Muito falo e ouço sobre o futuro da festa, os medos, a vontade de mudar para que perdure e cative mais gente, e o facto de não se saber bem como fazê-lo.
E aqui não podemos deixar de falar de Espanha, pois, convenhamos, a existir país com peso, história, meios de comunicação e algum savoir faire no que diz respeito a tauromaquia, esse país é Espanha. E os bons, copiam-se sempre!
Espanha tem características únicas que marcam a tauromaquia de uma forma inigualável, como seja o Pregón de Feria, pregões taurinos com os quais se iniciam e apresentam solenemente as festividades e enaltecem o mundo taurino. Normalmente são hinos à amizade, fraternidade e bondade, valores tão nossos e tão próprios de quem está nas arenas, forcados, toureiros etc., e de quem gosta e é capaz de se emocionar com este mundo.
Este ano, em Sevilha, a professora de La Sorbonne de Paris Araceli Gillaume-Alonso foi a encarregada de pronunciar o Pregón Taurino deste ano no Teatro Lope de Vega. Primeiro fez uma relação histórica da cidade de Sevilla com a Festa dos toiros, depois enalteceu a cidade “en la que nadie se siente forastero”. No seu pregão frisou também a urgente chamada de jovens sem medos e sem complexos aos toiros, “porque en nuestra juventud está el futuro de la Tauromaquia”. E terminou pedindo a todos que vão à praça para desfrutar da emoção que só ali pode ser vivida.
Parece-me uma boa forma de enaltecer, promover e defender o que todos sabemos.
A propósito da Feira de Sevilha, não querendo fazer nenhum tipo de vassalagem à festa espanhola, ou sequer uma comparação à portuguesa, e muito menos fazer uma crónica exaustiva e descritiva da mesma, parece-me haver pontos importantes a tirar daqui.
Feria de Abril, a caminho da praça, uma boa meia hora antes de soar o clarinete, pela Porta do Príncipe.
Ia começar o paseíllo, com os matadores à frente, as quadrilhas alinhadas, o público expectante, e o céu cheio de andorinhas a passear por aquele céu, que só existe no Sul, como banda sonora ideal enquanto a banda não tocava.
Poucas vezes me sinto tão a gosto, tão no meu sítio, tão cómoda como me sinto numa corrida, seja em Espanha ou em Portugal.
E para defender a identidade de um povo, os Espanhóis fazem-no da melhor forma, uma delas foi aproveitar o Toro Osborne.
Osborne, apesar de ser o nome de uma das bodegas mais importantes e antigas de Espanha, só se tornou conhecido em 1956, quando uma agência publicitária criou um símbolo para este brandy veterano, e que seria colocado nas estradas. Chegaram a ser 500 espalhados pelo País, actualmente são cerca de 90. Mas a sua influência na identidade cultural do país foi tão grande que o Supremo Tribunal declarou, em 1997, que a silhueta de Osborne ia para além do meramente comercial, integrando-se na paisagem. O facto é que, com o passar do tempo, tornou-se num elemento que distingue o toiro como animal ibérico, bravo e de raça.
E os programa televisivos que existem? E as transmissões em directo? Todo um espectáculo carregado de emoção, genica, mestria e entusiasmo! Fazem-no como ninguém! Mais uma vez, os bons, copiam-se sempre!
Voltando às corridas propriamente ditas, são uma manifestação estética, mas também uma permanente lição de ética, cada vez que se enfrenta um toiro, enfrentam-se os medos, e teme-se, e ainda assim supera-se tudo isto. Teme-se a morte, e cada vez que um dos intervenientes sai bem da arena, ensina-nos a viver. Pois que não há dois passes iguais, dois toiros iguais, duas pegas iguais, é tudo real e irrepetível. Como diria Orson Welles: “O toureiro é um actor a quem sucedem coisas reais.”
É todo um sacramento, um ritual, e não é por acaso que muitas vezes as corridas coincidem com celebrações cristãs, como a Páscoa ou os Domingos. Toureiros e forcados passam por um processo iniciático, seja para tirar a alternativa, seja para pegar pela primeira vez, tudo passa pela aprovação dos restantes membros. E os clarinetes anunciam e guiam cada etapa deste ritual.
Todos rezam antes de sair à praça… E soa-me igualmente bem “que Deus reparta sorte” e “que Dios reparta suerte”.

