No final do passado 2012 entrevistámos a cavaleira Ana Baptista. Com o encontro marcado para um sábado bem cedo pela manhã, encontrámo-la na sua quinta em Salvaterra de Magos. A chuva não permitiu que captássemos muitas fotografias e forçou-nos a abrigar-nos no alpendre, onde faríamos a entrevista. O saldo final da reportagem resultou longo – é verdade! Mas o que havia de ter sido uma entrevista foi antes uma conversa, muitíssimo agradável, que nos guiou pela vida, a carreira e as rotinas desta Mulher (com propositada maiúscula), que é nossa primeira figura!
O ano passado toureou mais corridas em Portugal que na temporada passada, mesmo apesar de este ter sido um dos anos da última década com menos corridas realizadas. Foi uma boa temporada?
Além das 23 corridas em Portugal toureei também doze corridas no México. E é verdade, o ano foi assim apesar de ter tido acidentes e de ter estado o mês de Junho e Julho quase parada o que prejudicou muito e foi muito mau.
Começamos mesmo por aí: como foi a campanha no México?
O México foi muito importante porque não parei. É diferente passar cá o Inverno e começar a temporada porque os cavalos ficam com um ritmo muito bom.
Foi isso que aconteceu?
Sim, os cavalos chegaram muito bem fisicamente, vinham com um bom ritmo e as coisas correram muito bem. Infelizmente depois tive a fractura nas costelas na corrida da Azambuja que me forçou a estar um mês e meio praticamente parada e foi como se começasse outra vez de novo.
Isso obrigou-a a parar também em casa e nos treinos?
Sim. Mas mesmo assim, felizmente, ainda consegui pôr um cavalo novo durante a temporada, um cavalo que tinha ficado cá em Portugal.
Não levou todos os cavalos para o México. Os que ficaram acusaram a paragem?
Quando voltei, foi para a corrida de homenagem ao meu pai, que era uma corrida muito importante para mim.Tivemos pouco tempo porque viemos só uma semana antes para montar os cavalos que estavam cá e felizmente esses estavam extraordinários – andavam “a desejo”, como se costuma dizer.
A que se deveu o aumento do número de corridas?
Eu acho que a temporada no México acabou por ajudar um bocadinho porque o meu nome esteve sempre a aparecer. As notícias eram boas, as coisas estavam-me a correr bem no México e as pessoas estavam com vontade de me ver tourear cá em Portugal, para ver como as coisas estavam e como estavam os cavalos.
No México também teve um acidente…
Sim. É verdade. Tive uma fractura numa costela. Este ano foi tudo! Foram três! [Risos]
É fácil tourear no México?
No México é duríssimo – muito, muito duro!
Quando chegamos os mexicanos são pessoas muito simpáticas que nos recebem muito bem. Tem um ambiente espectacular e muito diferente do nosso mas passam-se também coisas terríveis.
Foi então bem recebida por lá…?!
Eu vou contar um bocadinho. Eu estava já com um ritmo bom quando infelizmente aconteceu a morte do meu pai. Vim a Portugal e o regresso ao México mexeu muito comigo porque os mexicanos foram como uma família para mim, estiveram muito comigo e apoiaram-me muito. Além disso as corridas em si correram muito bem. Tanto que o meu apoderado inicialmente pensava que era muito cedo para tourear na praça México e depois isso acabou por acontecer.
Quais foram os momentos mais marcantes da temporada mexicana?
A corrida de dia 25 de Dezembro foi uma data muito especial. Primeiro porque nunca tinha toureado nessa data, depois porque foi o primeiro Natal que passei sem o meu pai… Depois a corrida de 1 de Janeiro também foi muito importante. Foi muito especial mas foi marcada por um acontecimento muito macabro! Nós chegámos à praça e não era para haver corrida. Percebi que havia um mistério qualquer e que os meus bandarilheiros sabiam mas não me quiseram contar para não me assustar.
Quando há corridas importantes, por causa das guerras políticas e da droga e tudo mais aproveitam para chamar a atenção e deixar as suas mensagens. Então a mensagem que eles deixaram nesta corrida foram cinco cabeças de pessoas mortas na praça – horrível!
