendo-lhe o braço. À segunda tentativa o toiro repetiu o momento da reunião mas o forcado quis lá ficar e aguentou até o grupo blindar e consumar-se a pega.
Pelos Amadores de Évora, João Madeira foi à cara do segundo da noite. À primeira tentativa o forcado escorregou enquanto recuava e viu prejudicada a reunião. À segunda recebeu à córnea flectindo-se e fechando-se com determinação para lá ficar. Francisco Oliveira consumou boa pega, recuou e mandou para se fechar oportuna e eficazmente com o grupo a corresponder. Ricardo Sousa consumou ao primeiro intento sem dificuldade.
Sara Teles

