Há dias e histórias que nos marcam de verdade.
Quem não recorda aquele enorme toiro de Dias Coutinho que saiu a concurso em Alcochete e aquelas seis tentativas estoicas e gigantescas de Vasco Pinto?
São mesmo muitas as memoráveis pegas de Vasco Pinto, mas penso que aquele toiro e aqueles inesquecíveis momentos são os maiores representantes deste notável cabo e forcado.
Notável como forcado – que engrandeceu e exaltou a figura do forcado amador, em todo o donaire, classe, sobriedade e valentia dos gestos.
Notável como cabo, enquanto lider, inspiração e exemplo.
Foi uma marcante despedida.
Assinalaram-se assim os quarenta e cinco anos de história com a passagem do testemunho no comando do grupo para Nuno Santana outro dos grandes de hoje.
Manuel Pinto abriu praça, representando a geração mais jovem. Numa pega limpa a que o grupo corrrespondeu com ajuda eficaz.
Seguiu-se a pega da despedida de Vasco Pinto. De certo que este a gostaria de ter concretizado ao primeiro intento. O toiro saiu com pata e, mercê da reunião dura acabou por ficar fora da cara. Concretizou em seguida, em técnica perfeita.
António Cardoso, Nené, consumou a pega à primeira tentativa. O largo sorriso no rosto fez-nos pensar que um forcado o é a vida inteira. Os cabelos brancos pouco podem quando a alma é maior.
Nuno Santana, pegou ao primeiro intento. Já empossado da nova responsabilidade, (que não acusou), o experiente forcado concretizou sem dificuldade.
Carlos Filipe Dias também quis voltar ao activo nesta noite repleta de simbolismo para o seu grupo. E fê-lo da melhor maneira, concretizando uma boa pega ao primeiro intento.
Estêvão Oleiro foi mais um dos grandes caras que envergaram esta jaqueta alcochetana. Apesar de retirado há quase duas décadas, esteve técnicamente perfeito e interpretou com absoluta eficácia a investida baixa do toiro para reunir e concretizar ao primeiro intento. Destaque também para o retirado ajuda Victor Marques que esteve sempre no sítio certo à hora certa, mais uma prova de que quem sabe nunca esquece.
Foi muito bonita a noite dos amadores de alcochete, foi vivida com visível alegria mas sobrou saudosismo e nostalgia!
Nas lides a cavalo a noite não foi menos interessante e singular!
Quando os holofotes falharam com toiro em praça e a meio da lide, a exclamação foi grande.
Maior foi ainda quando vimos Luís Rouxinol perfilar-se e citar em curto frente ao toiro da divisa de Paulo Caetano para continuar a lide. E continuou mesmo, com todo o público rendido e em verdadeiro êxtase. E foi na escuridão (iluminada por um sem número de telemóveis que se foram acendendo e que pareciam velas) que se desenrolou uma portentosa lide que levantou a bancada em peso.
O segundo toiro, da casa Maria Guiomar Cortes Moura, não deu o mesmo jogo. Ainda assim, o ginete de Pegões logrou bons momentos, especialmente na brega-.
Diego Ventura esteve discreto no seu primeiro toiro (de Paulo Caetano), que não lhe deu jogo.
Porém, na segunda metade da corrida, frente ao oponente de Maria Guiomar Cortes Moura e especialmente com o “toureiro” Sueño esteve realmente extraordinário. Nesta sequência dos curtos, dando-lhe todas as vantagens, recebeu o toiro no último “milímetro de segundo” disponível e uma vez mais ultrapassou o inultrapassável. Uma lide histórica.
João Moura Caetano também não se entendeu com o oponente de Paulo Caetano e a lide foi morna. Na segunda parte, entendeu-se na perfeição com o exemplar de M. Guiomar Cortes Moura e compôs a lide com vibrantes ferros em quiebro que fecharam a noite com chave de ouro.