Claro, como escavaram a praça o piso estava em muito mau estado e foi nesta corrida que fracturei as costelas.
Isso deve ter sido muito assustador e muito difícil.
Sim, é muito duro mesmo. E este não foi o único episódio, na corrida de 25 de Dezembro tinham deixado um camião com pessoas mortas perto da praça! Aquilo parece um paraíso, todas as pessoas são muito simpáticas, muito amáveis, muito religiosas mas depois há estas histórias… Muito difícil crer, parece que estamos a viver num país de sonho e depois surgem estas histórias macabras…
Houve mais momentos insólitos?
Houve numa corrida seguinte no Estado de Vera Cruz. Enquanto lá estive esteve sempre frio e dias de chuva. Nesse dia estava a chover torrencialmente mas mesmo assim a praça estava esgotada e por isso fizeram tudo para haver corrida. Então tiraram a lama toda da praça e puseram um piso novo. Enquanto fizeram isso eu estava vestida de toureira à espera – duas horas vestida de toureira à espera – e as pessoas na praça com as bancadas cheias tudo em festa a cantar! Realmente tinha um ambiente fantástico e assustador ao mesmo tempo! Nesse dia iam estar dois políticos muito importantes. De repente começaram a chegar helicópteros, a polícia, o exército – uma coisa assustadora – todos vestidos de preto com a cara tapada! Já nem sabia se estava mais assustada com a corrida ou com aquele ambiente, eu realmente estava assustadíssima.
Acabou por correr tudo bem?
Isto foi mesmo na véspera da corrida da México e o piso via-se que estava muito pesado e que às vezes os cavalos escorregavam por causa da lama por baixo. No primeiro toiro correu tudo bem mas vi que tinha que andar com muito cuidado.
Como os toiros são arrastados, a areia que levam acumula no mesmo sítio e aí, no segundo toiro caí duas vezes, com o Obelix e o Fandi. Nesse dia os meus colegas com que alternei caíram também e acabaram por me contar que o Pablo é o único que aguenta aquelas condições duríssimas.
Aliás, estive também com o Pablo e ele falou-me que das coisas mais difíceis do México era mesmo os pisos. Alertou-me para a praça de Mérida, onde toureava depois da México e disse-me “Ana cuidado, quando sentires o cavalo a galope e um ruído forte não te assustes porque estás a passar por uma parte de madeira que em baixo é um quadro de luz!”. Quando aconteceu confirmei que era mesmo assim.
Como reagiram à garra e à determinação da Ana perante as dificuldades?
Para eles foi uma surpresa. Ficaram mesmo muito surpreendidos ainda mais nestas circunstâncias, por ser mulher cair, encontrar dificuldades e continuar a tourear.
E os toiros?
Chegaram a contar-me histórias de outros rejoneadores que deixaram de tourear no México porque estavam à espera de outro tipo de toiros. Normalmente nos vídeos os toiros são pequenos – por exemplo a mim disseram-me que os toiros tinham sempre quatrocentos e poucos quilos, com os cornos muito cortados e que normalmente são novilhos. Mas nós chegávamos às praças importantes e estavam lá toiros fechados há um mês ou dois meses e os que toureávamos por vezes tinham 600 quilos e já 5, 6 ou 7 anos …. Não era bem assim como nós pensávamos.
Como foi o debute na México?
Na corrida de Vera Cruz disseram-me “atenção porque o piso aqui é muito mau mas na praça México é mil vezes pior, nós temos que por seis pitons”. Quer dizer, eu nunca pus pitons, ali comecei a pôr mas no máximo dois. No México tive que por seis pitons! Contaram-me inclusive que o Rui Fernandes foi treinar um dia antes lá à praça México só à tourinha e caiu! Por isso estão a ver, depois das minhas quedas, da fractura da costela –tudo isto mexeu comigo…! – o meu apoderado teve muito cuidado e como foi rejoneador, quis por o piso o melhor possível na praça México. Saí com o Obelix que não teve problema nenhum, já o Forcado ainda teve um esbarrão porque há sítios que são quase completamente cimento. Mas acabou tudo por correr muito bem e foi muito importante até porque a praça estava mesmo quase esgotada.
