A Feira da Moita não é dos moitenses, é dos aficionados, porque são eles que realmente aparecem na praça e, com bons cartéis, decididamente vão aparecendo mais aficionados. Levar os moitenses à praça é que me parece uma Missão Impossível, e não me consta que o Tom Cruise seja empresário taurino…
A Feira 2018 foi de muito bom nível, com cartazes bem montados, independentemente de episódios negativs, primou pelo positivo. Mas o ambiente taurino-popular das ruas da Moita não sobe à praça e o que acaba por acontecer na Feira Taurina da Moita podia perfeitamente ser desvinculado das datas das festas moitenses, criando-se, em substituição, um festejo popular na Daniel Nascimento mais adequado ao tipo de afición que impera na Moita. Por exemplo espectáculos de recortadores, forcão, vacadas populares. Eventualmente a novilhada para apresentar o excelente trabalho da Escola de Toureio da Moita, encabeçada por Luís Vital Procuna.
As corridas montadas para os quatro dias de feira podiam ter ocorrido noutra praça da região de Lisboa que as pessoas presentes seriam exactamente as mesmas.
A primeira corrida da Feira foi a chamada “Corrida do Município” e teve uma boa casa, para os padrões da Moita: bem mais de meia casa, com bons toiros de Falé Filipe que foram bem lidados. Em praça estiveram Vítor Ribeiro, Manuel Escribano, Nuno Casquinha e o grupo de forcados Amadores da Moita.
Na tarde do dia seguinte estiveram em praça os jovens valores, com a novilhada do abono desta feira importante. Aqui lidaram-se novilhos de diferentes ganadarias para Francisco Correia Lopes, Ricardo Cravidão, ambos a cavalo, e como espadas João D’Alva, Rui Jardim, Filipe Martinho, Miguel Muñoz. As pegas foram efectuadas pelo grupo de forcados Amadores da Moita.
A terceira da corrida foi um déjá vu propositado e bem sucedido, com um acréscimo de primeira: repetiram o cartel triunfador das Caldas da Rainha, com a corrida dos pais e filhos, tendo entrado o outro grande triunfador das Caldas, Francisco Palha. Outra moldura humana fora dos padrões da Moita.
Na última da Feira, a casa esteve boa, mas a corrida foi a mais frágil. O destaque ia para a alternativa de Verónica Cabaço, dada não pela cabeça de cartel, Ana Batista, mas antes pelo terceiro da ordem, Filipe Gonçalves. Em praça estiveram também Gilberto Filipe, Andrés Romero e António Prates.
Os triunfos da Moita ficaram entregues a Manuel Escribano, Nuno Casquinha, Francisco Palha e Ana Batista. Os touros que se impuseram foram os da divisa de Falé Filipe. E as pegas estiveram a grande nível no Aposento da Moita.
Vitor Ribeiro esteve bem em ambos os touros, toureando de frente e a provocar bem a investida. As suas pegas foram feitas pelos Amadores da Moita, no primeiro toiro foi à cara Filipe Correia, que consumou ao quarto intento. No segundo touro foi forcado de cara Fábio Silva, que realizou um pegão à primeira.
Manuel Escribano, a refazer-se de uma colhida na semana anterior, tendo mesmo havido dúvidas se viria à Daniel Nascimento, esteve grande e toureiro. Foi forte no capote, tendo dado mostras de valor com arte. No seu primeiro touro, Nuno Casquinha, ao sair ao quite, levou uma voltareta que o levou à enfermaria, sem que ficasse impedido de lidar. Na sua primeira lide, Escribano esteve bem a bandarilhar, com um estilo vistoso e correcto. Na muleta, manteve-se por cima do hastado, que tinha muito para dar e ele aproveitou bem.
Com o seu segundo touro, Escribano esteve mais emocionante a bandarilhar, mas na muleta foi onde se empregou mais e com resultados de verdadeira arte.
Nuno Casquinha manteve o bom nível da tarde de corrida mista, mesmo depois da sua aparatosa voltareta e de perna atada a ligaduras, veio cheio de toreria à sua primeira lide, mostrando o grande toureio que se fez do outro lado do Atlântico. Teve uma lide a um bom touro, mantendo um nível excelente no seu toureio.
Com o seu segundo, Casquinha voltou a brilhar nos três tércios tendo sido emotivo o momento em que ofereceu bandarilhas a Pedro Gonçalves, o grande bandarilheiro que este ano se vai retirar. Na muleta, teve passes diversificados, bem desenhados e com mando.
Na novilhada, não houve grande nota para dar, o problema real e óbvio é que quem anda a lançar-se no toureio em Portugal tem poucas oportunidades (ainda que muitas vozes digam que antes era pior, não duvido, contudo, continua a ser difícil e isso está patente no toureio jovem que vemos nas novilhadas).
João D’Alva que está a fazer uma boa rodagem em Espanha, mostrou os frutos desse trabalho, brilhando na tarde dada aos jovens, com pouca casa mas muita afición. Ajudou também que tivesse lidado o novilho estrela da tarde, de Falé Filipe.
Francisco Correia Lopes e Ricardo Cravidão ainda estão incipientes no seu processo taurino, contudo, Ricardo viu o seu cavalo tropeçar, resultando uma aparatosa queda, que permitiu vermos o quanto ele está toureiro na sua atitude e cheio de garra de seguir na vereda do toureio equestre português. As pegas foram feitas por João Gomes e Paulo Matos, ambas à segunda tentativa.
Rui Jardim recebeu no capote com uma larga e bonita afarolada, de seguida verónicas, rematadas a rebolera, um primeiro tércio bonito. Na restante faena houve muletazos importantes, mas ainda falta a profundidade que certamente vai conseguir aprimorar.
