Não há dúvida que os valores são fundamentais na vida e coexistência humana no ecossistema que todos os seres vivos partilham. Na Póvoa do Varzim já se esperava que houvesse uma forte clivagem entre poveiros aficionados e aqueles que se dizem animalistas e são anti-taurinos.
Por definição, ser-se animalista é ser-se defensor do bem-estar dos animais, mas por execução desta filosofia, ser-se animalista é atentar-se contra o ser humano e da Natureza. Logo os valores morais e filosóficos que defendem o convívio humano-animal e humano-humano na sociedade clássica europeia são feridos de morte, isso esteve bem patente no acto do anti-taurino que, com um potente megafone, a partir de uma varanda, se fez ouvir durante quase a totalidade da lide de António Ribeiro Telles. Um anónimo que teve os seus cinco minutos (ou mais) de fama entre o mundo pequeno e ditador dos anti-taurinos.
A corrida da RTP Norte foi transmitida em directo, como é tradicional, a partir da monumental praça da Póvoa do Varzim, onde há semanas a polémica – essa já com anos – se instalou em força, com o edil a não querer zelar pelos interesses de todos os seus eleitos, mas antes a querer impor o seu ponto de vista (tanto quanto sei, não comunicado em programa eleitoral, portanto sem a transparência necessária) anti-taurino. Justificando de arrevesados modos que as corridas que se realizam na Póvoa são poucas e não têm afluência pelo que não se justifica a existência de um novo recinto multiusos que inclua a estrutura necessária à realização de touradas. A falta de frontalidade dos políticos é um cliché, mas neste caso é também o oposto daquilo que são as pessoas francas do mundo dos touros.
Neste enquadramento, e com uma manifestação (dos chamados sete gatos pingados) a poucos metros da praça de touros, não podia deixar de haver conflito. Mas devido à honradez e dignidade dos aficionados o conflito não foi físico, nem sequer chegou a ser verbal, como tanto gostariam os anti-taurinos, para nos poderem acusar de violência.
Assim, quando o cabeça de cartaz, António Ribeiro Telles estava nos compridos, começámos a escutar os impropérios de um anti-taurino que falava num megafone. O touro ficou desconcentrado e o espanto assolava quem estava na praça, bem como quem, como eu, quis contribuir para a elevada audiência da corrida da RTP a partir do seu sofá.
De boas intenções está o Inferno cheio, diz o povo, e foi de boas intenções, vindas de minorias irrisórias, que se geraram as mais terríveis ditaduras e com maior impacto. Os animalistas seguem essa trajectórica, que muitos outros nomes da história seguiram. Lembram-se que Hitler acreditava estar a ajudar o mundo ao condicionar determinadas etnias?
A cultura é um acto repetido ao longo dos tempos na maneira de estar de um grupo de pessoas, enformando desse modo uma identidade específica que permite que se classifique esse mesmo grupo. A Corrida de Touros à Portuguesa faz parte da identidade cultural portuguesa. Não é preciso gostar-se para que o seja. Nem toda a gente gosta de Pastéis de Belém e não é por isso que deixa de ser um doce português, com muitas variantes mundiais e mesmo nacionais.
Agora ninguém vai fechar a fábrica dos pastéis de Belém e proibir generalizadamente o seu fabrico só porque um pequeno grupo de indivíduos não gostam do bolo e acham que o açúcar faz mal.
Todo o açúcar faz mal, não é só o dos Pastéis de Belém, e todos os animais passam agruras se são criados pelo Homem, quer seja para serem comidos ou toureados. A diferença fundamental é que, enquanto os animais que diariamente ingerimos têm – de um modo geral – uma vida desgraçada, o touro é um animal que vive feliz. E reparem que ambos conceitos de ‘desgraça’ e ‘felicidade’ são ideias e vivências que os animais não têm. São conceitos dos animais humanos, que se distinguem dos restantes, precisamente, pela sua capacidade de comparação combinada com a de classificar emocionalmente as duas vivências e assim efectivar as suas ideias.
As minorias vão crescendo, os animalistas vão aumentar, pela desinformação que tão bem veiculam e pela negação das pessoas que, pela sua urbanidade, preferem não saber como morre um porco ou como se separa um vitelo da vaca progenitora para ir para o matadouro, mas não os querem deixar de comer. É essa urbanidade cínica e com uma auto-infligida ignorância que vai permitir o crescimento dos animalistas e levar a que, um dia, o touro seja extinto e a cultura danificada. E eu pergunto, no dia em que todos tenhamos uma dieta vegana (isenta de qualquer produto de origem animal, incluindo ovos), o que é que vai suceder aos animais domésticos? Ficam os cães e os gatos para fazerem de filhos e membros humanizados das famílias dos animalistas. Mas e os porcos e as vacas e as galinhas? Se não os comemos nem vestimos das suas peles, quem os vai criar? Ninguém por certo. Passam a viver em jardins zoológicos, porque já não existe há muitos séculos o seus habitat natural, mostrando, assim, aos seres humanos, que desistiram da sua condição de omnívoros, aquilo que os seus antepassados comiam.