Este ano pensa voltar a fazer a campanha no México?
Este ano não vou porque quero recuperar completamente e estar bem fisicamente. No México tem que se estar preparado fisicamente e de outra maneira, porque como temos de matar os toiros, o desgaste é maior. Além disso também tenho muitos cavalos novos e tenho que os trabalhar muito durante este Inverno porque é muito oneroso levá-los comigo. Assim, este ano vou dedicar-me mais aos cavalos novos.
Passando para a temporada que vimos cá. Entre as corridas que assistimos recordamo-nos particularmente de um toiro de Assunção Coimbra que lhe calhou em Samora Correia extremamente difícil. E que marca a sua personalidade como cavaleira… Como se sentiu neste toiro?
Nesta corrida fracturei a outra costela… Este ano foi terrível!
Foi um desafio muito grande porque aconteceu logo de saída quando o toiro e digo-lhe: às vezes toureio vacas toureadas e nem essas saem a adiantar-se tanto como aquele toiro. Onde eu ia ele estava à minha frente e quando foi aquele momento – senti que houve qualquer coisa estranha. Depois no segundo ferro comprido coloquei-me na mesma de frente e quando ia a meio do caminho já o toiro estava mesmo à minha frente e acima – foi uma coisa brutal –pensei que não tinha espaço! Pensei: “Eu não vou passar mas vou por o ferro” e isso foi a minha sorte porque quando o toiro cortou completamente o terreno! Quando pus o ferro o toiro sentiu o castigo e veio cá a cima à procura do ferro e foi quando me fracturou a costela.
Nós portugueses somos um bocadinho assim mas acho que no meio daquilo tudo eu tive muita sorte de partir só as costelas porque no sítio que foi o toiro agarrava-me e punha-me nas bancadas. Depois dos ferros compridos fui trocar de cavalo e o Orlando dizia-me para montar o Roncal e eu perguntei-lhe “mas como é que eu ponho os ferros de frente?” porque o Roncal é um cavalo que toureia de frente e eu – mas como é que eu vou conseguir por os ferros? Não será melhor sair no Fandi e por os ferros em violino? E o Orlando disse-me “mas ele pela esquerda também se adianta e você está aflita com dores, ao violino ainda lhe custava mais”. Nesse dia realmente vi que o Roncal é um grande cavalo, quando o vi a pôr-se de frente mesmo com o toiro a adiantar-se e a tirar-se e deixar cravar os ferros ao estribo fiquei tão contente que tive ânimo para levar aquilo até ao fim. Eu acho que estava tão bem disposta quando o director de corrida não me deu música fui ao pé dele perguntar “oh senhor director não mereço música?” [risos] Estava tão indignada – pensei, será que o director de corrida não está a ver aquilo que eu estou a ver – quer dizer, pus um ferro curto de frente com um toiro destes – não é… acho que mereço música!
Além deste houve outros sorteios menos afortunados. Foi uma temporada excepcionalmente difícil…?
Já noutras temporadas me costumam dizer que para mim saem sempre os piores toiros. Mas este ano foi mais do que o normal – foi uma temporada difícil. Mas fiquei contente –porque eram cavalos novos. O Roncal, por exemplo, tem 5 anos e veio da temporada do México como eu contei. O cavalo andou a matar os toiros e ter de superar isto – a corrida de Samora, a corrida da televisão, etc – com um toiro muito difícil com arreões a ir para as tábuas… Conseguir pôr um cavalo que nunca tinha toureado, com toiros assim difíceis – são coisas para nós ainda têm muita importância e mérito; dão-nos mais experiência e também essa corrida de Samora deu-me mais moral porque se nós conseguimos tourear um toiro destes conseguimos tudo…
Que outras coisas boas ficam da temporada passada?
A corrida de Barcelos em que ganhei o prémio de melhor lide foi uma corrida bonita. [Risos] Por acaso nesta corrida também tive um percalço mas depois correu tudo bem. Os toiros eram muito bons, os cavalos andaram todos muito bem, o público era extraordinário – desfrutei.