Filipe Martinho teve o novilho mais complicado da tarde, que ficava a meio da viagem, destapando-o, pelo que pouco conseguimos ver deste toureiro.
Miguel Muñoz abriu com uma sorte à porta gaiola, com uma larga afarolada de joelhos em terra, mas perdeu consistência ao longo dos outros tércios, tendo respondido mal à aspereza do seu Rio Frio, pelo que foi ‘agarrado’ quatro vezes, sendo que na última foi para enfermaria com um golpe na mão esquerda e fechou a sua lide D’Alva.
Em praça estiveram novilhos para cavalo de Fernandes de Castro, Falé Filipe, João Ramalho, Rio Frio, e o último, novamente, de um Fernandes de Castro.
As homenagens aos 40 anos de alternativa de João Moura sucedem-se, e a Moita não foi excepção, tendo sido descerrada uma placa na Daniel do Nascimento, evocativa da celebração.
O curro foi de Passanha, bom, mas que, apesar de sair com muita pata, perdia energia rapidamente. Serviram bem às lides. João Moura teve dois ferros de palmo de bom nível e uma lide homogénea.
António Ribeiro Telles entendeu-se muito bem com o seu oponente complicado e cravou à tira, com alegria, num touro que foi de mais a menos rapidamente.
Luís Rouxinol teve um dos melhores Passanhas, cravou bem, bregou bem, esteve bem.
Francisco Palha conseguiu superar um touro difícil, ao mesmo tempo que o ensinou e nos mostrou o que tem no seu cardápio de toureiro. Era um oponente reservado, a sair no último momento da sorte e encostado às tábuas, o que trouxe emoção.
Miguel Moura também não teve grande sorte no hastado que lhe coube em sorte, acabou por ser uma lide sem brilho.
Luís Rouxinol Júnior deparou-se com um touro que se adiantava e levou dois a três ferros a entender-se com ele, sendo que depois nos deu uma lide agradável com ferros de alto nível, fechando com um par de bandarilhas cheio de mestria.
António Ribeiro Telles Filho, como cavaleiro amador, lidou um novilho de Passanha cumpridor, permitindo uma lide de bom nível.
Nas pegas tivemos o Aposento da Moita, cujo cabo, José Maria Bettencourt, fez a primeira pega da noite à primeira; a segunda foi de Marcos Braga, que se lesionou e foi para a enfermaria; a terceira pega foi de João Ventura, à primeira; Leonardo Matias fez a quarta pega da noite ao segundo intento; Bernardo Cardoso, no quinto toiro, pegou à primeira; Martim Afonso de Carvalho no sexto também se fechou à primeira; e no sétimo touro foi à cara João Gomes, que se fechou ao terceiro intento.
A Moita fechou a Feira com a alternativa de Verónica Cabaço, que foi uma corrida difícil e de concurso de ganadarias. O touro que lhe foi entregue por Filipe Gonçalves foi um Prudêncio, cuja saída não deu jogo suficiente para a cavaleira ter presença. Nos ferros curtos levou mais um toque e depois encontrou-se com o touro e fechou com dois violinos.
Ana Batista teve em sorte um touro polémico. Tratava-se de um António Silva, com 650kg que não tinha movimento e prontamente foi mandado recolher pelo director de corrida, Manuel Gama, depois de ouvido o veterinário Jorge Moreira da Silva. Porém o touro não saía da praça… Familiarizado com os capotazos, ignorava-os, da mesma forma que ignorava cabrestos e campinos. Uma hora para deixar a arena.
Gilberto Filipe lidou o Veiga Teixeira, tendo estado bem na cravagem e seguro a rematar, teve uma lide alegre e variada que foi bem acolhida pelo público.
Filipe Gonçalves teve em sorte um Jorge de Carvalho que veio a ser o touro galardoado com ambos troféus em disputa: Bravura e Apresentação. A sua lide foi interessante, com reuniões pouco ortodoxas, mas toreras. Fechou com dois violinos e muita arte equestre que encantaram os tendidos.
Ana Batista voltou à praça depois do intervalo, altura em que se descerrou uma placa em homenagem ao forcado de Alcochete falecido após colhida na Moita, Fernando Quintella. A lide da cavaleira de Salvaterra foi de triunfo, junto de um sobrero de Passanha que não entrava no concurso de ganadarias da noite e deu bom jogo. Desafiou o toiro, aproveitou ele sair de todos os lados e sacou bons ferros, ao estribo, uma lide para recordar fechada a palmitos.
Andrés Romero apresentou-nos a mesma abertura de lide que fez no Campo Pequeno, indo buscar o touro com a sua jaqueta de abafo à porta gaiola. O touro de Canas Vigouroux deu lide, os ferros foram de rejoneador e fechou com um de palmo bem cravado.
António Prates, cavaleiro praticante, substituiu o cavaleiro mexicano Emiliano Gameiro, que se lesionou num joelho e não pode comparecer. Teve uma lide, ante um Fernandes de Castro, um pouco irregular, tendo optado por fechar com dois palmitos em sorte de violino.
A noite não foi fácil para a forcadagem, os Amadores de Évora, enviaram à cara António Torres (primeira tentativa); José Maria Passanha (primeira tentativa); Ricardo Sousa (difícil pega ao quinto intento). E pelos Amadores de Alcochete, tivemos João Guerreiro (primeira tentativa); Pedro Gil foi dobrado por Vítor Marques (primeira tentativa), após lesão num joelho; Manuel Pinto (primeira tentativa).
A Moita é mais notícia por ter mais entradas do que no ano anterior do que é notícia pelos triunfos que se obteram. E há histórias obscuras que parece estar implicitamente concordado ninguém revelar. Talvez não seja preciso, porque realmente aquilo que é preciso é que venha cada vez mais gente às praças.
Sílvia Del Quema