Se pesquisarem estudos feitos pela conceituada e não-aficionada (algo diferente de ser-se anti-taurino) National Geographic, há algo muito importante para se entender o funcionamento do planeta Terra. Quando se criou o Parque Natural de Yellowstone, o ecologista Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da América, no final do século XIX achou que eliminar a população de lobos local era a escolha certa, pois eles, pensava-se, destruíam tudo e estavam classificados como inimigo número um, sendo levados à extinção na região. No espaço de 100 anos a floresta desapareceu em percentagens assustadoras, os rios mudaram os seus cursos e deixaram irrigar todas as áreas, os pântanos instalaram-se com a proliferação de mosquitos transmissores de doenças, os pequenos animais deixaram de ter alimento e o veado imperava, comendo tudo o que lhe aparecia à frente não deixando nada para os outros membros da cadeia alimentar de um ecossistema, incluindo os ursos. Yellowstone, em apenas 100 anos, estava a morrer. Em 1995 reintroduziram o lobo. Hoje, recuperou-se o equilíbrio de há mais de um século atrás. Será que os animalistas não podem ser também ecologistas e compreender a importância de haver uma cadeia alimentar?
Entender o planeta Terra é um prisma e outro é entender a Humanidade. O ser humano sem identidade cultural, é uma pessoa sem raízes. Sem raízes não se prende a nada e passa a ser o que poderíamos chamar de um mercenário da vida. Aumentando exponencialmente o egoísmo natural e exacerbando atitudes extremas e a negação de aprendizagem, porque quando não há respeito – que o egoísmo retira – pelo outro torna-se difícil a não-agressão. Seja física ou verbal. Aumenta a raiva face aos impedimentos de prosseguir na conquista dos seus desejos e é este tipo de quadro psicológico que tem alimentado as hostes do Estado Islâmico. É esse o quadro que a desculturização (muito mais do que a aculturação) traça para a sociedade. A sociedade que é o antro da civilização humana, que vive na Terra e apenas por estar organizada como sociedade a consegue partilhar. É preciso melhorar a relação do Homem com a Terra, mas sem esquecer quem é quem na cadeia alimentar e logo no ecossistema, que é preciso estabilizar para que a Terra sobreviva para lá dos nossos bisnetos.
Assim, aquele homenzinho que teve os seus cinco minutos de fama (má ou boa, depende dos lados da barricada) a gritar ao megafone insultos e pragas e inverdades durante a lide de Ribeiro Telles, mais não foi do que uma gota de água num copo quase cheio de ataques à liberdade da democracia.
Posto isto, pensamentos de sofá, aquilo que vi na televisão foi uma boa corrida de touros com a presença de uma extraordinária afición poveira que merece o respeito de qualquer político, quanto mais o seu autarca, aqueles que (possível e talvez inadvertidamente) elegeram.
O cavaleiro da Torrinha arrimou-se ante o distúrbio da sua lide e esteve à altura de um bom touro do curro de Irmãos Moura Caetano (anteriormente ganadaria designada como Guiomar Cortes Moura, mas agora passada aos filhos de Dita e Paulo Caetano).
Filipe Gonçalves atravesso um bom momento, sem margem para dúvidas, cresceu para o touro a cada ferro e o público esteve sempre com ele.
João Moura Caetano lidou um dos melhores oponentes da noite, com ganas e sem falhas, dando bons momentos na corrida.
Francisco Palha prendeu a audiência e os tendidos na sua sorte gayola e daí para a frente foi uma grande lide.
Soraia Costa, a única cavaleira praticante da noite, teve algumas dificuldades na cravagem mas manteve a sua presença e reconheceu os seus erros de quem ainda está a aprender.
Pegaram o grupo do Ribatejo com os forcados da cara a serem Pedro Espinheira, à segunda tentativa, Rafael Costa e João Oliveira, ambos ao primeiro intento. Pelo grupo de Alcochete pegaram Nuno Santana e Manuel Pinto, sempre à primeira.
No final da corrida houve um touro para recortadores que não passou na televisão, mas que me disseram encantou o público na praça.
Como nota final de uma crónica daquilo que todos os aficionados puderam ver na TV, queria realçar a importância de a televisão não agir como a avestruz enfiando a cabeça na areia perante o perigo. Todos nós sabemos que, desde há uns anos, a televisão procura mostrar apenas o que se está a passar de positivo na arena. Ou seja, evita focar muito os incidentes durante as pegas ou os acidentes com qualquer das figuras eu se arrisca numa arena. No entanto, o toureio vive há séculos por representar a coragem máxima de correr o risco de vida, este princípio dos anos 80/90 de proteger a Festa Brava mostrando-a apenas como bonita, alegre e airosa para não chocar ninguém, tem de ser mudado. Agora não se trata de repescar o público que nos anos 70 se afastou das praças por motivos políticos. O ressurgimento desse público já se deu. É preciso é educar esse público e não há órgão de comunicação que melhor encarne o quarto poder do que a televisão. Isto significa que é neste meio que melhor se pode desmistificar as falácias dos anti-taurinos. Cada ataque que eles nos façam num directo televisivo é um momento precioso que nos dão para que se diga a verdade e contrarie o pensamento que eles pretendem incutir no público e ainda para mostrar como eles são poucos e incultos e estão ao serviço de um poder maior que ignoram e não compreendem e que não zela pelos animais, mas sim pela macroeconomia de grupos específicos internacionais.
A conspiração deve ser desmontada e se o for na televisão é garantido que será mais escutada do que em qualquer meio de comunicação taurino, pois aí funcionamos apenas para o nosso círculo interno. Ontem os comentadores ficaram atrapalhados e revoltados, mas não deram a resposta que acredito seria necessária. Foram apanhados de surpresa, é natural, mas para a próxima não continuem como se nada fosse. Deixem o toureiro prosseguir a lide que vemos com os olhos, mas façam-nos escutar aquilo que se passa para lá da lide, para lá da arena, para lá da praça, de qualquer praça, Aquilo que se passa contra acultura do povo português. Contestem os argumentos dos anti-taurinos antes que a mentira repetida exaustivamente se torne numa inverdade para o mundo.
Sílvia Del Quema