Outra corrida que me marcou bastante e foi muito especial foi a de Salvaterra porque foi a homenagem do meu pai e por ter corrido tudo muito bem e ter toureado nos cavalos que vieram do México. Ter toureado por exemplo com o Conquistador que estava há seis meses parado. Era montado aqui pelo rapaz só a dar-lhe ginástica e em dias pôs-se em forma e chegou lá e toureou um toiro que não era o mais fácil.
Também importante foi a corrida de Ponte de Lima em que também saquei os cavalos novos e foi uma corrida muito, muito positiva, para desfrutar, com toiros muito bons.
Em Coruche, na última, da feira de São Miguel, também foi uma boa corrida. O toiro não transmitia muito mas era bom o toiro. Era assim para o manso mas pronto mas correu bem também.
Como está a compor-se a quadra para a temporada de 2013?
Temos dois cavalos com o ferro de Pedro Lapa e gostava que pelo menos um deles saísse a tourear. Era uma grande sorte porque são muito novinhos– um deles é o Artista e o outro o Triunfador (na foto). Tenho também o Biscoito com o ferro de Manuel António; o Requinte com o ferro Silveiras e o Conquistador, do ferro João Maia.
O que é para si o toureio de verdade ou a verdade do toureio?
Existem várias sortes. Há quem critique todas aquelas que não são de frente. Por exemplo, no câmbio nós realmente enganamos o toiro mas o que é certo é que todas as sortes têm a sua dificuldade. Ao pôr o câmbio o que é difícil é por o ferro ao estribo. Como também uma sorte à meia volta …. Eu sou apologista de, se nós tivermos um cavalo que faça esse tipo de sorte nós temos de tirar proveito dele se não passa-se aquela fase em que os toureiros vêm a menos porque não têm o cavalo da sua vida. Acho que um toureiro é bom quando é versátil e quando se adapta a vários tipos de cavalo. No entanto, temos que tourear sempre de frente nem que seja a carregar um bocadinho ao piton contrário mas tem que se por sempre os ferros ao estribo e tem que lidar os toiros e temos que tentar ao máximo mandar nos toiros e isso para mim é a verdade do toureio.
Eu não gosto de ver um cavalo que ande a correr e onde o toiro fica é onde leva o ferro. Eu gosto de ver um toureio como vi o António Telles em Vila Franca – que adorei. Eram toiros difíceis e nós apercebemo-nos que ele estava a estuda-los e a pô-los onde queria com ferros ao estribo – isso é a verdade do toureio.
Portanto não gosta do toureio a cavalo que se pratica em Espanha?
Eu adoro e sou fã do Pablo, do Diego ou do Leonardo só que nós não podemos comparar as coisas. Nós estamos na pátria do toureio a cavalo – estamos em Portugal e o exemplo que nós temos dos toiros Palhas em Vila Franca ou nesta última corrida com o meu toiro Coimbra – as coisas são completamente diferentes. Lá tudo tem que ser feito na perfeição, com muita equitação – os cavalos têm que estar perfeitos e tem que haver muita arte. Cá o cavalo é diferente essencialmente porque tem que ter muita cabeça; tem que ser um cavalo que consiga superar os toiros que, muitas vezes, são duros. Por isso temos muitos cavalos que não conseguem ser figura em Espanha como também há muitos cavalos em Espanha que não conseguem ser figuras cá em Portugal. Apesar de eu apreciar e ser fã dos dois tipos de toureio mas coisas são completamente diferentes e distintas.
Sente que o público é injusto quando estão em comparação os dois tipos de toureio?
Às vezes custa-me quando estou nas bancadas e toureia um toureiro português e, por exemplo, um espanhol e dizem “ah, os portugueses não põem os cavalos a morder ou não fazem este espectáculo”! A questão é que os nossos toiros não permitem. Tanto que nós temos cavalos postos para os nossos toiros em Portugal e chegamos a Espanha e temos dificuldade porque não estão feitos para aquele espectáculo e para aquele ritmo. Os toiros às vezes podem estar parados e eles montam o espectáculo deles. Fazem-no com dignidade, vemos, por exemplo que o Pablo é um grande cavaleiro e faz as coisas todas com muita perfeição. Mas é completamente diferente. Por exemplo o Roncal era um cavalo que não era figura no México e cá em Portugal é figura e o Forcado era figura no México.
Isso também está relacionado com os toiros e uns encastes serem ou não mais fáceis que outros… Fala-se particularmente, nos Murube.
É verdade que o encaste Murube tem toiros mais suaves para o toureio a cavalo. Dá para desfrutar de outra maneira mas também tem que se estar muito bem porque se um toiro sai assim suave e se nós não estamos bem é um grande petardo. No caso de sair um toiro encastado, como o caso do Assunção de Samora: ninguém falava de mim se o toiro não tivesse saído encastado. Nós cá estamos habituados a ver as coisas com emoção e temos que estar preparados e ter cavalos para isso. Por vezes dizem “tens tantos cavalos” – graças a Deus tenho muitos cavalos – e dizem – “e porque é que toureias mais num Obelix e o outro que é tão bom, vi-o lá com uma vaca…” – sim, mas esses são cavalos artistas não para este tipo de toiros. Esses artistas toureiam uma vez ou duas por graça, agora os outros são os cavalos de verdade que entram pelos toiros dentro, que não vão ao engano. A grande maioria dos toiros são assim – não nos deixam praticar esse tipo de toureio.
Não é raro ver a Ana nas bancadas a assistir a corridas em que não toureia. O que é a motiva a ir ver um determinado espectáculo?
Este ano por acaso tenho ido ver menos que o habitual. O Orlando até ia ver corridas sozinho porque eu tinha mesmo muitas dores e estava muito mal fisicamente. Eu sou muito aficcionada e aprende-se muito e ver os toiros, os colegas, os cavalos,etc e aprende-se muito a ver! E vou torcer também pelos colegas porque eu gosto muito deles e torço muito por eles. Às vezes até rezo por eles e tudo porque sei o como é difícil estar lá dentro da praça. Como também sou a primeira a dar-lhes os parabéns!
Como aficcionada, aprecia e gosta também do toureio a pé e dos forcados?
Sim. Ainda para mais porque nós agora temos muita facilidade em ver corridas espanholas e nós vemos corridas muito boas de toureio a pé. Também estamos muito ligados ao toureio a pé por causa do Nuno Casquinha, que é sobrinho do Orlando.
Dos forcados também gosto. Às vezes custa-me um bocadinho mas também gosto de ver.
Para além disso ainda a vemos a participar noutro tipo de acções. Em Junho em Salvaterra junto de crianças… Isso é importante também?
Isso foi muito giro. Era um estágio para ter acesso a várias profissões relacionadas com o toureio a cavalo Foi naquela altura que eu tinha a fractura nas costelas. Acabava por estar mais cansada do que se andasse todo o dia a montar, porque eram vinte crianças o dia inteiro… Chegava a cama e adormecia logo. Foi muito giro e depois ganhei muitos fãs. Foi engraçado, no último dia houve crianças que se agarraram a mim, que me deram abraços, que me deixaram mensagens muito bonitas.
Muitas não sabiam nem tinham ideia nenhuma do que era o nosso mundo e conheceram um bocadinho de tudo porque fizemos muitas actividades desde enfeitar bandarilhas, pegar a tourinha, tourear a pé e a cavalo – fizeram um bocadinho de tudo. Isso traz aficionados à festa.
Para além dessa actividade esteve também mais para o fim da temporada numa escola a – ARPA?
A ARPA é uma escola diferente em que têm para além da vertente educativa normal acesso a outras coisas. Por exemplo, fazem produtos naturais, através de plantas. Além disso eles agora têm um cavalinho velho que lhes foi oferecido. Aos intervalos os meninos estão como cavalo e levam um lanchinho para ele e tudo. No entanto, não têm possibilidade para o poder montar porque não têm os equipamentos. Então pediram-mepara lhes oferecer alguma coisa. Eu então ofereci os estribos…
A Ana já ultrapassou a meia milena de corridas toureadas. Chegou a um ponto estável da sua carreira ou
ainda há margem de evolução?
Há, sem dúvida que tenho de ter. Não há dúvida que com a crise as dificuldades são acrescidas e as coisas estão fazê-lo porque tenho que ganhar dinheiro e a verdade é que há muitas corridas que não se pode ganhar dinheiro.
Por isso tenho que treinar ainda mais, tenho que fazer coisas diferentes porque somos muitos… O público também não está fácil: é cada vez mais exigentemas também não gosta só de toureio clássico. Temos que arranjar também uma forma de chegar a todo o tipo de público e estar bem. Por isso temos que ainda trabalhar mais – as pessoas gostam de ver novidades, gostam de ver cavalos novos e eu acho que tenho tentar fazer as coisas bem feitas com a minha linha que é o toureio clássico sim, mas, fazendo coisas que cheguem ao público com categoria.
Em tempos de crise, o que é que devia mudar?
Penso que os empresários deviam reduzir o número de espectáculos e apresentar espectáculos com muita qualidade e que chamem mesmo o público. Antes quaisquer que fossem os nomes do cartel as pessoas enchiam a praça mas agora já não acontece isso. Os empresários têm que ter mais cautela e sem dúvida procurar os toureiros que estejam a andar bem. Sem dúvida, continuar a dar oportunidade aos novos, onde há muitos nomes com muita qualidade. Há lugar para todos. Cada um tenha o seu estilo próprio!
No início da carreira, ser uma mulher toureira era uma novidade. E agora, existem diferenças de tratamento?
Isso passou por várias fases. Quando eu integrei o quarteto das Amazonas del Arte que foi um projecto diferente, eu lembro que nós íamos a uma praça em Espanha e não tinha quase ninguém, ninguém nos conhecia. E em Espanha são duros – há a morte do toiro e tudo mais – e então são um bocadinho machistas. Depois mexeram muito na nossa imagem, começámos a aparecer em revistas sociais e modificou-se – era um projecto de 15 corridas acabámos por fazer 50. Tornou-se moda ser toureira e ser mulher. Depois entrei noutra fase em Portugal – exigiram de mim, não por ser mulher mas por ser toureira- porque eu também nunca quis ser diferente – participava nos sorteios, toureava toiros duros tal e qual como os homens e então penso que também transmiti essa imagem ao público. Depois veio outra fase, há poucos anos atrás, em que ficou outra vez na moda a corrida das mulheres – porque era, cá em Portugal uma corrida diferente e a TVI divulgou muito isso. Era um cartel diferente e teve realmente muita força! Houve corridas que nós fomos que nunca estiveram esgotadas e que desta vez ficaram pessoas na rua. Depois, houve tantas corridas da mulher que acho que deixou de ser novidade e acabou por voltar ao que era e a exigirem. Mas mesmo nessa corrida das mulheres o público já não me via como uma mulher e penso que tanto eu como a Sónia, não eramos as meninas mas as toureiras e exigiam de nós.
Foi a veia feminina que a levou a criou uma linha de acessórios de moda? Como surgiu a ideia?
A imagem que estão a passar da moda taurina é muito espanhola. Mas o nosso traje português e os nossos acessórios são muito bonitos. Então quis aproveitar para mostrar uma imagem minha enquanto estou a tourear e por isso criei os acessórios, como as bolsinhas, iguais aos meus trajes curtos com que toureio. Tentei pôr muitas características dos nossos trajes, como os alamares e os cordões que simbolizam a imagem taurina portuguesa ligada à minha imagem também, porque são os tons dos meus trajes, os pormenores dos botões que eu tenho…
Como vai a afición actualmente?
Acho que nunca se exigiu tanto como se exige agora. Nomeadamente no toureiro a cavalo: exige-se que o cavalo seja bom, que seja bem montado, que seja bonito. Coisa que há uns anos atrás não acontecia. Temos um exemplo na história do toureio a cavalo, a do Herói, a que chamavam a “mula do Salgueiro”. Hoje se calhar o Salgueiro nem perdia tempo a montar um cavalo assim feio precisamente porque se exige que um cavalo seja bonito em praça.
Sara Teles
